Aspectos da Propedêutica do Idoso

José Antônio Esper Curlatl

Yolanda Maria Garcia de Alencar

 

INTRODUÇÃO

O atendimento ao indivíduo idoso apresenta características muito peculiares que, se não bem conhecidas e respeitadas, podem diminuir bastante a quantidade de informações obtidas do paciente. É essencial que se tenha consciência de quais enfermidades têm maior prevalência na idade avançada e principalmente da concomitância entre elas, sejam doenças crônicas adquiridas na juventude, sejam problemas recém-surgidos.

Ao atender o paciente idoso deve-se ter em mente alguns princípios básicos e essenciais;

a) o envelhecimento é um processo biológico diferente de qualquer doença. Confundi-los é um erro conceitual grave, que contribui para o conceito popular errôneo, mas infelizmente, muito difundido de que todo velho é necessariamente doente. Todos os esforços devem ser empregados no sentido de diferenciar o que se deve atribuir a uma doença específica e o que é conseqüência normal da idade. A grande dificuldade reside no fato de que freqüentemente esta distinção é muito complicada para ser feita e acaba exigindo um bom grau de minuciosidade na anamnese e no exame físico ou mesmo confirmação laboratorial;

b) o envelhecimento exerce efeito importante sobre os mecanismos fisiológicos, como será oportunamente visto nos demais capítulos, de forma que o comportamento orgânico e as manifestações clínicas podem ser muito diferentes do que se espera habitualmente para um adulto jovem. As doenças podem se apresentar de forma diferente e, freqüentemente, bem mais complicada;

c) o célebre conceito de que todo quadro clínico do doente tem explicação por uma única afecção ou no máximo por um número restrito delas deve ser visto com prudência no idoso; ao contrário, deve-se admitir a possibilidade diagnósticos múltiplos com mais facilidade neste grupo etário, que caracteristicamente apresenta com freqüência vários diagnósticos associados, cujas sintomatologias simultâneas podem confundir o examinador;

d) queixas numerosas e mal caracterizadas são um fenômeno muito freqüente nestes indivíduos e a sua aparente falta de significado pode ser totalmente falsa. Ao contrário do treinamento acadêmico que mostra a doença através de exemplos com quadros clínicos floridos, dificilmente o idoso surge com uma apresentação clássica. Deixar de levar em consideração qualquer queixa por ser vaga ou incaracterística pode induzir o examinador a erros graves e de conseqüências sérias, especialmente porque o idoso tem importante redução de suas reservas funcionais e por ter resposta muito ruim a uma medida terapêutica pelo simples fato de ter sido introduzido com atraso;

e) a farmacologia das drogas, que será abordada em detalhes no capítulo específico, pode estar muito modificada no organismo envelhecido, o que torna obrigatório cuidado muito grande na escolha de medicamentos a serem administrados e na titulação da dose ideal.

Conhecer e respeitar esses princípios torna muito mais eficiente a propedêutica deste indivíduos, embora ela esteja também sujeita a limitação pela pouca capacidade freqüente de comunicação que os doentes dessa faixa etária apresentam, determinada por distúrbios auditivos, dificuldades da fala, alterações mentais etc. As queixas numerosas, advindas de diversos aparelhos, mesclam eventos que são conseqüência normal da idade, como por exemplo, presbiopia ou presbiacusia, com enfermidades reais, podendo tornar impossível a determinação da origem de cada uma delas, o que pode acarretar ainda maior complexidade no trabalho do examinador.

 

 

Técnica de Análise

Para contornar as dificuldades antes expostas deve-se adotar algumas atitudes: falar devagar, olhando para o paciente de forma que a expressão do rosto e a leitura labial auxiliem a compreensão, principalmente nos deficientes auditivos; deve-se pronunciar bem as palavras e estar atento para ruídos ambientais que interfiram na conversa; não se deve ter escrúpulos em gesticular ou perguntar se o tom de voz é suficientemente alto, já que por duas vezes o idoso portador de surdez sente um certo constrangimento de confessar sua dificuldade para compreender o que lhe é dito. Freqüentemente, o próprio paciente não consegue fornecer dados necessários, situação em que se deve recorrer a uma terceira pessoa, de preferência alguém que habitualmente permanece mais tempo com o examinado.

A divisão formal da história clínica em queixa e duração, história da moléstia atual e a seguir o interrogatório sobre os diversos aparelhos nem sempre é a forma mais prática de abordar o geronte. Muitas vezes, é mais produtivo começar diretamente pelo último para que se consiga obter as informações de forma mais ordenada e completa. Não é raro, também, que a queixa principal do paciente não esteja relacionada ao problema e mereça abordagem prioritária. Não se pode tampouco omitir a história medicamentosa pregressa, útil como forma de concluir a respeito de afecções anteriores ou pela própria responsável por uma boa parte das queixas. Deve-se ter em mente, também, que certos medicamentos são por vezes desconsiderados como tal por idosos e seus familiares, fazendo com que os itens importantes não sejam relatados.

 

 

SINTOMAS

Dar-se-á ênfase aqui apenas àqueles sintomas que adquirem um significado particular com o passar dos anos ou que se tornam muito mais freqüentes nesta fase da vida.

 

FADIGA

A fadiga é uma queixa extremamente comum no idoso. Caracteriza-se por incapacidade de mobilizar energia necessária para as atividades habituais, associada à necessidade de descansar ou dormir. Ela pode, até certo ponto, ser considerada como ocorrência normal do envelhecimento, porém deve-se estar atento porque pode ser muito sutil o momento em que passa a ser indicativa de uma doença orgânica ou psíquica. Deve-se suspeitar da segunda situação quando a fadiga não se relaciona a atividade física ou quando o indivíduo já acorda cansado, indisposto, deprimido e chega até a melhorar durante o dia.

Quando tem significado patológico, a fadiga pode estar vinculada a diferentes estados clínicos, como infecções agudas ou insidiosas, carências nutricionais, que podem evoluir para quadros de desnutrição de intensidade e manifestações variadas, presença de neoplasias, descompensação de doenças cardíacas artropatias. Nesta última situação, a principal queixa pode ser a fadiga, como sensação subjetiva conseqüente à dificuldade de mobilizar as articulações atingidas (eventualmente esta sensação pode sobrepujar a dor, que o paciente por vezes pode não referir). Este sintoma pode surgir também na insuficiência respiratória; nas enfermidades neuromusculares, como, por exemplo, miopatias e miastenia; nos desequilíbrios hidreletrolíticos, como desidratação, alterações iônicas diversas, alcalose ou acidose; na insuficiência renal; em doenças endocrinológicas, como diabetes mellitus, hipotiroidismo, insuficiência supra-renal etc. Não se pode esquecer as razões de ordem psicológica, em particular os quadros depressivos, orgânicos ou reacionais, aos quais o idoso é particularmente sujeito, como poderá ser visto com maiores detalhes no capítulo correspondente.

 

 

PERDA DE PESO

A perda de peso exige avaliação criteriosa. Sabe-se que, em decorrência do envelhecimento, ocorrem alterações na proporção entre o tecido gorduroso e o tecido muscular no organismo, além da redução da massa óssea. Entre os 25 e os 50 anos, a curva ponderal humana costuma apresentar acréscimo de peso, atribuído ao aumento do tecido gorduroso que ocorre nessa fase. A partir daí, o peso corpóreo tende a se reduzir, devido à diminuição de peso das estruturas ósseas, aliada a uma atrofia global da musculatura esquelética. Sendo assim, só se valoriza a perda de peso quando é acentuada e principalmente quando há grandes perdas em curto espaço de tempo. Tal situação sugere a presença de enfermidade específica, como, por exemplo, neoplasia, quadro infeccioso grave, descompensação diabética, hipertireoidismo etc.

 

 

CEFALÉIA

A cefaléia é também uma queixa freqüente, cujas causas no idoso pertencem a um espectro particular de afecções. A localização da dor pode ser uma boa indicação de sua etiologia: em região occipital, é bastante sugestiva de contratura muscular, provocada por vícios posturais, que levam a estiramento muscular e ligamentar, ou por espondilartrose cervical.

Embora se trate de uma doença in freqüente, vale a pena citar a cefaléia temporal persistente que ocorre na artrite de células gigantes, pelo fato de ser uma afecção característica do idoso. Por outro lado, a enxaqueca e a cefaléia relacionada às sinusopatias, bastante comuns em pessoas jovens, decaem bastante de freqüência no geronte.