Entrevista António Damásio
 
 
Revista: Viver Mente & Cérebro Scientific American
Ano XIII Nº143 - Dezembro 2004 - www.vivermentecerebro.com.br
 
 
      Perfil António Damásio
 
      Nascido em 1944 em Lisboa, foi para o Centro de Pesquisa sobre a Afasia, em Boston, após obter o dourado em neurobiologia. Desde 1976, dirige o Departamento de Neurologia da Universidade de lowa. Interessado em neurobiologia do espírito, memória, mecanismos de tomada de decisão e emoções, fundamentos dos comportamentos sociais, Damásio tem mostrado como emoções e sentimentos fazem parte do processo regulador da vida e são essenciais não só para a sobrevivência individual, mas também para o êxito da espécie humana. Seus livros foram publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
 
 
 
      Neurologista defende a inclusão das ciências sociais e humanas, ao lado das neurociências e das ciências cognitivas, na abordagem da natureza do homem e das regras da vida social

       Descartes destacou como a principal qualidade humana a capacidade de raciocínio, livre de qualquer influência do corpo sobre a mente. Neurologistas e filósofos hoje contestam essa visão, afirmando que as emoções determinam em parte o conteúdo mental. O neurologista e neurobiólogo Antônio Damásio desferiu um sério golpe no edifício cartesiano em O Erro de Descartes, no qual sustenta que nossos juízos intelectuais e morais são determinados, para além da lógica interna ao cérebro, por emoções.

      Nascido em Portugal, Damásio instalou-se nos Estados Unidos, ao lado da esposa Hannah, também neurologista, há 30 anos. Juntos formaram um dos maiores bancos de dados mundiais sobre lesões cerebrais, reunindo dossiês neurológicos e psicológicos de milhares de pacientes. Estudando as conseqüências dessas lesões sobre pensamento, emoções e comportamento, conseguiram chaves para compreender o funcionamento do cérebro normal.

      Damásio descobriu que diversas doenças ou acidentes que perturbam o funcionamento do corpo repercutem no estado mental, nos juízos e nas emoções.

      Inversamente, as emoções determinam em parte o modo pelo qual tomamos decisões e construímos nossa própria imagem. Esta é a mensagem de O Erro lê Descartes e O mistério da consciência. Em seu último livro, Em busca de Espinosa, ele vai adiante: os sentimentos caracterizam toda a nossa existência: são uma "experiência de vida condensada".

      VM&C O QUE O ENTUSIASMA EM SEUS ESTUDOS SOBRE O CÉREBRO HUMANO E, PRINCIPALMENTE, SOBRE O PAPEL DAS EMOÇÕES?

      DAMÁSIO: O que me fascina é o estudo das lesões cerebrais e dos efeitos que produzem sobre o espírito. Quando uma região é deficiente ou está destruída, o comportamento do paciente pode mudar inteiramente, mas por vezes muda apenas de forma sutil. Como compreender, por exemplo, que uma pessoa disponha de um notável quociente intelectual, mas seja incapaz de tomar decisões sensatas para organizar sua trajetória a longo prazo, sua carreira e sua vida familiar? Essas pessoas elaboram discursos de grande rigor racional, mas têm uma péssima percepção dos riscos. Não sabem dar conta de situações de perigo. O acesso a reações emocionais normais, por exemplo, as que temos diante de uma situação perigosa e que nos fazem adotar uma atitude de retraimento, prudência e até de receio, está bloqueado em decorrência das lesões. Isto indica o papel central das emoções na tomada de decisão, domínio de expressão por excelência do juízo, da inteligência e da deliberação. Assim, há uma inteligência das emoções. Fascina-me o fato de que as emoções não representam, como pensava Descartes, o lado obscuro do espírito humano, mas, ao contrário, nos ajudam a tomar boas decisões.

      VM&C HÁ UMA DISTINÇÃO ENTRE EMOÇÕES E SENTIMENTOS?
      
     DAMÁSIO: Sim. Na linguagem corrente os dois termos são considerados sinônimos, o que mostra a estreita conexão que os une. Mas tentemos defini-los com precisão. Penso que uma emoção é um conjunto de reações corporais a certos estímulos. Quando temos medo, o ritmo cardíaco se acelera, a boca seca, a pele empalidece e os músculos se contraem -reações automáticas e inconscientes. Os sentimentos, por sua vez, surgem quando tomamos consciência destas "emoções" corporais, no momento em que estas são transferidas para certas zonas do cérebro onde são codificadas sob a forma de uma atividade neuronal. Para prosseguir com o exemplo, as modificações fisiológicas fazem com que experimentemos um sentimento de medo.

      VM&C OS SENTIMENTOS ENTÃO NASCEM DAS EMOÇÕES?

      DAMÁSIO: Sim. O cérebro recebe continuamente sinais provenientes do corpo, tal como um espectador. Cada estado é representado sob a forma de uma combinação de atividades de neurônios singular, em centros denominados somatossensoriais. Cada um de nós possui um mapa pessoal dos sentimentos: alguém que experimentou o medo memorizou inconscientemente uma combinação de modificações de seus parâmetros fisiológicos, que ficou gravada em um conjunto de neurônios do córtex somatossensorial: cada vez que o conjunto for ativado, experimenta-se um novo sentimento de medo. Os sentimentos emergem da leitura de mapas em que estão marcadas as alterações emocionais: são como reproduções instantâneas de nosso estado corporal.

      VM&C: TODOS os SENTIMENTOS NASCERIAM DE UMA REAÇÃO CORPORAL?

     DAMÁSIO: Não. Uma vez registrado o sentimento (quando o mapa correspondente foi estabelecido), ele pode ser reavivado "do interior", em certa medida sem a intervenção do corpo. Ao nos lembrarmos de uma tarde agradável, reencontramos a emoção que sentimos na ocasião. Mas notemos que a emoção só aparece em toda a sua limpidez quando o corpo participa dela novamente.

      VM&C: NO SEU ENTENDER, AS NEUROCIÊNCIAS PODERIAM REDUZIR UM DIA OS SENTIMENTOS A "FICÇÕES ÚTEIS" DO CÉREBRO?

      DAMÁSIO: De forma alguma. Medo, alegria ou amor são eventos humanos reais e se exprimem mediante certos comportamentos. O fato de melhor compreendê-los nada tirará de seu interesse ou de sua força.

      VM&C: A DISTINÇÃO ENTRE EMOÇÃO E SENTIMENTO LEMBRA ESTRANHAMENTE O DUALISMO DE DESCARTES. COMO REPRESENTARA RELAÇÃO ENTRE CORPO E ESPÍRITO?

      DAMÁSIO: Parece-me equivocada a idéia de Descartes segundo a qual estas são substâncias essencialmente distintas. O corpo e o espírito seriam sim dois aspectos diferentes de uma certa classe de mecanismos biológicos. Alguns anos após Descartes, Espinosa entreviu isso. Em sua Ética escreveu: "A idéia do espírito humano foi construída a partir de um objeto: o corpo". Essa frase antecipa os conhecimentos da neurobiologia moderna.

      VM&C EM SEU ÚLTIMO LIVRO, ESPINOSA É QUALIFICADO DE IMUNOLOCISTA ESPIRITUAL EM BUSCA DE UMA VACINA CONTRA AS PULSÕES. SERÁ PRECISO VIVER SEM PAIXÕES?

      DAMÁSIO: O que me fascina em Espinosa não é tanto sua clarividência sobre os temas de ordem biológica, mas as conclusões que extrai desse conhecimento para refletir sobre o que seria uma vida justa e qual a organização ideal da sociedade. Ele recomenda opor aos afetos negativos, como a tristeza e o medo, outros positivos como a alegria, definidos como uma forma de paz interior e de impassibilidade estóica.

      VM&C: ALÉM DE SERVIREM PARA TOMARMOS DECISÕES, QUAIS AS OUTRAS FUNÇÕES DOS SENTIMENTOS?

      DAMÁSIO: Eles têm um papel social e moral. Em nosso laboratório, investigamos a compaixão, a vergonha e o orgulho, fundamentos da moral. Elucidando as bases de sentimentos como esses, a neurobiologia desvenda não só a natureza humana individual, mas as regras da vida social. Para isto é preciso empregar uma abordagem experimental ampliada: além das neurociências e das ciências cognitivas, deve-se levar em conta as ciências sociais e humanas.

      VM&C: PARA MUITOS, A CONSCIÊNCIA HUMANA É TÃO INACESSÍVEL À PESQUISA QUANTO AS EMOÇÕES ANTIGAMENTE, JÁ QUE SEU ESTUDO SE BASEIA EM TESTEMUNHOS SUBJETIVOS E NÃO EM FATOS.

      DAMÁSIO: A subjetividade pode ser objeto da ciência? E a nossa aposta: pensamos que é preciso coletar testemunhos das pessoas sobre suas experiências interiores, observar do exterior o comportamento e medir a atividade cerebral. Esses três "ângulos de observação" deveriam ser complementares e ajudar a circunscrever melhor a realidade do ser humano. Relacionando esses níveis, podemos elaborar uma teoria da consciência capaz de gerar hipóteses verificáveis pelas experiências. Do meu ponto de vista, a consciência é tão acessível à pesquisa científica quanto quaisquer outros fenômenos mentais.

      VM&C: QUAL O PAPEL DO CORPO NA EMERGÊNCIA DA CONSCIÊNCIA?

      DAMÁSIO: A consciência de si é construída a partir de uma imagem do corpo, que decorre por sua vez das sensações que experimentamos (frio, calor, palpitações do coração, movimentos etc.). Elaboramos uma imagem de nosso corpo e de suas reações em função dos constrangimentos externos. Representação do corpo e consciência estão intimamente ligados.

      VM&C: POR QUE o SER HUMANO DESENVOLVEU UMA CONSCIÊNCIA DE SI?

      DAMÁSIO: Penso que o corpo precisa verificar sem cessar que seu equilíbrio (sua homeostase) está sendo respeitado. O cérebro deve receber informações atualizadas sobre o estado do corpo a fim de regular os mecanismos vitais. Diante de um perigo, o corpo reage por meio de um conjunto de reações fisiológicas, que o cérebro converte em atividade neuronal. É preciso aceder à atividade neuronal e tomar consciência dela para agir.
Para o organismo, é a única maneira de sobreviver num meio em perpétua mudança. As emoções, sem sentimentos conscientes, não bastam.

      VM&C: DEVEMOS CONCLUIR QUE OS ANIMAIS TÊM CONSCIÊNCIA?

     DAMÁSIO: Penso que os animais também formam conceitos de si simples, que eu chamo de "núcleo de si". Para um eu mais amplo, tal como o encontrado na espécie humana, é preciso uma memória autobiográfica.

      VM&C: SEREMOS CAPAZES DE CRIAR ARTIFICIALMENTE CONSCIÊNCIA E SENTIMENTOS?

     DAMÁSIO: Atualmente não se pode responder esta questão. Por outro lado, é possível enunciar as condições necessárias ao surgimento de sentimentos e de uma consciência. Para que isto ocorra, um robô deve ser capaz, exatamente como se dá no homem, de criar em seu "cérebro" uma representação de suas funções corporais e de suas alterações, isto é, de perceber a si mesmo. Não pode haver consciência sem este mecanismo. Uma outra questão, evidentemente, é saber se desejamos uma máquina capaz de sentimentos.

      VM&C: A PESQUISA SOBRE EMOÇÕES AJUDARÁ NO TRATAMENTO DAS DOENÇAS DO ESPÍRITO?

      DAMÁSIO: Sim, pois os problemas emocionais constituem o núcleo da maior parte das doenças mentais. No futuro certamente teremos tratamentos específicos e medicamentos que agirão sobre sistemas celulares ou moleculares que intervém na gênese das emoções. Outras formas de terapia, como as psicoterapias, provavelmente se beneficiarão das pesquisas sobre as emoções.