A MEDICINA TECNOCÊNTRICA

A medicina tem cura?

Texto: Wilson Luiz Sanvito

 

A reprodução clonal do ser humano acha-se no rol das coisas preocupantes da ciência, juntamente com o controle do comportamento, a engenharia genética, o transplante de cabeças, a poesia de computador e o crescimento irrestrito das flores plásticas.

 

 

Lewis Thomas

 Nós devemos estimular o “bom uso” dos avanços médicos, no sentido de maximizar os seus efeitos benéficos e neutralizar (ou minimizar) os seus efeitos adversos.

Os custos dos atos médicos são crescentes, mas sua eficácia, nem sempre.

 

 

Três revoluções transformaram a face do mundo neste século: a manipulação do átomo (energia atômica), a manipulação do gene (engenharia genética) e a manipulação da informática (informática). Toda transformação – particularmente quando rápida – é traumática, pois implica rupturas com o sistema vigente e nem sempre a assimilação pela sociedade é pacífica. Na Antiguidade, o homem podia ter uma dimensão humana do mundo; a partir da revolução científico-tecnológica, ele começa a perder essa dimensão. Ao contrário do pensamento oriental tradicional, que ainda se fundamenta na pulverização dos conhecimentos. No mundo de hoje somente o discurso do especialista é competente: as partes se sobrepõem ao todo. Estamos caminhando celeremente para a civilização da megamáquina. A técnica multiplica os meios à disposição da humanidade. Mas, com freqüência, os avanços técnicos atropelam os meios e passam a ser fins. Para cada ato individual ou coletivo, temos um engenho ad hoc. Como extensão de nossos músculos temos os veículos automotores, e como extensão de nossos cérebros temos desde os microprocessadores até os supercomputadores. Estes engenhos balizam, de modo crescente, todos os nossos atos, de tal sorte que somos hoje tecnodependentes. Estamos ingressando na era do homem automático. Ontem, o homem corria o risco de ser escravo, hoje corre o risco de ser robô. Mas, além de tecnodependentes, somos também, com certa freqüência, tecnovítimas. Certa ocasião, um professor da Universidade de Chicago disse a seus alunos que imaginassem ter aparecido na Terra um ser supra-humano, oferecendo aos homens ensinar-lhes uma coisa mágica, que faria a vida incomparavelmente mais confortável, colorida e divertida; em retribuição, os homens deveriam oferecer-lhe anualmente um sacrifício sangrento de 50.000 vidas humanas. Com que indignações teriam sido repelidas pelos homens! Mas, então — concluiu o professor — apareceu o automóvel.

 

Tecnologia Médica

O que é tecnologia? A palavra "tecnologia" deriva do grego “technologia” que significa arte ou habilidade. Sendo uma atividade prática, a tecnologia tem maior capacidade de modificar do que de compreender o mundo. Enquanto a ciência persegue a verdade, a tecnologia prega a eficiência. E, enquanto a ciência procura formular as leis a que a natureza obedece, a tecnologia utiliza essas formulações para criar implementos e equipamentos que façam a natureza obedecer ao homem. Até a Idade Média, o homem era um simples espectador da natureza; a harmonia do Universo, obra de Deus, devia ser contemplada. Admirar a Lua, não ir à Lua. O mundo medieval era teocêntrico. Com o advento do Renascimento, o homem desperta e de simples criatura passa a ser criador — uma espécie de contramestre da criação. E o mundo antropocêntrico. Daí para frente o  homem não se contenta em interpretar o mundo, ele quer transformá-lo. E as transformações se sucedem num tal ritmo que hoje estamos vivendo num mundo tecnocêntrico.

Numa sociedade tecnológica, a ação do médico é transferida progressivamente para os aros técnicos e para os medicamentos. Isto significa que quanto menos o médico dá de sua pessoa e de seu tempo, mais medicamentos prescreve e mais exames de laboratório pede. Esta situação só privilegia  as indústrias que vivem de uma superoferta tecnológica. Mesmo não sendo um militante da tecnofobia, tenho pensado e repensado os efeitos colaterais da técnica e vejo com preocupação a crescente perversão tecnológica no meio médico. A medicina não está mais nas mãos dos médicos (ou dos profissionais da saúde), mas sim da indústria farmacêutica e de equipamentos e das empresas de saúde que vendem serviços médicos.

 

Complexo Médico-Industríal

 

No século XX floresceram a indústria farmacêutica e a indústria de equipamentos médicos, configurando o que podemos chamar de complexo médico-industrial. Na óptica de Bosquet, a medicina foi cooptada e integrada na esfera de produção capitalista; ela deixa de ser um artesanato (ou uma arte) para se transformar numa, indústria dominada pela lógica da acumulação e da rentabilidade de capitais crescentes. Esta industrialização, afirma, se efetua em dois planos: aquele da produção de "bens de saúde" e aquele da "administração de tratamento".

O complexo médico-industrial atingiu proporções gigantescas pela exploração de uma medicina lucrativa, que tem atraído para a área da assistência médica vultosos recursos do capital industrial e financeiro. O estilo ocidental da pretensa medicina curativa foi exportado para o Terceiro Mundo. Na esteira do imperialismo foram criadas instituições de alto requinte tecnológico. Essas instituições perenizam o relacionamento colonial de um modo mais sutil, tornando as ex-colônias dependentes das tecnologias e das provisões dos países do Primeiro Mundo. E a indústria de equipamentos é uma das pernas em que se apóia este tipo de medicina: a medicina instrumentalizada, que começou a ser implementada no século XIX, através da invenção e incorporação de novos instrumentos. E daí nunca mais parou. Neste século, a revolução da técnica transformou completamente a prática médica pela otimização dos conhecimentos científicos e pela incorporação crescente de equipamentos cada vez mais sofisticados. As técnicas laboratoriais refinadas (incluindo as de biologia molecular) e o uso progressivo de máquinas — tanto para o diagnóstico de doenças como para o tratamento de doentes — tornaram rotineiras as ações complexas de saúde. Lamentavelmente, nas escolas médicas, se dá ênfase a este tipo de medicina tecnologizada. A maioria dos médicos não cultiva a prática de uma medicina despojada. Uma das primeiras  coisas que se ensinava aos estudantes da velha escola era: em 90% dos casos, o doente cura-se por si mesmo; o organismo é o melhor médico. E se acrescentava: as doenças raras são raras.

A medicina instrumentalizada é plenamente justificável para uma pequena amostra da população com suspeita, consistente, de patologias estruturais. Entretanto, os arautos da indústria da saúde criam falsas necessidades, no sentido de que as pessoas têm que se submeter a exames complexos para cuidar de sua saúde. E o superconsumo de atos médicos para atender à demanda da superoferta tecnológica do complexo médico-industrial.

Também a indústria farmacêutica cresceu muito com o desenvolvimento do capitalismo e, principalmente, com a crescente industrialização do setor químico e petroquímico. E as perspectivas são ainda mais promissoras com o desenvolvimento da biotecnologia. Houve um avanço extraordinário da indústria farmacêutica, que movimenta hoje, muitos bilhões de dólares no mundo inteiro. Refere Landmann que somente a Companhia Farmacêutica Eli Lilly gastou, nos últimos anos, 250 milhões de dólares em escolas médicas americanas — certamente com a finalidade de reforçar a estrutura curricular, no sentido de doutrinar o estudante para maior conhecimento farmacológico e maior utilização de drogas. E preciso, a qualquer custo, convencer a corporação médica e os demais profissionais da saúde, e até mesmo a sociedade, de que cada doença tem uma causa definida (geralmente única) e, portanto, deve ter a sua bala mágica ou o seu míssil que a fulminará. Novamente é Bosquet quem afirma: "A estratégia dos trustes farmacêuticos é de convencer as pessoas, com a ajuda da corporação médica, de que a saúde é uma mercadoria como outra qualquer; não somente para comprá-la, mas é necessário comprar para tê-la. A compra de medicamentos (ou de atos médicos) é apresentada como único meio de preservar, de melhorar ou de restabelecer a saúde." Remédios e equipamentos: consumir é preciso. O médico não traça somente os doentes, ele trata também os saudáveis. E a medicalização da saúde. Estima-se que o consumo de medicamentos nos países civilizados atinge proporções fantásticas: entre 50% e 80% dos franceses, ingleses e americanos consomem todos os dias um ou mais medicamentos. No Brasil, as cifras não devem ser diferentes. O nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas crônicas, já dizia: "De modo geral, quer me parecer que o homem contemporâneo está mais escravizado aos remédios do que às enfermidades." Um laboratório farmacêutico comercializou na França, e convenceu a classe médica a receitar, um produto apresentado como capaz de tratar "o mal das favelas”. Essa medicalização de um problema social expressa com fidelidade a sociedade patológica de nosso tempo. O alvo é sempre biológico, não importando os problemas psíquicos, sociais ou ambientais do indivíduo.

Em virtude do poder político e econômico de que dispõe e de visar primordialmente o lucro, o complexo médico-industríal orienta a medicina na direção de suas conveniências. Para isso este complexo usa e abusa da publicidade, do amaciamento da corporação médica e da manipulação da sociedade. Essa publicidade pode ser ostensiva, desde o anúncio de medicamentos nas mídias, ou disfarçada (e até subliminar) como ocorre nos congressos médicos, nos trabalhos científicos, nas revistas médicas. Os modernos meios de comunicação procuram repassar, quase diariamente, ao grande público as excelências da medicina tecnológica, fazendo crer que a solução para os problemas da saúde está na técnica e não no estilo de vida, na estrutura social, na subnutrição, nos fatores ambientais e outros que tais.

No setor de medicamentos, todos os médicos conhecem bem a força dos laboratórios farmacêuticos. A classe médica vive sufocada por uma maciça publicidade farmacêutica. Diz-se até que o lema repassado ao propagandista, pelos seus patrões, é: “Se você não puder convencê-los, confunda-os”. Após a conclusão do curso de graduação, a maioria dos médicos fica absolutamente jejuna de atualização (por falta de programas de educação médica continuada) e, deste modo, inteiramente à mercê de informação veiculada pelos laboratórios farmacêuticos. No setor de equipamentos médicos, o panorama não é diferente. Ainda recentemente compulsei uma volumosa publicação (luxuosamente impressa), redigida em cinco idiomas, só sobre avanços em equipamentos médicos. Ali se via, por exemplo, cateteres, sondas, fibroscópios com pequenas modificações em relação aos modelos anteriores (maquiados, como se diz agora), anunciados como a última palavra e conclamando os médicos a adquiri-los sob pena de ficarem defasados da moderna tecnologia médica.

Remédios e equipamentos, consumir é preciso. É o superconsumo para a felicidade da indústria da saúde. Na sociedade contemporânea apareceram novos tipos de consumidores: são os drogués de la technologie.

Por outro lado, é preciso entender que o complexo médico-industrial tem que investir pesadamente na pesquisa e esse é um investimento de risco. É o caso da indústria farmacêutica. As multinacionais, com massa crítica para pesquisa, têm que investir altas somas para a descoberta de novas drogas. E nem sempre esse investimento é coroado de sucesso. Também é preciso prudência ao verberar os excessos da alopatia e dos laboratórios farmacêuticos, pois o radicalismo, além de não ser bom conselheiro, pode buscar soluções nas formas alternativas de tratamento (medicinas paralelas). A maioria destas ainda carece de um embasamento científico ou de comprovação de sua eficácia calcada numa metodologia rigorosa.

Last but not least, a utilização crescente da alta tecnologia dispara os custos médicos, tornando praticamente inviável a sua extensão ao conjunto da população. Se nos países desenvolvidos, produtores e exportadores dessa tecnologia, o problema dos custos assume proporções preocupantes, nos países subdesenvolvidos, meros consumidores dessa tecnologia, a situação é muito mais séria. O jornal "Folha de S. Paulo”, em 30/08/92, transcreve matéria do USA Todaycom o seguinte título: "Doentes americanos pedem concordata".