O conceito de inteligência e sua importância para a psiquiatria

 

Guilherme Rubino de Azevedo Focchi *

Cláudia Inês Scheuer **

Nota: Este trabalho foi reproduzido na íntegra o qual foi publicado pela Revista de Neuropsiquiatria da Infância e Adolescência.

 

" Os seres inteligentes podem (...) viver mais e deixar mais descendentes (...). A inteligência ajudou de forma definitiva a sobrevivência. "

Carl Sagan, Cosmos

   

A inteligência, por certo, é função psíquica complexa; talvez por isso parece não haver conceito de inteligência universalmente aceito ( Toledo, 1995 ). Liungmann ( 1972 ) observa que o conceito de inteligência é manipulado conforme a conveniência; Mackintosh ( 1987 ) e Howe ( 1988 ) põem em dúvida o valor científico de um conceito abrangente de inteligência no estudo das habilidades mentais. Para Eysenck ( 1988 ), a inteligência é como " gravidade " ou " inércia ", variando com o tempo e com a cultura. Howard ( 1993 ) considera-a como um ou vários conceitos imbricados, trazendo informação e sob um rótulo - " inteligência " -, importando apenas se o conceito é útil ou não.

Aqui, far-se-á uma breve revisão e discussão sobre alguns conceitos de inteligência e sua importância para a psiquiatria.

Stern ( 1914 ) conceitua a inteligência como a capacidade do indivíduo para adaptar-se convenientemente a situações novas; Binet e Simon ( 1916 ) conceituam a inteligência como um conjunto de processos de pensamento que constituem a adaptação mental; para Wells ( 1917 ), a inteligência é a capacidade de combinar normas de conduta para poder atuar melhor em situações novas; para Thorndike ( 1921 ), a inteligência é a faculdade de produzir reações satisfatórias do ponto de vista de verdade e realidade.

Em comum, esses autores vêem a inteligência como a capacidade de agir e adaptar-se diante de situações novas ( Assumpção, 1994 ). Entretanto, talvez não seja necessário que o indivíduo inteligente produza reações satisfatórias em termos de verdade e realidade, pois, se assim fosse, pacientes psicóticos, que vivem uma realidade própria e nem sempre reagem " satisfatoriamente ", teriam a inteligência comprometida, o que em geral não ocorre ( Alonso-Fernandez, 1978 ).

Stoddard ( 1943 ) conceitua a inteligência como a capacidade de realizar atividades caracterizadas como difíceis, complexas e abstratas, econômicas e adaptáveis a um objetivo, de valor social e carentes de modelos, mantendo-se em circunstâncias que requerem concentração de energias e resistência diante das forças afetivas.

A realização de atividades concretas, simples e fáceis também provavelmente forneceria dados a respeito da inteligência, na medida em que o indivíduo mais inteligente por certo realizaria com maior destreza e rapidez essas atividades.

Para Goddard ( 1945 ), a inteligência é o grau de eficácia que a experiência tem para solucionar problemas presentes e prevenir os futuros.

Porém, é provável que a experiência não seja o único elemento para a solução de problemas. Por exemplo, a capacidade que o indivíduo tem para " improvisar ", independentemente da experiência adquirida, seria outro elemento importante para a solução de questões com que o indivíduo se defronta.

Segundo Wechsler ( 1958 ), a inteligência é a capacidade agregada ou global para agir intencionalmente, pensar racionalmente e lidar de modo eficaz com o meio ambiente. Por sua vez, Hayes ( 1962, in Bailey, 1976 ) avalia a inteligência como formulação de fatores e habilidades aprendidas.

É provável que a inteligência não dependa exclusivamente do aprendizado; talvez ocorra o inverso - o indivíduo inteligente aprenderia mais, e mais rápido.

Para Jaspers ( 1979 ), a inteligência é o conjunto de todas as capacidades e instrumentos que, em quaisquer realizações, são utilizáveis para uma adaptação às tarefas vitais, podendo aplicar-se para determinado fim. Outros autores conceituam a inteligência como um sistema de relações cognitivas com múltiplos níveis de significado, vinculado a fatores sociais, culturais e biológicos ( Piaget, 1983; Vigotsky, 1991; La Taille e cols., 1992; Toledo, 1995). A inteligência pode também ser vista como manifestação intencional, representada tanto pela linguagem como pelos atos, ressaltada em situações-problema da vida do sujeito e influenciada por outras funções psíquicas, como a afetividade ( Assumpção & Sprovieri, 1991). Seria uma função integrativa ( Schanck & Jona, 1993; Wadsworth, 1993; Toledo, 1995 ).

Talvez chamar a inteligência de função integrativa deva-se, antes de mais nada, à dificuldade de conceituá-la , classificando-a, conseqüentemente, como rendimento psíquico.

Logo, se função adaptativa, integrativa, essencialmente prática, determinada multifatorialmente, intencional ou relacionada ao restante do psiquismo, possivelmente o conceito de inteligência ainda será alvo de muitas discussões.

A partir do que foi exposto, a importância do conceito de inteligência para a psiquiatria pode ser abordada de diferentes formas.

Em primeiro lugar, há transtornos psiquiátricos em que a inteligência é primariamente comprometida - as deficiências mentais e as demências ( Alonso - Fernandez, 1978 ). Nas deficiências mentais, há déficit de inteligência adquirido precocemente, ao passo que nas demências há comprometimento da inteligência em indivíduos que tinham, previamente, essa função normal ( Alonso - Fernandez, 1978 ). A inteligência pode estar secundariamente comprometida em outros transtornos de personalidade, transtornos do humor e epilepsias (Alonso - Fernandez, 1978 ). Nesses casos, outras funções psíquicas seriam primariamente atingidas ( Alonso - Fernandez, 1978 ).

O desenvolvimento do conceito de inteligência talvez pudesse levar ao fomento de métodos diagnósticos e estratégias terapêuticas em psiquiatria, incluindo as farmacoterapias, já tentadas em grande número e sem sucesso real ( Assumpção, 1994 ).

Em segundo lugar, a partir do conceito de inteligência como função integrativa e determinada multifatorialmente, é possível imaginar, talvez em futuro próximo, a partir do que se sabe da inteligência do indivíduo, prever seu desenvolvimento e até mesmo sua vulnerabilidade para a doença mental.

Por fim, se a inteligência for considerada como função adaptativa, é possível imaginá-la como valioso instrumento que o paciente psiquiátrico poderia usar a seu favor, no sentido de ter maior consciência de sua morbidade, adaptar-se melhor à doença e ao meio em que vive e reagir melhor a estressores externos. Dessa forma, um paciente deprimido conseguiria, por menor que fosse sua disposição para o trabalho, encontrar novos meios de manter seu rendimento. Um paciente esquizofrênico " resistiria " melhor a suas alucinações imperativas, um ansioso, a suas obsessões, e assim por diante.

Essas são possivelmente apenas algumas aplicações do conceito de inteligência à psiquiatria, dentre muitas outras que porventura surjam paralelamente à discussão do que é inteligência.

 

 

* Psiquiatra pela FMUSP. Médico Colaborador do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

** Fonoaudióloga. Doutora em lingüística. Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Orientadora da Disciplina de Fisiopatologia Experimental da FMUSP. Docente da Disciplina de Fonoaudiologia da FMUSP.