Aspectos da Propedêutica do Idoso

José Antônio Esper Curlatl

Yolanda Maria Garcia de Alencar

 

(continuação da página anterior)

 

ALTERAÇÕES AUDITIVAS

O zumbido, ou seja, a audição constante ou intermitente de um ruído que na realidade não existe é outro evento freqüente. Pode ser desencadeado por problemas locais do ouvido, até por uma simples rolha de cerúmen, ou por alterações sistêmicas, podendo até ser parte do quadro de uma descompensação diabética.

A surdez, também muito comum, pode se tornar extremamente incapacitante quando evolui para graus mais avançados, ajudando a isolar do ambiente o doente que já tem várias limitações físicas. Deve ser lembrada a presbiacusia, que é a surdez que pode acompanhar o envelhecimento, mesmo sem a presença de afecções otorrinolaringológicas específicas, mas simplesmente como somatório de alterações degenerativas de todo o aparelho auditivo humano.

 

 

DISPNÉIA

A dispnéia é outra queixa que exige do examinador conhecimento e cuidado em sua abordagem para saber diferenciar se se trata de uma resposta normal, proporcional à idade, ou de um processo patológico. Há declínio da função pulmonar, assim como da cardíaca e muscular que acompanham o envelhecimento e que são responsáveis por redução de capacidades de reserva. A conseqüência é o aparecimento de dispnéia, sem que haja qualquer doença, diante de esforços que não a provocariam em um adulto jovem. Não se deve, porém, cometer o erro oposto, que seria menosprezar um sintoma que pode sinalizar para a presença de uma doença pulmonar, como infecção, tumor, quadro enfisematoso, cardiopatia, levando a uma insuficiência do órgão, e alteração mecânica da caixa torácica devido a uma doença sistêmica como, por exemplo, anemia e obesidade.

 

 

ALTERAÇÕES URINÁRIAS 

Outra categoria de sintomas muito referida nesta idade são as queixas urinárias: retenção, urgência miccional e, em particular, incontinência urinária. Esta última é, por vezes, considerada de forma errônea como um fenômeno normal do envelhecimento. Sua prevalência é alta nesta idade, em especial nos pacientes acamados ou institucionalizados. Apesar do forte impacto desta ocorrência sobre o bem-estar do paciente, o alto custo do cuidado diário a um doente incontinente, o grau de transtorno que causa a quem cuida dele e a má repercussão social e psicológica deste tipo de problema, ele é ainda pouco investigado e, conseqüentemente, tratado de forma inadequada.

O controle da micção é complexo e depende de estruturas localizadas em vários níveis, que vão do esfíncter uretral, passando pelo assoalho pélvico, bexiga, nervos sacrais e medula espinal até níveis neurológicos mais altos, com a interferência de várias estruturas, inclusive corticais. As estruturas alteradas podem ser única ou várias em um mesmo paciente. Uma ampla variedade de enfermidades pode provocar incontinência urinária, sendo exemplos comuns o diabetes mellitus, o afrouxamento do assoalho pélvico ou a hipertrofia prostática, havendo ainda muito a pesquisar a respeito, mesmo em relação a doenças já bem conhecidas.

A intervenção médica eficiente pode ser feita através de várias abordagens terapêuticas, mas depende necessariamente de diagnóstico preciso. Há afecções do trato urinário baixo que são características da terceira idade. Assim, a litíase vesical aumenta a incidência a partir dos 50 anos, ocorrendo o mesmo com a hipertrofia benigna da próstata, que é também doença característica do idoso. Suas manifestações podem ser dependentes de irritação local, com  desconforto urinário, sintomas de obstrução, especialmente no prostatismo, situação em que a obstrução pode levar a incontinência paradoxal. Outra manifestação freqüente nessa faixa etária é a infecção urinária baixa, não raramente desencadeada pelas duas outras enfermidades.

Em capítulo pertinente, esse assunto será abordado de forma mais completa e detalhada.

 

 

ALTERAÇÕES DIGESTIVAS

O aparelho digestivo humano sofre alterações variadas e algumas delas intensas com o passar dos anos, como será analisado de forma mais detalhada em capítulos pertinentes.

A queixa digestiva mais comum do doente idoso que procura atendimento ambulatorial é a prisão de ventre ou obstipação intestinal. Ela é determinada, como quase todos os problemas da idade avançada, por vários fatores associados: diminuição do tônus da musculatura da parede abdominal; aproximação do gradeado costal das cristas ilíacas, o que acentua a fraqueza dos músculos anteriores do abdômem; redução da atividade física, como a deambulação; redução da quantidade de líquidos ingeridos, devido à menor sensação de sede; modificação da dieta por problemas odontológicos ou doenças digestivas, que acabam por determinar consumo muito reduzido de fibras alimentares e uso de medicamentos que inibem a motricidade do tubo digestivo. Secundariamente à obstipação, o médico que atende um doente velho pode se deparar com um problema bastante comum, que é o uso abrasivo de laxantes, especialmente os chamados de "contato", que aumenta a mobilidade intestinal à custa de evitar a parede do tubo digestivo e que, a longo prazo, acabam por tornar ainda menos eficientes os movimentos peristálticos. Deve ser assinalado também que a doença diverticular dos cólons, as hemorróidas e até mesmo o câncer de cólon têm sido associados à obstipação intestinal.

A intervenção do médico deve assumir contornos educativos e de orientação. O idoso deve ser convencido de que é normal que haja uma certa redução da velocidade do funcionamento de seu intestino e principalmente que a maioria das obstipações é perfeitamente solúvel com uma simples correção dietética.

 

 

QUEIXAS OESTEOARTICULARES

As queixas osteoarticulares são extremamente freqüentes entre pacientes de idade avançada avançada e, dado o seu comportamento habitual de serem pouco características, freqüentemente acabam sendo esquecidas num contexto clínico em que, não raro, vários problemas têm que ser investigados, ficando o médico muitas vezes preocupado com o possível diagnóstico de uma neoplasia ou outra doença potencialmente grave que polariza sua atenção. Por outro lado, o idoso e sua família consideram normal o aparecimento de dores ou limitação à movimentação osteoarticular e, por vezes, nem sequer relatam o problema, a não ser que o médico pergunte especificamente.

Na presença da queixa, é importante tentar caracterizá-la da melhor maneira possível, por mais difícil que isso possa ser, já que a variedade de doenças desse aparelho é razoavelmente grande, e a conduta, seja para esclarecimento laboratorial, seja para tratamento, pode também variar bastante.

Fenômenos como localização da dor, ocorrência de artrite, freqüência e intensidade dos sintomas, concomitância de fraqueza, rigidez matinal e alterações da sensibilidade local podem auxiliar bastante na melhor definição do quadro. É preciso muito cuidado para não confundir a sintomatologia das alterações osteoarticulares com doenças neurológicas, que também podem se manifestar nas extremidades.

 

EXAME FÍSICO

O exame físico do paciente idoso apresenta particularidades únicas, exigindo do médico não só abordagem adequada, mas também razoável soma de conhecimentos a respeito da fisiologia do envelhecimento e do efeito dos anos sobre as doenças. De forma similar à anamnese, é necessário dar atenção aos detalhes e ter em mente mesmo diagnósticos diferenciais que pareçam inicialmente menos prováveis, já que quanto mais avançada a idade, mais confusos e atípicos são os quadros clínicos das doenças.

Muitas vezes, o idoso terá dificuldade para assumir a posição necessária para ser examinado ou até mesmo para subir na mesa de exame. É importante ter o cuidado de manter os acessos aos locais de exame livres e suficientemente largos para não atrapalhar um doente de bengala ou andador. É também interessante que haja locais de apoio, como, por exemplo, cadeiras com braços, que facilitem os movimentos do enfermo dentro do consultório.

No momento em que o doente entra na sala onde será entrevistado, deve começar a ser observado quanto à deambulação, dificuldades para despir-se e vestir-se, acomodar-se na mesa de exames. Ao deitar-se, o paciente deve ter o seu tronco pelo menos um pouco erguido, já que enfermidades que induzem dispnéia de decúbito são freqüentes. Também é importante providenciar um pequeno travesseiro para apoio da cabeça, pois não raro o idoso é portador de artrose cervical avançada com bom grau de rigidez, não conseguindo apoiá-la no mesmo plano do dorso.