SABER ERUDITO E SABER POPULAR
NA MEDICINA COLONIAL

Flávio Edler e Maria Raquel Fróes da Fonseca*

 

 


        Durante os três primeiros séculos da colonização brasileira, a sociedade branca recorreu indiferentemente às formas de cura trazidas da Europa ou àquelas a que diversas etnias, com as quais se manteve em constante contato, utilizavam para lutar contra os males que as acometiam. Mesmo os portugueses, muito embora se tratassem com seus médicos, cirurgiões e barbeiros vindos de Portugal, não hesitavam, quando precisavam curar suas feridas, em se servir do azeite de copaíba utilizado pelos indígenas para esse fim, depois, com a vinda dos escravos africanos, aderiram igualmente a certas curas relacionadas com a magia, como podemos ver pelas visitas inquisitoriais.

         Nas correspondências avulsas encetadas entre metrópole e colônia enfatizava-se com freqüência a falta de médicos, remédios e hospitais. Mas, ao contrário da avaliação apressada realizada por alguns historiadores que afirmavam ser a falta de médicos o fator responsável pelo grande número de curandeiros e charlatães, é preciso que se pergunte: quais os setores da população que ressentiam-se da escassez desses profissionais? Ora, o florescimento das demais artes de cura esteve intrinsecamente ligado às diferentes raízes culturais das populações aqui residentes. Além disso, os missionários jesuítas — principais suportes da educação colonial — que tomaram para si o papel de curadores aproveitaram muito da medicina indígena, tornando as plantas medicinais brasileiras famosas em todo o mundo. Pelas mãos dos jesuítas, a Triaga Brasílica, uma panacéia composta de elementos da flora nativa, que chegou a ser a segunda fonte de renda da ordem jesuíta na Bahia, ganhou fama internacional. Aos jesuítas deve-se imputar a iniciativa de intercâmbio entre esses universos da medicina, já que eles também absorviam o saber dos físicos, cirurgiões e boticários, aplicando-os nos precários hospitais da Santa-Casa da Misericórdia.

        Mas que relações mantinham os físicos, cirurgiões e boticários portugueses com os demais agentes de cura? Embora geralmente preconceituosos em relação a outros elementos pagãos e "selvagens" da cultura indígena, os colonizadores se interessaram em recolher informações sobre como os indígenas e seus pajés faziam para combater as doenças que grassavam no lugar. Observavam, imitavam, experimentavam e descreviam as propriedades terapêuticas das novas espécies e seus usos, e divulgavam-nas nas metrópoles, ampliando os saberes sobre a Matéria Médica. Mais tarde, tal saber retornava à colônia em compêndio de farmacopéia, informando a atividade de boticários profissionais, religiosos ou leigos. Tal roteiro não foi tão linear, entretanto como possa parecer. Bernardino Antônio Gomes, médico português que veio para a colônia em fins do século XVIII, observou em certa ocasião, o pouco uso feito pelos médicos portugueses das plantas medicinais do país, entendendo que isso ocorria porque tendo aprendido medicina das universidades européias, eles curavam tudo "à européia, bem ao contrário do que fez [Wilhelm] Piso — o famoso médico e naturalista trazido por Nassau, no século XVII —, desprezam miudamente a medicina indígena".

         De todas as práticas terapêuticas, o uso das ervas medicinais era a que maior legitimidade popular possuía, como atesta o famoso comentário do naturalista Von Martius — "a mata é a farmácia deste povo". Mezinheiros, curandeiros africanos e pajés utilizavam folhas, frutos, sementes, raízes, essências, bálsamos e resinas, partes lenhosas e brancas que esmagavam entre as pedras, pulverizavam, carbonizavam, dissolviam, maceravam. Coziam, para ingerir, aspirar, friccionar ou aplicar em cataplasma numa extensa série de doenças. Não se pode esquecer que o emprego dessas plantas tinha um sentido mágico ou místico. Determinados minerais, bem como partes do corpo de animais, eram usados como medicamentos ou amuletos. Se a antropofagia ritual era encarada com horror pelos europeus, a utilização da saliva, da urina e das fezes humana ou animal, eram compartilhadas como recurso terapêutico, embora possuindo um significado distinto para ambas as culturas. Enquanto a sucção ou sopro dos espíritos malignos, a fumigação pelo tabaco, os banhos, fricções com cinzas e ervas aromáticas, o jejum ritualístico, eram desprezados como elementos bárbaros, a teoria das assinaturas, que supunha existir, radicado em cada região, o antídoto das doenças do lugar, autorizava a assimilação da farmacopéia empírica popular.

         Se em ampla variedade de aspecto o saber erudito e o popular eram indissociáveis na experiência dos distintos extratos sociais, os representantes da arte oficial lutavam ferrenhamente contra os que praticavam as curas na informalidade. Reivindicando para si o controle do corpo, a medicina oficial esvaziava o sentido dos conhecimentos terapêuticos populares e reinterpretava-os à luz do saber erudito. A fluidez entre o domínio da medicina e aquele da feitiçaria, com o emprego de cadáveres humanos e de animais associados ao universo demoníaco, como o sapo, o cão negro, o morcego e o bode na produção de remédios, impunha aos portadores de diploma a tarefa de distinguir o procedimento "científico", das crenças populares "supersticiosas". Nesta tarefa encontravam o apoio da Igreja e das ordenações do Reino. No imaginário popular, os santos, vistos mais como especialistas do que como clínicos gerais, seriam responsáveis por um grande número de curas. Fazendo restrições no que respeitava à intervenção dos santos e das palavras sagradas, a não ser quando praticados ou recomendados pelo clero, a Igreja e os médicos reforçavam a idéia de que Deus distribuíra com parcimônia o acesso ao domínio do sagrado, vetando-o aos indivíduos rústicos. Tal como as confrarias iriam amolecer a rigidez da fé oficial da Igreja, quebrando a unidade da religião luso-brasileira e tornando-a mais humana e consoladora para os distintos grupos sociais, os curandeiros leigos seriam até certo ponto bem tolerados.

Bibliografia

DEL PRIORI, M. Ao sul do Corpo. Condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia, Rio de Janeiro, José Olympio, 1995.

MARQUES, V.R.B. Natureza em Boiões: medicina e boticários no Brasil setecentista, Campinas, Ed. Unicamp, 1999.

RIBEIRO, L. Medicina no Brasil Colonial, Rio de Janeiro, s.e., 1971

RIBEIRO, M. M. A ciência dos trópicos. A arte médica no Brasil do século XVIII, São
Paulo, Hucitec, 1997.


* Pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, Flávio Edler, doutor em Saúde Coletiva, e Mª Rachel da Fonseca, doutora em História. Integrandes do projeto "História da Educação Médica no Brasil no Século XX", parceria da ABEM e da Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ.