MANUAL DO AUXILIAR PSIQUIÁTRICO

Transtornos do Humor Psicóticos

Descrição Geral

        Diferentes tipos de sintomas se encaixam dentro deste quadro clínico, e todos eles envolvem grandes perturbações da afetividade. Geralmente, os pacientes apresentam períodos ou episódios de doença, intercalados por períodos de saúde mental. Os episódios podem ser maníacos (excitação, muita atividade, agitação e loquacidade) ou depressivos (desânimo, pouca atividade, tristeza, depressão, angústia), ou apresentar esses estados alternadamente. Por isso, esses transtornos são comumente designados por psicoses cíclicas. Essa doença é duas vezes mais comum entre as mulheres do que entre os homens, podendo ocorrer em qualquer idade, ainda que menos freqüente na juventude.

Causas

        As causas dessa perturbação são complexas e, sob certos aspectos, obscuras. Em sua incidência parece haver uma tendência hereditária. Ocorre com maior freqüência em pessoas de personalidade ciclotímica (tipo corporal pícnico, humor variável entre o otimismo e o pessimismo). Das doenças mentais, é aquela em que a hereditariedade parece ter maior importância.

Sintomas

        Como os sintomas da fase maníaca e da depressiva diferem consideravelmente, serão descritos em separado. Alguns pacientes manifestam apenas sintomas maníacos ou apenas depressivos, ao passo que outros apresentam as duas fases alternadamente ou exibem qualquer delas em diferentes ocasiões:

Sintomas Maníacos Somáticos:
Sintomas Maníacos Mentais:
Necessidade de estar sempre fazendo alguma coisa, de movimentar-se constantemente.
Autoconfiança, convencimento.
Caprichos, instabilidade.
Excitação motora.
Egoísmo, tendência a ser intrometido e dominador.
Aumento do apetite sexual, pouca inibição.
Intolerância a críticas.
O falar pode ser rimado ou chistoso; as palavras associando-se às vezes mais pelo som do que pelo sentido.
Pensamento acelerado, fuga de idéias (sintoma muito característico da mania), idéias grandiosas, atenção dispersa.
Cantos, assobios ou risos, contínuos.
O paciente talvez não identifique bem as pessoas, mas geralmente está bem orientado.
Tendência a enfeitar-se ou a despir-se.
Distúrbios de memória: ilusão do “já visto e nunca visto”, falsos reconhecimentos, ilusões.
O doente poderá destruir o colchão, arrancar o reboco das paredes, empregar excrementos para fins “artísticos”.
Às vezes, combatividade e agressividade.
Insônia por vezes rebelde.
Agitação permanente.


Sintomas Depressivos Somáticos
Sintomas Depressivos Mentais
Pouca atividade.
Tristeza. O doente julga-se um fracassado. Idéias de culpa, de auto-acusação, de ruína, de desgraça. Pessimismo.
Fraqueza, emagrecimento, cansaço fácil.
Aparência de grande abatimento.
O paciente se diz incapaz de fazer alguma coisa, julga-se um inútil.
Língua saburrosa.
Gosta de ficar isolado e evita a companhia dos outros.
Tendência ao mutismo.
São comuns as interpretações pessimistas (batidas no porão significariam que estão fazendo o seu caixão).
Pouco ou nenhum apetite.
Alucinação em alguns casos.
Insônia devida à preocupação.
O paciente poderá possuir relativa compreensão, mesmo no estado de estupor.

Tratamento e Cura

        Os surtos dessa moléstia têm tendência a desaparecer, embora as recidivas sejam de se esperar. O surto pode durar alguns dias ou até vários anos. Pouco se sabe sobre os fatores que trazem a recuperação, mas a convulsoterapia e as drogas psicotrópicas têm sido utilizadas, com muito êxito, no tratamento desses pacientes. O eletrochoque era o tratamento de escolha nos casos de depressão e apresenta também bons resultados nos casos de agitação, que são hoje tratados de preferência pelos psicotrópicos: amplictil, reserpina, haloperidol, sonoterapia, etc.

        O agravamento de novos surtos pode ser evitado, fazendo-se com que o paciente compreenda o seu caso, saiba reconhecer os sinais de recidiva e esteja apto a procurar o médico tão cedo eles se apresentem. Essa doença não causa dano permanente à mente ou à personalidade do paciente.

Como Cuidar desses Pacientes

        Os cuidados variam muito, de acordo com a fase maníaca depressiva. As sugestões seguintes são valiosas para se cuidar de quaisquer pacientes excitados ou deprimidos, seja qual for o seu diagnóstico.

        O maníaco será provavelmente o seu paciente mais interessante. Evite a inclinação de amimá-lo ou exibi-lo a outras pessoas. Trate-o com serenidade, respeito e bom-humor, evitando que ele domine a enfermaria. Entretanto, se você tentar contrariá-lo ele poderá reagir com agressividade. A atenção de tais pacientes é fácil de ser desviada, sendo este recurso de grande utilidade. O silêncio é a melhor maneira de responder às suas afrontas a menos que você tenha a paciência e a boa vontade de “abrandar-lhe a ira com uma resposta amena”. Discussões, ordens autoritárias e argumentos não devem ser utilizados. Tenha sempre em mente que o autocontrole desses pacientes é tão fraco que eles agem quase sempre sem pensar nas conseqüências.

        É muito aconselhável a remoção de coisas irritantes, inclusive a voz do auxiliar psiquiátrico, quando necessário. Assim, é freqüentemente prescrito o isolamento. Não devem ser empregadas contenções mecânicas, pois estas seriam indício de que o auxiliar psiquiátrico não soube lidar devidamente com o paciente - ou de que o hospital não oferece condições propícias. Os hospitais modernos aboliram completamente o emprego não só do isolamento em quarto fechado, como também das medidas coercitivas, devendo ser este o padrão visado por todos os estabelecimentos psiquiátricos. Muitas vezes um lápis e uma folha de papel é só o de que um maníaco necessita para gastar sua energia e satisfazer sua ânsia criadora. Esses pacientes freqüentemente tentam fugir, sentindo-se detidos injustamente.

        É preciso atenção para os eventuais ferimentos que eles venham a sofrer, porque com isso não se preocupam. Como a recuperação geralmente ocorre ao reconhecer o paciente a natureza os seus problemas, nessa ocasião você muito o ajudará procurando convencê-lo de se esforçar num sentido construtivo.

        Os pacientes deprimidos são facilmente negligenciados porque não fazem exigências. O auxiliar psiquiátrico sensato, alegre e inteligente muito poderá ajudar o tratamento desses pacientes. Procure falar com o doente, ainda que ele não responda, e tente auxiliá-lo a superar seu sentimento de incapacidade e culpa, dispensando-lhe atenções. A indecisão e a lentidão são freqüentes nessa doença; assim, não force esses pacientes a tomarem decisões, nem os apresse desnecessariamente. Torne-lhes a vida a mais simples possível e ao mesmo tempo, estimule a sua atividade e sociabilidade.

        Por vezes o deprimido torna-se extremamente queixoso e agarra-se ao auxiliar psiquiátrico, exteriorizando lamentações e lamúrias. Seja então paciente e atencioso, evitando, todavia, discussões, explicações ou aceitação das queixas do deprimido. Procure encorajá-lo e infundir-lhe confiança.

        O deprimido freqüentemente recusa alimentação, alegando "não merecê-la", “não ter dinheiro para pagar por ela”, etc., de maneira que, usando de tacto, você deverá persuadi-lo a se alimentar. O suicídio é uma possibilidade constante, sendo mais provável que as tentativas ocorram no início e no fim das depressões profundas. Nesse sentido é preciso muita atenção, porque o paciente poderá fazer de tudo para captar-lhe a confiança, antes de tentar o suicídio.


Melancolia Involutiva

        Esta forma de doença mental ocorre logo após a idade madura e, mais freqüentemente, durante a "idade crítica" ou climatério, sendo muito mais comum entre as mulheres do que entre os homens. O quadro é caracterizado por uma depressão ansiosa, de longo curso, e que se desenvolve vagarosamente. O paciente torna-se ansioso, preocupado e triste; torce as mãos, anda de um lado para outro, esfrega e belisca o rosto, geme às vezes, repetindo constantemente alguma frase de desalento. Esses pacientes queixam-se muitas vezes de doenças físicas imaginárias (hipocondria) e, constantemente, solicitam tratamento aos médicos e auxiliares. Algumas vezes têm idéias de perseguição. A convulsoterapia pelo eletrochoque é recomendada nesses casos, mas o tratamento pelas drogas psicotrópicas (psicoanalépticos) sempre deve ser utilizado. Nos casos mais rebeldes, essas medidas terapêuticas podem ser associadas.

Como Cuidar desses Pacientes

        Eles devem ser cuidados e tratados da mesma forma que os deprimidos. A tendência ao suicídio é mais freqüente neste tipo de doença do que em qualquer outro, e você precisa dispensar especial atenção a essa possibilidade. Tenha em mente que o paciente, com firme idéia de suicídio, planeja nesse sentido durante todo o tempo em que está acordado; esteja, portanto, alerta para impedir qualquer tentativa, vigiando-o constante e cuidadosamente, mantendo-o afastado de lugares perigosos e não deixando ao seu alcance objetos cortantes, pesados, quebráveis ou que possam oferecer algum perigo. Ao mesmo tempo, procure desviar a atenção do paciente para outras coisas. Tente incutir nele a convicção de ser necessário e útil, evitando, assim, que ele deseje matar-se.


Parafrenia, Síndromes Paranóides, Paranóia

        Apesar de serem essas moléstias incluídas atualmente no grupo das esquizofrenias, muitos psiquiatras ainda as consideram como entidades isoladas. A paranóia é extremamente rara nos hospitais psiquiátricos, mas os quadros parafrênicos e paranóides são relativamente comuns.

        Esses pacientes freqüentemente se julgam personagens superiores, de qualidades excepcionais, e acreditam que estão sendo perseguidos e visados por maldade, inveja, motivos políticos, etc. Inimigos estão constantemente urdindo planos contra eles, espiões os estão perseguindo, os jornais a eles se referem, seus pensamentos estão sendo roubados, captados, influenciados; seus alimentos estão sendo envenenados, gases nocivos são inalados nos seus dormitórios, seus inimigos procuram prejudicá-los sob todas as formas, agindo com grande habilidade. Todos esses delírios se afiguram ao paciente lógicos e sensatos, e geralmente ele é capaz de narrá-los com muita clareza. Os pacientes desse tipo muitas vezes têm saúde física bastante boa e, com exceção das idéias de perseguição, não aparentam quaisquer outros distúrbios psíquicos ou de personalidade. A deterioração da personalidade (demência) pode ocorrer muito tardiamente. Eles conservam, em geral, inteligência muito atilada e, a menos que você consiga granjear-lhes a confiança, seus argumentos encontrarão enorme resistência. Ouça-os narrarem os seus delírios sem aceitá-los, nem ridicularizá-los; talvez você possa oferecer-lhes outras interpretações dos fatos que os preocupam, mas convém evitar tudo o que possa incentivar os seus delírios. A leitura escolhida é uma boa atividade recreativa que você poderá proporcionar-lhes. Os doentes parafrênicos são em geral hostis ao hospital e aos seus regulamentos e, por isso, poderão tentar fugir, ou mesmo se tornar agressivos sob ação dos seus delírios. Lembre-se de que esses pacientes são hábeis dissimuladores. Como eles parecem estar senhores de si durante quase todo o tempo, você se sentirá inclinado a considerar seus atos mórbidos como simples manifestações de obstinação e maldade; afaste essa idéia e lembre-se sempre de que eles estão gravemente doentes. Embora essas formas clínicas sejam rebeldes, com o advento da "era dos psicotrópicos", o seu prognóstico tornou-se bem mais favorável e freqüentemente se consegue obter boas remissões desses quadros. As recidivas podem surgir e surgem muita vezes, mas, com a repetição do tratamento, também são possíveis novas remissões.


Psiconeuroses e Neuroses

Descrição Geral

        Sob esta denominação se reúne uma grande variedade de distúrbios. Estes atingem apenas uma parte da personalidade e não parecem afastar o paciente da realidade, nem afetar a consciência. Nestas desordens, certas tendências, comuns a todos nós, passam a dominar os atos e pensamentos do indivíduo, sem qualquer proporção com a importância relativa de tais tendências. As neuroses são muito comuns entre a população em geral, pois, durante a II Grande Guerra, cerca de 40 a 50% dos soldados dispensados das fileiras militares sofriam de distúrbios desse tipo. Apesar dessas manifestações serem muito generalizadas, apenas uma pequena percentagem de psiconeuróticos é internada nos hospitais psiquiátricos. Eles são, em geral, tratados em ambulatórios.

Causas

        A história pregressa do paciente geralmente revela mau ajustamento aos problemas da vida desde a infância, defeitos educacionais, conflitos no ambiente familiar. Há motivos para crer que a causa básica dessas perturbações resida num modo falho de encarar os desapontamentos e frustrações. A causa aparente é habitualmente algum acontecimento ou preocupação especial, como seja: preocupação econômica, conflitos religiosos, problemas sexuais, acidentes, doenças e coisas semelhantes.

Sintomas

        Em geral, esses pacientes estão constantemente preocupados e ansiosos, habitualmente conservam sua integridade psíquica e não sofrem delírios, mas são muito sugestionáveis; com freqüência sentem-se compelidos a repetir alguma ação rotineira, constantemente, embora reconheçam a tolice do seu procedimento; ou talvez se vejam obcecados por um pensamento que não conseguem afastar; ou então sentem-se continuamente oprimidos por um receio estranho e injustificado.

        Não apresentam sintomas físicos específicos, embora estejam com freqüência debilitados devido à sua preocupação e ansiedade. Mencionaremos a seguir algumas das psiconeuroses e neuroses.

Estado de Ansiedade, Neurose de Angústia - Preocupação contínua e extrema com algum problema, às vezes de pequena monta. Angústia e ansiedade manifestas.

Histeria, Pitiatismo - O paciente aparenta os mais variados sintomas físicos, como paralisias, dores, impossibilidade de ação, perda da visão ou audição, ataques semelhantes aos epilépticos, atitudes teatrais, dramáticas, etc., sem que existam anomalias orgânicas correspondentes aos sintomas. Não se esqueça de que, nestes casos, o paciente sempre deseja uma platéia. Ele gosta de ser um "ator" diante dos seus "espectadores".

Neurastenia - Fadiga ou exaustão nervosa, tanto do corpo como do espírito. Sintomas hipocondríacos. Queixas diversas a respeito dos diferentes órgãos.

Psicastenia - Incapacidade de deixar de fazer ou pensar coisas desarrazoadas e desnecessárias. Sintomas mais de ordem psíquica. Ansiedade. Cansaço psíquico permanente. Dificuldade na execução do menor esforço intelectual.

Neurose Obsessivo-Compulsiva - Neste caso o doente se vê dominado por idéias fixas, tolas, que não consegue afastar do seu espírito por mais que se esforce, ou então se sente compelido a realizar atos pueris, inúmeras vezes (abrir e fechar portas, contar os degraus da escada, o número de passos que dá em determinada direção, etc.). É dominado por um “ritual”, do qual não se consegue libertar e se torna extremamente angustiado quando impossibilitado de executá-lo.

Tratamento e Cura

        As pessoas com estas perturbações podem geralmente ajustar-se à vida, pois não sofreram dano, seja em sua personalidade, seja em seu psiquismo. Os casos mais graves, ou os que se encontram em fase aguda, são os que você irá encontrar nos hospitais psiquiátricos. É necessário tratar qualquer mal físico de que acaso sofra o paciente, mas o tratamento mais importante é o psicológico, com o objetivo de conseguir que o paciente veja claramente a natureza de suas dificuldades e encontre melhores meios de se adaptar à vida. Em geral, o estado mórbido se explica como uma fuga a certas situações, que o paciente teria de enfrentar se estivesse no seu estado normal. Ele necessita da oportunidade de encontrar incentivo em uma ocupação pela qual sinta inclinação, e de sentir-se bem em situações normais. A psicoterapia e a terapêutica recreativa e educacional devem sempre ser empregadas em seu tratamento. Qualquer paciente reeducável poderá ser reintegrado na vida normal. Atualmente, no tratamento desses pacientes, são muito utilizados o psicodrama e a "psicoterapia de grupo".

Como Cuidar desses Pacientes

        Sendo perfeitamente normais sob muitos aspectos, não são eles difíceis de tratar; você precisa ter o cuidado de não atribuir à simples teimosia ou má vontade a sua incapacidade sob alguns aspectos. Estão realmente tão doentes quanto os cardíacos, por exemplo. Coopere para proporcionar ao paciente uma vida sã, com boa alimentação, exercício, ar fresco e descanso; faça tudo o que puder para que ele se distraia e aprecie a companhia dos demais. Evite excesso de cuidados e tratamentos desnecessários para não alimentar nele o desejo de atrair a atenção, e não consinta que ele fique só, concentrado em si mesmo. Empregue constantemente a sugestão positiva e trabalhe em uníssono com o médico, cooperando com o seu tratamento em todas as oportunidades. Como esses doentes procuram quase sempre reagir contra a influência do médico e granjear o apoio do auxiliar psiquiátrico para as suas idéias errôneas, você precisa ter cuidado no que lhes diz. Aprenda a ser um bom ouvinte, mas fale apenas quando tiver certeza de que o que está dizendo não prejudicará o trabalho do médico. Os neuróticos em sua maioria não necessitam de internação e são tratados em ambulatório.


Outros Tipos de Distúrbios

        Os demais pacientes dos hospitais psiquiátricos são classificados sob vários diagnósticos e designações. Pequena percentagem das novas internações correspondem a perturbações mentais provocadas por alguma doença física ou a distúrbios ligados a personalidades psicopáticas. Este último grupo é integrado por pessoas com distúrbios de conduta, que, por vezes, necessitam de tratamento hospitalar. As personalidades psicopáticas constituem grave problema para o hospital, dadas as suas perversões, irregularidades, falta de senso ético-moral, tendência à mentira e a múltiplas desordens de conduta. São pacientes indisciplinados, agressivos e insaciáveis. Em geral, não apresentam distúrbios da consciência e da inteligência; é preciso muito tato, bom-senso e paciência no trato com eles. Como esses pacientes necessitam de tratamento muito individual, não poderemos sugerir cuidados especiais.


Sumário

        As observações anteriores sobre as doenças mentais não abrangem tudo, nem são completas; têm apenas a finalidade de servir de indicação geral para lhe facilitar a compreensão dos pacientes que estão sob os seus cuidados. Poucos pacientes se enquadrarão exatamente em qualquer uma dessas descrições ou em qualquer outra descrição de um tratado de doenças nervosas. Você precisará, portanto, encarar cada paciente como um caso individual. A orientação sugerida no primeiro capítulo deste manual é a orientação básica que você deverá seguir; as informações deste capítulo tem por objetivo ampliar o seu conhecimento e compreensão dos vários tipos de pacientes, a fim de que você possa compreendê-los como indivíduos.

        Se você estiver interessado em estudar melhor o doente mental e os meios de auxiliá-lo, encontrará bons esclarecimentos nas leituras a seguir sugeridas.


Livros Sugeridos

"Um Espírito que se achou a Si Mesmo" - Clifford Beers
"Quatro Gigantes da Alma" - Emílio Mira y Lopez
"Médicos do Espírito. Romance da Psiquiatria" - Marie Beynon Rey
"La Voluntad de Vivir" - Wilhelm Stekel
"Cartas a una Madre" - Wilhelm Stekel
"Higiene da Alma" - Barão de Feuchtersleben

 

3. Histórico

Tempos Idos

        A doença mental é tão antiga quanto a raça humana, mas só recentemente atraiu a atenção dos meios científicos. Os maiores progressos psiquiátricos ocorreram durante os últimos cinqüenta anos. Ainda assim, o que hoje sabemos é apenas uma parcela do muito que esperamos saber algum dia.

        Há dois séculos atrás, as pessoas que sofriam de doença mental eram geralmente consideradas como possuídas por espíritos malignos ou pelo demônio. Conforme o caso, eram reverenciadas como divindades ou flageladas, punidas e até queimadas vivas, como bruxas ou demônios. A segregação dos doentes mentais em hospícios começou no mundo cristão em 1537, quando o hospício de Bethlehem, depois conhecido por Bedlam, foi inaugurado em Londres. Os maus tratos e a negligência que reinavam nos primeiros hospícios permanecerão sempre como uma nódoa na história da humanidade.

Pioneiros

        Em 1792, Phillipe Pinel, na França, e em 1796 William Tuke, na Inglaterra, foram os pioneiros no tratamento humanitário dos doentes mentais. Sob a direção desses dois homens, foram pela primeira vez rompidas as algemas que prendiam os chamados loucos.

        Em 1841, Dorothea L. Dix, uma professora de Massachussetts, nos EE. UU., iniciou uma campanha obstinada para conseguir que os doentes mentais fossem melhor alojados, cuidados e tratados. Sob o seu estímulo, muitos hospitais psiquiátricos foram instalados nos EE. UU. e, até mesmo, na Europa. No Brasil, os nomes de Franco da Rocha e Juliano Moreira se inscrevem entre os pioneiros da reforma da assistência aos psicopatas.

        Em 1907, Clifford Beers, com seu livro "Um Espírito que se achou a Si Mesmo", impulsionou o movimento em prol da higiene mental, que fora iniciado na França por Toulouse. Seguiram-se, então, nos últimos cinqüenta anos, grandes reformas no tratamento hospitalar aos doentes mentais, em todo o mundo. A Federação Mundial para a Saúde Mental muito concorreu para isso.

Nasce uma Ciência

        Enquanto progrediam os cuidados hospitalares dispensados aos doentes mentais, havia homens que procuravam elevar o nível da psiquiatria ao de uma ciência curativa. Entre esses cientistas que primeiro descobriram e exploraram os íntimos recessos do espírito humano figuram alguns dos grandes heróis da humanidade. A sua história é tão empolgante quanto a de qualquer outro grupo de grandes pioneiros.

        Um dos primeiros problemas a serem atacados tinha de ser o estudo do cérebro humano. Durante as guerras napoleônicas, Sir Charles Bell, cirurgião do exército, teve a oportunidade de ver cérebros em todas as condições, nas barracas de guerra. Em 30 anos ele observou mais sobre a fisiologia cerebral do que a medicina nos 1.600 anos anteriores. O seu mapa cerebral abriu caminho para os estudos mais aprofundados de Paul Broca, em 1860.

        Brilhante, versátil, eloqüente, trabalhador prodigioso - é Broca figura proeminente na história de medicina. Suas pesquisas exaustivas sobre o funcionamento do cérebro humano levaram-no a descobrir que certas funções, como a da palavra, estão localizadas em determinadas zonas do cérebro. Isto abriu caminho para a cirurgia do sistema nervoso. As relações entre o cérebro e o espírito foram mais bem esclarecidas por seu trabalho, que lançou as bases para o tratamento fisiológico das doenças mentais.

        Surgiram dois homens que se tornaram pais de dois ramos muito unidos da medicina. Um deles, Brown-Sequard, tinha uma curiosidade insaciável, que o levava a realizar experiências em si próprio. A sua maior realização foi a descoberta da importância das secreções glandulares sobre as funções físicas e mentais do homem - tornou-se ele, assim, o pai da endocrinologia. A distinção de se tornar pai da neurologia coube a Hughlings Jackson, um inglês, cujas realizações o colocam entre os maiores heróis da ciência. Durante cinqüenta anos, no fim do século passado, ele explorou o cérebro e o sistema nervoso.

O Espírito do Homem

        Se os aspectos fisiológicos da psiquiatria começaram a ser estudados nos campos de batalha de Napoleão, os psicológicos foram primeiro encarados numa atmosfera de superstição e magia remanescente dos tempos obscuros da história. Por volta de 1750, Anton Mesmer, o "homem da casaca lilás", começou com ímãs, como agentes curativos, e evoluiu para a teoria do magnetismo animal, hoje considerada fantástica. O mesmerismo logo caiu em descrédito entre a classe médica. Um século depois, porém, um escocês teimoso, James Braid, transformou o hipnotismo numa terapêutica de bases científicas. Nas últimas décadas de 1800, Liebeault e Bernheim salientaram que o hipnotismo é essencialmente sugestão, e Janet iniciou investigações acerca da parte subconsciente do espírito.

        Por volta da passagem do século, em Viena, Sigmund Freud começou a expor suas teorias sobre o inconsciente ou subconsciente e como explorá-lo. Há grandes controvérsias sobre o mérito das teorias de Freud e dos seus resultados no tratamento das doenças nervosas e mentais. Suas técnicas de exploração do subconsciente e o seu conceito dinâmico do psiquismo servem de base ao tratamento das psiconeuroses e deram grande prestígio à reeducação, como meio de restabelecer a saúde mental. Com a ajuda dos discípulos dissidentes de Freud, Alfred Adler, C. G. Jung e muitos outros, a escola psicanalítica difundiu-se por todo o mundo. É indiscutível o mérito das teorias psicodinâmicas, ainda que encaradas hoje com muitas restrições.

Por fim, a Psiquiatria

        Entretanto, mesmo com os progressos nos campos fisiológico e psicológico, ninguém se dedicara ainda a estabelecer a psiquiatria como uma ciência médica.

        Por volta de 1900, Emil Kraepelin empreendeu essa tarefa monumental, fazendo uma classificação cuidadosa das doenças mentais. A custa de inúmeras observações e registros clínicos, ele sistematizou as doenças mentais para que a psiquiatria emergisse como uma ciência autônoma. Desde então, viu-se ela livre de muitos dos liames que a tolhiam e pôde dedicar-se inteiramente à tarefa de curar as doenças mentais e ocupar-se de sua profilaxia. Kretschmer, Bleuler, Bumke, entre muitos outros, continuaram a obra iniciada por Kraepelin.

        Em princípios deste século, um médico, Wagner-Jauregg, começou a idealizar a cura de certas doenças mentais por meio da febre. Anos mais tarde, fez experiências com uma espécie de febre e, depois, com outra, sem que nenhuma delas o satisfizesse. Dedicou-se mais à Paralisia Geral, porque essa doença era mais conhecida, Em 1917, com 60 anos, Wagner-Jauregg experimentou o emprego da malária e desenvolveu um tratamento para a Paralisia Geral, com o qual se obtém êxito em dois terços dos casos antigamente considerados incuráveis. Esse tratamento foi depois suplantado pela penicilinoterapia.

        Em 1927, um jovem psiquiatra de Viena deu um passo ousado. Administrou doses elevadas de insulina a uma toxicômana para acalmá-la. Aconteceu o que desejava: a paciente acalmou-se. Experimentou, então, a droga em outros pacientes agitados, entre eles, esquizofrênicos. Observou, então, o inesperado: uma alteração favorável na personalidade desses pacientes. O Dr. Manfred Sakel começou, pois, a tratar as psicoses, inclusive a esquizofrenia, pelo choque insulínico, até hoje bastante empregado no tratamento das esquizofrenias.

        Na época em que Sakel anunciou o seu tratamento pela insulina, em 1933, um médico húngaro, von Meduna, estava trabalhando com a terapêutica pelo choque. Experimentou provocar convulsões com o cardiazol. Esse tipo de tratamento revelou-se excepcionalmente eficiente nas psicoses maníaco-depressivas e em algumas formas de esquizofrenia.

        Em 1937, em Roma, Cerletti e Bini, começaram a procurar algo que não produzisse as sensações terrificantes do cardiazol. Empregaram a eletricidade, experimentando-a primeiro em porcos e ousando depois aplicá-la em seres humanos.

        Por sua relativa segurança e eficácia, o eletrochoque tornou-se uma das terapêuticas mais utilizadas em todo o mundo, sendo ainda hoje muito empregado, sobretudo no tratamento dos estados depressivos.

Atualmente

        Com todos esses progressos chegamos ao tempo atual. Pioneiros ainda continuam a pesquisar tratamentos para as doenças mentais.

        A pesquisa de tratamentos continua, não apenas com a convulsoterapia e suas variantes. Bioquímicos e endocrinologistas trabalham com várias fases da doença mental. Extratos glandulares são administrados para corrigir deficiências e perturbações mentais devidas a desequilíbrios glandulares e grande número de drogas psicotrópicas são hoje utilizadas como tratamento. Os cirurgiões pesquisam novas operações cerebrais para corrigir os casos mais renitentes e a psicocirurgia da epilepsia já é uma realidade. Numerosas drogas psicotrópicas vêm sendo sintetizadas pelos vários laboratórios em todas as partes do mundo, cada uma delas para o tratamento específico das várias desordens do psiquismo, permitindo, como nunca antes, o tratamento eficiente de um número cada vez maior de doentes mentais. Os resultados que vêm sendo obtidos são tão importantes e valiosos, que vêm impondo novos conceitos sobre as doenças mentais e sobre a construção dos hospitais psiquiátricos.

        O tratamento das doenças neurossifilíticas, sobretudo o da Paralisia Geral, sofreu grandes alterações com a introdução da penicilinoterapia, que é hoje a sua terapêutica de escolha.

        Os progressos na eletrencefalografia também trouxeram novos conhecimentos, principalmente no campo das epilepsias.

        No tratamento das doenças mentais, a tendência atual da psiquiatria é o emprego dos diferentes métodos, de acordo com as características de cada caso. Existem ainda os chamados métodos auxiliares - terapêutica pelo trabalho e pela recreação, que estão sendo largamente utilizados.

O Futuro

        A pesquisa psiquiátrica está agora em uma de suas etapas mais decisivas. Em nossos dias, calcula-se que, de cada 1.000 pessoas, cinco, anualmente, necessitarão ser hospitalizadas para tratamento de doença mental. A segunda guerra mundial, como a primeira, contribuiu para o aumento das perturbações mentais.

        Entretanto, as perspectivas de progresso no seu tratamento são boas. Parece não haver dúvida de que esta época será mais tarde considerada como a "idade de ouro" da psiquiatria.

        A melhoria dos hospitais psiquiátricos e dos cuidados neles dispensados continua a ser uma das medidas mais necessárias para o progresso da psiquiatria e da higiene mental. Como auxiliar psiquiátrico você talvez não será particularmente lembrado, mas, anonimamente, terá contribuído para esse serviço. Cada dia em que você fizer bem o seu trabalho e de acordo com a orientação deste MANUAL você estará contribuindo para o êxito desse movimento. Além de fazer bem o seu trabalho diário, você pode contribuir para a melhoria do seu hospital, solicitando para que seja proporcionado aos auxiliares psiquiátricos cursos de treinamento, leituras instrutivas e facilidades recreativas; interessando-se para que sejam melhoradas as condições de trabalho - salário, acomodações, horário, planos de promoção e de aposentadoria; reconhecendo a importância de todos que trabalham no hospital e a todos prestando a sua cooperação. Muitos desses objetivos, segundo você verificará, só poderão ser atingidos por atos legislativos ou das autoridades administrativas; mas tais atos necessitam ser estimulados e apoiados por uma opinião pública expressiva e esclarecida. Portanto, cada vez que você comunicar a alguém o seu ponto-de-vista esclarecido sobre a doença mental e conseguir a sua cooperação para um melhor tratamento, estará contribuindo para o progresso da saúde mental.

        O progresso no tratamento das doenças mentais poderá prosseguir sem o seu interesse e apoio. Mas você poderá tomar parte nesse trabalho vital, se quiser. Certamente, tudo o que você fizer para difundir um pouco mais o programa da psiquiatria contribuirá também para torná-lo um melhor auxiliar psiquiátrico. Você tem um trabalho de significação e importância. Tire dele o melhor partido possível!