4 - Quimioprofilaxia

        A administração de anti-retrovirais (ARVs) para profissionais de saúde que sofreram exposição acidental à material biológico de pacientes HIV positivos foi defendida inicialmente pela National Comission on Aids dos EUA em 1993 e, posteriormente, foi recomendada pelo CDC, que considerou os seguintes dados:
- Redução de 69% na transmissão materno-fetal de HIV com AZT;
- Redução da viremia associada ao uso de ARV;
- Identificação de efeito protetor de AZT pós-exposição para profissionais, em estudo retrospectivo multicêntrico e caso-controle.

        O aumento de sobrevida com redução de viremia com os esquemas combinados de ARV e a identificação de casos de falha na profilaxia pós-exposição com AZT isoladamente levaram à opção de associação de drogas. É importante sempre considerar que o uso indiscriminado dos ARV propicia a seleção de cepas resistentes, aumenta o risco de toxidade para o profissional de saúde e eleva os custos no sistema de saúde.

        A decisão de se considerar ou recomendar a administração de anti-retrovirais para funcionários expostos a fluidos biológicos deve levar em consideração o tipo de exposição (gravidade, volume de material biológico, profundidade) e o paciente fonte. As situações não previstas devem ser avaliadas caso a caso, visando benefício do acidentado.

        No Brasil, a administração de quimioprofilaxia pós-exposição foi preconizada pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e pelo Ministério da Saúde em 1999. O Programa Estadual de Aids e o Instituto de Infectologia Emílio Ribas iniciaram, em 1999, um programa para o material biológico. A partir de 2001, a Prefeitura do Município de São Paulo iniciou o seu programa de atendimento a profissionais acidentados, com ampliação da rede pública de atendimento. Em dezembro de 2001, a Coordenação Nacional DST/Aids do Ministério da Saúde publicou as "Recomendações para Terapia Anti-Retroviral em Adultos e Adolescentes Infectados pelo HIV 2001" (fluxograma 1).

        Neste documento, algumas modificações em relação às recomendações anteriores devem ser ressaltadas:

1 - Em situações de menor risco, recomenda-se o uso de esquemas envolvendo duas drogas anti-retrovirais analógas de nucleosídeos, preferencialmente a associação AZT+3TC.

2 - Em situações de maior risco, recomenda-se o uso de esquemas potentes com inibidores de protease, preferencialmente, o AZT+3TC juntamente com o nelfinavir ou indinavir ou ainda associação indinavir com ritonavir (este como adjuvante farmacológico para o indinavir).

3 - A nevirapina não é recomendada em esquemas de profilaxia pós-exposição devido aos relatos de reações adversas graves com o medicamento nessas situações.

4 - Deve-se considerar a possibilidade de utilizar esquemas alternativos em situações de exposição com risco elevado de resistência.

5 - Recomenda-se enfaticamente que as sorologias dos pacientes-fonte sejam realizadas.

6 - Acidentes com fonte desconhecida ou com paciente com sorologia anti-HIV desconhecida, em geral, não devem ser medicados com anti-retrovirais. Nestas situações, o uso da profilaxia pós-exposição deverá ser considerada com base na gravidade do acidente e na história clínico-epidemiológica do paciente.

Observações:
Pelo fato de a quimioprofilaxia apresentar potencial de toxidade, o seu uso não é justificado em exposições com baixo risco de transmissão do HIV. Além disso, por não existirem evidências suficientes de benefício, o uso de esquemas expandidos não é recomendado para todos os tipos de exposição (quadro 1 e quadro 2).