Moacyr Camargo Martins
Hamil Adum
Londrina, 5/10/77
   
 

        Meu primeiro contato com ele foi ao tempo da antiga Faculdade de Direito, onde, ambos, lecionávamos: ele, Medicina Legal, e eu, Direito Internacional Público.
        Não sei por que, comecei a admirá-lo. Talvez porque sentisse nele um colega franco e aberto em suas atitudes, a par de um amigo com quem – pressentia – se poderia contar quando se fizesse necessário.
        E realmente iria ter a comprovação desse pressentimento quando um de meus filhos prestou vestibular para o curso de Direito.
Diante de meu nervosismo – comum a todo pai nessas ocasiões – Moacyr aproximou-se de mim, no corredor das salas de aula, procurando animar-me, insuflando-me confiança em meu filho.
        Jamais esquecia este episódio toda vez que o via.
        Dali para frente e sempre cada vez mais iria tê-lo na conta de um grande amigo. E realmente ele o foi.
        Admirava-o não só pela dedicação e entusiasmo com que se conduzia à frente da espinhosa e dura cátedra como pela maneira cordial com que tratava os alunos, embora severo na condução da disciplina que lhe tocara ministrar.
        Era um homem descompromissado ou que só tinha compromissos com a profissão que abraçara e com suas convicções, das quais não abria mão ou com as quais não fazia qualquer espécie de transação. Daí a sua integridade pessoal, que todos nós conhecemos.
        Nos últimos anos, juntamente com o Dr. Heber Soares Vargas, passou a dedicar-se à expansão do ensino da criminologia, dela fazendo-se um entusiasta e paladino em nossa Universidade, tendo sido um dos organizadores do Primeiro Congresso de Criminologia, sediado nesta cidade.
        Quando participou do Primeiro Encontro de Criminologia, cuja organização se deveu ao Dr. Heber Soares Vargas e que teve lugar na Faculdade de Direito de Jacarezinho, Moacyr, com sua simpatia irradiante, cativou os alunos daquele estabelecimento superior de ensino, revelando grande conhecimento da matéria com a palestra que proferiu.
        Tenho ainda em mente a viagem que fizemos juntos – ele, os Drs. Heber, Osmy Muniz, José Carlos Abrão e eu – para aquele Encontro e o debate animado que se estabeleceu entre os cinco, Moacyr sempre expondo idéias válidas e lúcidas.
        Fiquei em débito com ele. Uma dúvida que, agora, tornou-se sagrada. E que irei resgatar, ainda que postumamente. Será minha última homenagem a ele, que cumprirei com o coração partido.
        Moacyr vinha se dedicando ao estudo do sistema penitenciário em nosso Estado. E tinha trabalhos elaborados a respeito. Uma semana antes de seu falecimento, na secretaria do CESA (Centro de Estudos Sociais Aplicados, da FUEL), presentes os Drs. Heber Soares Vargas e José Carlos Abrão, ele ficou de fornecer-me os dados necessários a um artigo que me comprometera a lançar nestas colunas sobre suas idéias a respeito de nosso sistema penitenciário.
        É essa dívida que irei paga-lhe. Que para mim é um ponto de honra.

        Escrevi certa feita que homens existem que simplesmente morrem; como os há que, morrendo, despovoam o mundo, a sociedade. Moacyr está entre os últimos. Sua morte abriu um vácuo, um vazio em nosso meio.
        Não que existam homens insubstituíveis, mas sim, que há vidas que, tragadas pela morte, oprimem-nos o coração, deixando-nos angustiados.
        Esse o sentimento que se apoderou de mim quando, inesperadamente, tomei conhecimento de sua morte pela televisão. Principalmente porque não tivera conhecimento de que, dois dias depois de nossa conversa no CESA, ele caíra enfermo.
        Para mim foi um choque a infausta notícia. Como o foi para muitos. Ao primeiro instante não podia aceitar o fato, a idéia de estar morto aquele com quem poucos dias antes conversara longamente. Desliguei a televisão, como procurando acostumar-me ao ocorrido; rechaçando a idéia do desaparecimento, assim repentino, de alguém que aprendera a admirar e respeitar.
        Escrevo tudo isto ao correr da pena. Não é minha mente que está ditando as palavras. É todo o meu ser que participa deste artigo. Meu corpo e minha alma que nele se extravasam. Que nele se contorcem e doem.

        Jamais poderia supor que poucos dias depois de minha última conversa com Moacyr fosse escrever este artigo. Tivesse que debruçar sobre seu corpo e invocar-lhe a memória.
        A vida é brutal – terrivelmente brutal – na medida em que ela nos apunhala com a morte de pessoas que acostumamos a querer bem. A estimar e admirar.
        Na lápide deste artigo só posso deixar a Moacyr Camargo Martins a única coisa que tenho para ofertar-lhe: minha imorredoura reverência à sua memória.
Também Londrina, por certo, deve a ele o bronze de sua gratidão, ele que foi um pioneiro dentre os pioneiros que lançaram os fundamentos desta terra, de que tanto nos orgulhamos hoje.