Aspectos da Propedêutica do Idoso

José Antônio Esper Curlatl

Yolanda Maria Garcia de Alencar

 

(continuação da página anterior)

 

DISTÚRBIOS DO SONO

Os distúrbios do sono constituem problemas que perturbam bastante os pacientes deste grupo etário e que devem ser abordados com atenção.

Sabe-se que a necessidade de sono é variável de pessoa para pessoa e que há um padrão geral de sono que evolui ao longo da vida. Há uma grande desorganização na infância, com períodos curtos e às variáveis de sono e vigília que evoluem para um padrão com ciclos aproximados de 24 horas, alternando uma única fase de vigília com outra de sono. O envelhecimento torna esse padrão um pouco menos organizado, sem chegar, porém, a retornar à situação da infância. Na velhice, o período noturno de sono tende a sofrer um encurtamento, enquanto surgem períodos de sonolência durante o dia. Ao lado dessa alteração da fisiologia do sono, há fatores orgânicos e sociais interferindo. A quantidade e a intensidade das atividades tende a se reduzir muito nessa época da vida, favorecendo a sonolência diurna. Este fato pode chegar ao ponto extremo e comum de indivíduos que vão se deitar muito cedo por absoluta falta de ocupação e que acabam por acordar muito mais cedo, pela manhã, do que gostariam.

Problema psíquicos mais específicos, como a depressão, à qual os idosos estão muito sujeitos, e a ansiedade, para a qual a situação econômica e social do velho costuma fornecer numerosos motivos, são, em qualquer idade, reconhecidas causas de distúrbios do sono.

Por fim, não se pode esquecer de causas prosaicas, mas nem por isso pouco importantes, que levam à repetição do despertar noturno, como falta de ar, dor, doenças de outros órgãos que fazem a pessoa acordar várias vezes à noite para urinar etc.

Por incrível que pareça, a noção de que o doente desperta várias vezes à noite porque tem que ir ao banheiro pode não ser percebida por ele nem pelo seu médico, o que pode induzir condutas terapêuticas inadequadas.

A conduta do médico diante do idoso com insônia deve ser muito cuidadosa, tentando esclarecer as causas, e criteriosa, ao indicar o uso de hipnóticos. A manipulação destes, como será visto em outro capítulo com mais detalhes, é complicada devido à maior duração de seu efeito ou, de forma ainda mais difícil, pela possibilidade de terem efeito paradoxal, podendo chegar, em situações extremas, a desencadear quadros de agitação psicomotora e confusão mental. Não é raro resolver uma queixa de sonolência excessiva durante o dia pela simples suspensão de um medicamento depressor do sistema nervoso central.

 

 

ALTERAÇÕES PSÍQUICAS

As alterações da memória e os quadros de confusão mental serão examinados com detalhes em capítulos específicos, porém serão citados neste momento pela importância que adquirem na população deste grupo etário.

Já está bem definido um declínio de funções mentais acompanhando o envelhecimento normal. A capacidade de aprendizado reduz e a memória para fatos recentes apresenta diminuição sensível, ao passo que para fatos remotos é preservada ou mesmo chega a parecer mais viva. Informações abstratas são prejudicadas mais precocemente que as concretas. Estes fenômenos são considerados normais.

Os distúrbios graves, já caracterizando quadro demencial, são de fácil reconhecimento até pelos próprios familiares do idoso. A grande dificuldade diagnóstica reside em casos de comportamento limiar, não sendo raro que o médico fique com sérias dúvidas e se sinta incapaz de definir se o cliente examinado apresenta ou não alterações patológicas.

O desempenho intelectual do idoso pode ser avaliado de várias maneiras. A mais simples delas, ao alcance de profissionais sem muito treinamento específico, é uma entrevista um pouco mais demorada, na qual se fazem perguntas ao paciente sobre a sua rotina, incluindo-se eventualmente eventos de caráter público mais amplo, tentando obter uma opinião pessoal do doente a respeito para que se possa avaliar sua capacidade crítica. A conclusão final desta forma de abordagem apresenta apenas o grave defeito de ser bastante subjetiva e difícil de ser transmitida a familiares ou outros profissionais que lidam com o paciente em questão.

Há vários testes formais que examinam aspectos específicos das funções mentais e que atribuem notas ou pontuações ao examinado. Estes apresentam várias vantagens: são mais precisos, permitem uma noção evolutiva mais confiável e fornecem uma avaliação bem mais clara ao se transmitir seu resultado a outro profissional, familiares ou mesmo em uma situação legal. É essencial que o examinador leve em consideração nesse tipo de avaliação a presença de outros problemas orgânicos que possam prejudicar o desempenho intelectual ou a própria entrevista; um exemplo é o portador de surdez, que pode estar privado de acesso a informações do ambiente ou ter muito pouca habilidade ao ser entrevistado, sem que isto signifique declínio do estado mental.

Confusão mental é a perda da capacidade de orientação no tempo e no espaço, que pode ser aguda ou crônica. A confusão mental aguda e temporária, também chamada síndrome mental aguda ou síndrome cerebral aguda, é a interrupção abrupta da lucidez de um doente que tinha condições normais ou praticamente normais. Deve ser encarada, pelo menos na primeira abordagem, como um sintoma de doença orgânica, como processo infeccioso, quadro de hipoxemia, distúrbio metabólico etc. Quadros relativamente simples ou mesmo iatrogenia por erro na manipulação de medicação podem provocar esta sintomatologia.

O estado confusional crônico consiste em um quadro de insuficiência cerebral crônica, evolutiva e irreversível causada pelas demências, como a demência senil tipo Alzheimer, demência por infartos múltiplos ou por outros distúrbios psiquiátricos, como ansiedade ou depressão.

 

 

TONTURA

Tontura e sensação vertiginosa são problemas comuns no atendimento ao idoso, assim como a dificuldade para caracterizá-las e estabelecer sua etiologia. A vertigem está habitualmente relacionada a alterações funcionais e/ou lesão de estruturas vestibulares. Pode ser idiopática ou relacionada a problemas circulatórios, neoplásicos, degenerativos etc.

 

SÍNCOPE

Síncope consiste na perda súbita e transitória de consciência por falta de irrigação cerebral que, no indivíduo idoso, torna obrigatória a investigação de arritmias cardíacas, como a síndrome de Stokes-Adams, a presença de hipotensão ortostática e os distúrbios locais dos vasos, por serem as causas mais prováveis neste grupo.

 

 

QUEDAS

As quedas são também motivo de grave preocupação para quem lida com idosos.

A manutenção de uma postura ereta está vinculada à atuação harmoniosa de um complexo de fatores: ação muscular antigravitacional, propriocepção, informações visuais e do sistema vestibular, e a integração de todos eles no sistema nervoso central. O processo de envelhecimento compromete todos os componentes deste sistema de forma variável, de indivíduo para indivíduo. Sendo o corpo humano um sólido de grande massa, com centro de gravidade alto e base estreita, fica claro que há vários predisponentes presentes para levar o idoso a ter quedas freqüentes, em maior número quanto mais comprometido estiver o sistema globalmente.

Há, nos idosos, dificuldade para fazer os movimentos de balanço necessários para se reequilibrar. Na presença deste predisponentes, vários desencadeantes podem vir a se somar para induzir o idoso a quedas. Entre as causas orgânicas pode-se citar os quadros de acidente vascular cerebral, a insuficiência vertebrobasilar, as arritmias cardíacas seguidas de hipofluxo, a hipotensão postural, a síndrome do seqüestro da subclávia, a epilepsia e os efeitos colaterais de medicamentos.

Causas ambientais, como má iluminação, pequenos degraus em locais inesperados, pequenos tapetes soltos no piso escorregadio junto as camas, pias e banheiras, calçados inadequados, com solas escorregadias e pouco firmes nos pés, escadas sem corrimão etc., podem constituir verdadeiras armadilhas para o idoso já menos habilitado organicamente para se manter equilibrado.