Esquizofrenia e psicoses degenerativas de Kleist: Patogenia e Psicopatologia Diferenciais

 

(continuação da página anterior)

No original (9n) tais atribuições funcionais são assinaladas por pontilhados diversos. Na versão das figuras 1 e 2 utilizamos em lugar dos pontilhados as iniciais correspondentes ao destino funcional. Além disso, modificamos a interpretação funcional de alguns campos das regiões parietal e frontal, para o que, entretanto, nos baseamos na descrição de Kleist apresentara em relação a essas áreas na gehirnpathologie, onde vem as mesmas cartas funcionais (figuras 427 e 428 dessa obra). Em nossa apresentação figuram assim as iniciais p-m, função psicomotora, e p-s-m, psico-sensorial-motora. É o caso do campo 6a, na região III, esfera táctil, para o qual Kleist admite o tipo sensório-motor mas ao qual atribui sensação de força e participação em “funções motoras mormente as de ordem mais elevada como destrezas, inclusive formação de tons e de sons: daí a nossa indicação p-s-m. Na região frontal, esfera V, mudamos para p-s e p-m, respectivamente, a designação dos campos 8 e 44ª, sensório-motores no original. Ambos participam de atividades psíquicas, tais a direção dos olhos, a linguagem articulada, a construção de melodias; também com referência ao campo 6ab, as atividades psíquicas reclamam inclusão da inicial p como indício de função mista.

Por outra parte entendemos esferas da personalidade em sentido algo diverso do de Kleist: no de setores gerais, tais o da afetividade, o da atividade ou conação e o da inteligência. E os sistemas cerebrais não correspondem, na acepção que adotamos, a conjuntos de áreas cerebrais equivalentes em função, mas a conjuntos em que alguns componentes regem aos outros, de modo a haver entre eles hierarquia funcional. Não vem ao caso analisar aqui esse aspecto da dinâmica cerebral, pelo qual temos norteado outros trabalhos (32b, c, e, f.). Mas na prática as deduções clínicas a que chega Kleist não divergem das que são peculiares à escola que seguimos.

A utilização do critério patogênico, orientado pela concepção da patologia cerebral de Kleist e pelas investigações heredológicas, deu em resultado primeiramente a subdivisão das formas esquizofrênicas como entidades clínicas autônomas (quadro 1). Permitiu em seguida, graças à divisão catamnéstica sistematizada, distinguir quadros uniformes durante toda a evolução e quadros variáveis seja em função de heterogeneidade dos dinamismos cerebrais seja devido ao modo de decurso. Houve, dessa maneira, possibilidade de estabelecer quadros esquizofrênicos típicos e outros atípicos. No primeiro caso a estabilidade das manifestações mórbidas se devia ao fato de estarem os distúrbios circunscritos a um único sistema cerebral. No segundo surgiram as formas em que dois sistemas ou mais eram atingidos de modo comparável, o que resultava em feitio clínico complexo, porém compreensível, o das formas combinadas; ou ainda aquelas em que o processo mórbido se ampliava, com a extensão sucessiva a outros sistemas cerebrais. Entretanto, a discriminação da patogênese, apurada no estudo catamnésico, veio mostrar que tanto as formas simples como as combinadas ofereciam a possibilidade de se reconhecerem os sistemas em causa, o que não passava com as formas extensivas. Sob o aspecto da patogênese, pois, os dois primeiros grupos se afirmam como sistemáticos. Esta última separação entre formas prevaleceu nos estudos mais recentes (Kleist 9p, r, Leonhard 18n, p, Schulte-von der Stein 23).

Postas em confronto essas duas maneiras de considerar os quadros clínicos, temos (quadro 2):  

 

Quadro 1 – Formas de esquizofrenia segundo Kleist e segundo Leonhard. Confronto de Leonhard (18d) o primeiro item desta tradução e o sexto do original (pág. 111)

 

 

Quadro 2 – Configuração e patogenia das formas esquizofrênicas.

 

    Paralelamente a essa verificação doutrinária, o aprofundamento da investigação clínico-localizatória, já iniciada por Leonhard no material clínico crônico (18d), foi intensificado pelos discípulos e colaboradores de Kleist. O núcleo inicial de doenças progressivas por alterações de sistemas se viu então ampliado apenas com o prosseguimento da reavaliação patogênica feita pelo insigne mestre de Frenkfurt am Main. Já lembramos que este divisara no âmbito das doenças paranóides aquelas em que o quadro confusional se fazia conspícuo: confusão devido às alterações intrínsecas da linguagem – esquizofasia – e confusão pelo transtorno do raciocínio, e razão de simplificações de desvios e de transposições na formação dos conceitos (formas paralógicas). Daí resultou o isolamento das formas confusionais, no âmbito do grupo esquizofrênico em que a patogênese predomina no campo intelectual. A partir do conceito inicial da dinâmica do pensamento em plano mórbido (91), a revisão do material após longo decurso revelou as formas esquizofrênicas (25), também estudadas entre nós por Vizzoto e Melsohn (39) e as modalidades primariamente confucionais (Kleist e Schwab (15), Leonhard (181k), Schwab (30c), Tomchinski (37)). O grupo confuso-esquizofásico passou a compreender quatro formas típicas e mais uma variedade atípica – a esquizofrenia por surtos – em lugar da única modalidade admitida de início.

Nos demais grupos das formas paranóides igual ampliação se verificou. O desmembramento encetado por Kleist (9g) e levado a cabo com a plêiade de colaboradores estabeleceu com precisão os diferentes quadros de natureza delirante (90q), contribuíram para isso mais diretamente Faust (3), Meyer (10), Neele (24), Schneider (25), Schwab (50) e especialmente Leonhard. Este Pesquisador trouxe relevantes ensinamentos de ordem patogênica e heredobiológica (18f a l), evidenciando ainda as formas atípicas, a variedade ansioso-extática, as formas periódicas, discriminando as formas paranóides periódicas e isolando a parafrenia afetiva. Com tais desdobramentos o grupo paranóide se compõe de seis formas típicas sistemáticas e três assistemáticas: eram seis as modalidades do início, não computada aí a esquizofrenia (quadro 1).

Igual escrutínio no âmbito da catatonia e da hebefrenia produziu muito menor ampliação, como é fácil compreender: patogenicamente os distúrbios são aí mais característicos para a configuração clínica e assim Kleist pudera precisá-los logo no material inicial. As formas catatônicas passaram ao dobro e o campo da hebefrenia só se acresceu de uma forma. Trabalhos do próprio Kleist (99e,n) e dos colaboradores Herz (11), Leonhard (18g,h), Pittrch e Schwab (13, 14, 30a), a catatonia, Faust quanto a hebefrenia (12), ultimaram a estruturação do conjunto de doenças esquizofrênicas, inclusive formas assistemáticas. Estas últimas só não se apreciam no domínio da hebefrenia, o que ainda uma vez revela a estabilidade do dinamismo patogênico aqui em ação. Mostra-o o quadro 3, tal como se estabeleceu nas últimas classificações de Kleist e de Schulte-von der Stein, em 1947 (9p), em 1953 (9r) e em 1995 (29). A validade clínica e heredológica desse vasto grupo mórbido tem sido amplamente confirmada: Edelmann (2) e Fish (5) comprovaram todas as subdivisões de Kleist e Leonhard, bem como Knauf (17) e Schneider (26) o fizeram em hospital para crônicos e Schulte-von der Stein (29) em seção feminina de crônicos.    

 

continua...