Teoria da Personalidade

Lucia Maria Salvia Coelho
Epilepsia e Personalidade

 

II.  Estrutura e dinâmica da personalidade

Para compreendermos o dinamismo da personalidade decorrente da inter-relação das funções psíquicas e do processo contínuo de ligação do indivíduo com o ambiente, devemos expor, de modo sucinto, o nosso modelo teórico de "estrutura da personalidade".

Utilizando o método subjetivo e o critério sociológico estabelecidos por Comte, torna-se possível operar uma série de abstrações sucessivas nos fenômenos que intervêm no comportamento humano. Após o exame inicial dos fatores sociais amantes no processo evolutivo de integração bidirecional do indivíduo no ambiente, distinguimos, destas expressões psicossociais, as reações de ordem biológica — características do homem como membro de uma espécie animal. Em seguida, consideramos neste sistema orgânico complexo os fenômenos referentes especificamente à dinâmica do encéfalo.

Na investigação das atividades do sistema nervoso humano devemos distinguir diferentes níveis de expressão: 1. ligado a estrutura morfológica — estudada pela anatomia nervosa; 2. as funções fisiológicas vegetativas que se traduzem pela regência do metabolismo, como reações bioquímicas (ao nível dos núcleos hipotalâmicos) e particularmente como estimulação geral da atividade do sistema nervoso central — por intermédio da rede visceral do sistema nervoso autônomo donde partem nervos que se comunicam diretamente com o hipotálamo e por meio deste com o cerebelo; 3. num plano mais diferenciado: neurofisiológico — cuja regência se faz no diencéfalo e particularmente na substância reticular — já podemos verificar as mudanças de potencial bio-elétrico, captadas pelo traçado eletroencefalográfico e os dinamismos apreciáveis através do exame direto especializado; 4. e, finalmente, a expressão mais diferenciada e manifesta, embora mais dependente, da dinâmica do encéfalo corresponde ao nível psicológico ou subjetivo. A este nível se processa a integração no córtex cerebral da regência das funções psíquicas — conscientes ou não.

O resultado objetivo desta dinâmica subjetiva pode ser investigado através da entrevista psicológica e da utilização de técnicas projetivas. Podemos apreciar os elementos explícitos e as disposições implícitas do comportamento humano em seu conjunto afetivo-conativo — denominado por Silveira de "espontaneidade" — e em sua associação intelectual e conativa que resulta na “consciência”. Graças a um procedimento de observação sistemática podemos distinguir diferentes modalidades psicológicas de expressão destas funções subjetivas: os tipos peculiares de reação aos diferentes estímulos externos e aos impulsos internos cuja satisfação é indispensável à sobrevivência individual e à da espécie; os níveis e os graus de expressão do estabelecimento das ligações interpessoais; as formas de execução motora que se traduzem especialmente através da locomoção e da preensão; e, finalmente, os processos mentais que promovem a integração do indivíduo à realidade externa.

Assim, conforme o resultado da expressão destas disposições subjetivas podemos agrupá-las em três conjuntos harmônicos de funções que possuem um significado específico, ou mais precisamente em três setores fundamentais da personalidade: afetividade, conação e inteligência. O setor básico afetividade consiste em um grupo de funções subjetivas que continuamente estimula o ser humano a satisfazer as necessidades da própria existência individual e, por outro lado, permite a sua integração no ambiente físico e social, A conação decorre de funções que presidem o comportamento explícito, e ao mesmo tempo dirige o trabalho mental. Não corresponde à ação exteriorizada – aos atos ou à motilidade – mas abrange apenas os dinamismos subjetivos que antecedem e possibilitam a transposição de nossas disposições afetivas e as elaborações intelectuais para o ambiente externo. Assim também, observa Angyal que “na conação não ocorre apenas uma transposição de estados psicofisiologicamente neutros (inconscientes) a processos psicológicos conscientes (elaborados), mas também os processos conativos se caracterizam pela tendência em exteriorizar estes impulsos subjetivos em atividades corporais” (1 – p. 75-76). Silveira e Angyal reconhecem assim a dupla função da atividade conativa, segundo a estabelecera Comte: reger o comportamento explícito e manter o trabalho intelectual.

Finalmente a inteligência se constitui por um grupo de funções psíquicas que estabelece a observação, a adaptação lógica ao ambiente. Em relação a este trabalho temos portanto, duas direções: aferente, isto é, captação dos fenômenos externos e subordinação de nosso trabalho mental criador às exigências da realidade externa.

Os elementos essenciais para a solução da grande maioria dos obstáculos que o homem enfrenta, em relação ao ambiente físico e social, são representados por símbolos. Através de concepções simbólicas, o individuo alcança a adaptação intelectual à sua realidade. A capacidade de aprender simbolicamente os estímulos externos e de expressar os sentimentos e pensamentos através de sinais abstratos, de modo a transmiti-los aos demais membros da sociedade atual e futura, é peculiar ao ser humano. Angyal considera que este é o maior poder de que a natureza dotou algumas de suas criaturas, mas também é a fonte de erro e de sofrimento mais profunda (2).

A utilização de símbolos abstratos distintos do sinal, como forma de comunicação, torna o homem diferenciável de todos os seres vivos. Através do desenvolvimento do raciocínio, ele intervém construtivamente sobre o ambiente. Considerando a superioridade intelectual do ser humano em relação aos outros animais Bertalanffy assinala igualmente suas conseqüências desfavoráveis. “Como um fator social, o universo simbólico criado pelo homem é o responsável pelo curso sanguinário da história. Em oposição à luta ingênua pela sobrevivência – competição para obtenção do alimento e do espaço vital – a história é determinada pela luta de ideologias em um mundo simbólico bem mais cruel” (5 – p. 37).

Esta concepção teórica, baseada em parte na investigação empírica dos fenômenos psíquicos, permitiu à escola positivista a elaboração de um conceito mais preciso e operacional de estrutura da personalidade. Silveira concebe a estrutura da personalidade como “o conjunto de funções subjetivas hierarquicamente organizadas, inatas e coexistentes, ligadas ao funcionamento cerebral o qual resulta da comunicação com o meio externo e interno. Estas funções reagem continuamente e de modo harmônico as disposições genéticas do individuo e as suas inter-relações com o ambiente físico e social.”

Em seu conceito de estrutura da personalidade. Silveira correlaciona suas funções psíquicas às diferentes regiões corticais do encéfalo humano. Alterações estruturais ou funcionais destas áreas – que representam o substrato biológico dos dinamismos psíquicos – poderão acarretar distúrbios de maior ou de menor gravidade, ao nível dos fenômenos psicológicos.

Entretanto, nem a harmonia subjetiva e nem as suas alterações psicológicas dependem exclusivamente da integridade do substrato cerebral.

Considerando o nível de maior complexidade das funções subjetivas, que definem a própria estrutura da personalidade, deveremos assinalar a importância dos fatores sociais na expressão destas funções. A teoria positivista acentua este aspecto, considerando-o como essencial para a compreensão do comportamento humano. Deste modo as disposições genéticas características da espécie humana apenas se atualizam através do convívio interpessoal. O próprio equilíbrio psíquico depende fundamentalmente das funções da sociabilidade. Deste modo podemos distinguir alterações de comportamento resultantes predominantemente de conflitos de integração do indivíduo na sociedade.

Em suma as funções subjetivas resultam da conjunção intima de fatores biológicos e sociais. Uma vez esclarecido este aspecto, justifica-se a postulação de uma estrutura de personalidade peculiar à espécie humana. As funções psíquicas, delimitadas segundo princípios gerais, estão sempre presentes em todos os indivíduos, e o que varia em cada um deles é o dinamismo da personalidade, que depende da expressão e da combinação peculiar destas funções.

Investigações psicofisiológicas que se apóiam na observação da dinâmica psíquica permitem verificar que cada uma das funções subjetivas simples corresponde a áreas cerebrais definidas, ou unidades funcionais que constituem órgãos individualizados. Embora não limitadas nitidamente entre si, como ocorre no resto do organismo, os órgãos cerebrais formam sistemas, hoje experimentalmente verificados. Assim, Silveira não aceita a teoria “dos centros cerebrais“ que considerava o encéfalo como um conjunto de centros autônomos. O referido autor verifica no encéfalo os sistemas de órgãos, passíveis de distinção apenas através do exame dos processos mentais, que resultam das conexões específicas estabelecidas entre determinadas áreas cerebrais.

Assim em cada esfera psíquica as várias funções diversificam de acordo com uma hierarquia funcional: impulsos de um determinado tipo se relacionam preferencialmente a alguns outros, isto é, ocorre regência das funções mais complexas em relação às funções mais simples pertencentes a um mesmo sistema.

O autor caracteriza a hierarquia entre estas funções, em termos de dependência e de regência. Ocorre regência, quando partimos das funções mais específicas para aquelas mais gerais e fundamentais. Em sentido inverso, temos a dependência. Então, o conceito de hierarquia de Silveira baseia-se em dois princípios:

1. A consideração das funções básicas fundamentais, que presidem os primeiros contatos do indivíduo com a realidade externa e que são essenciais à sua sobrevivência, e mesmo à realização de qualquer trabalho mental — as funções da afetividade. Em plano intermediário, as funções conativas, que coordenam a expressão de nossos pensamentos e sentimentos. E, finalmente, as funções intelectuais, que atingem seu pleno amadurecimento, apenas a partir das fases mais avançadas do desenvolvimento da criança, como pensamento lógico.

2. Silveira, utilizando a concepção positivista do homem como ser social, estabelece que as funções hierarquicamente mais elevadas são aquelas que presidem as relações interpessoais mais desenvolvidas, mais adequadas à plena integração no ambiente social. Mas a adaptação do indivíduo à sociedade não exige a anulação das funções afetivas básicas, e sim, apenas a subordinação. Enquanto os impulsos instintivos são indispensáveis à manutenção da vida do indivíduo e da espécie, os sentimentos, que se traduzem nas relações interpessoais, e a expressão deles, através do raciocínio lógico, são o que define o ser social. Assim, um indivíduo imaturo afetiva e intelectualmente, como é o caso do deficiente mental, não consegue desenvolver papéis adequados para afirmar-se na sociedade em que vive, nem tampouco assimilar logicamente os valores decorrentes. Porém, sobrevive, uma vez que as funções nutritivas da afetividade básica estão íntegras.

Portanto, a concepção de esferas da personalidade e a de sistemas psíquicos resultam da observação dos fenômenos ao nível da expressão psicológica e, além disso, norteiam a investigação das diferentes áreas cerebrais envolvidas neste processo. Silveira observa a este respeito que a unidade de cada sistema decorre de sua expressão funcional e não da proximidade das áreas cerebrais nele envolvidas. A existência de órgãos simétricos e intercomunicantes em ambos os hemisférios cerebrais explica a ocorrência dos dinamismos de alternância no estado fisiológico e a possibilidade de haver suplência em casos de lesão em uma área de um hemisfério cerebral. Desta maneira a harmonia dos sistemas psíquicos, as conexões estabelecidas entre as funções pertencentes a diferentes esferas e os fenômenos de alternância e de suplência permitem o equilíbrio e a aparente unidade do complexo dinâmico da personalidade.

No trabalho "Cerebral Systems..." (23), Silveira comenta: “A interligação das estruturas corticais e subcorticais, imperativa em qualquer operação mental, explica a chamada interpretação holística do funcionamento mental, mas ao mesmo tempo a contraria. A unidade é apenas aparente, uma vez que no estado normal todas as funções estão intimamente relacionadas entre si. Porém, sob condições patológicas, a participação de cada uma pode ser evidenciada em seu resultado final de anormalidade. Realmente, a concepção de sistemas cerebrais como subjacentes aos sistemas psíquicos pode ser útil — algumas vezes é de extremo valor, como por exemplo, na análise psicopatológica profunda feita por Kieist. É necessário ter em mente esses dinamismos em que as funções mais dependentes, as da esfera intelectual, são regidas pelas esferas conativas e afetiva. Isto, por sua vez, traduzido em termos neurofisiológicos, significaria a regência do lobo frontal, feita por outras regiões da convexidade cerebral" (23 — p. 268).

Na concepção de estrutura da personalidade. Silveira não apenas assinala que as funções subjetivas regem o processo de interação do indivíduo com o ambiente, como ainda menciona que esta regência se efetua de modo contínuo.

O ser humano mantém, deste modo, uma continuidade com eus semelhantes — antecedentes e descendentes — na medida em que recebe e transmite um determinado contingente genético e que norteia o próprio comportamento, segundo padrões e valores culturais transmitidos pela família e pelo ambiente, imediato e depois universal; e, ao mesmo tempo, elabora a própria experiência, comunicando-a aos contemporâneos e aos descendentes, seja em plano modesto ou mesmo rudimentar, seja — conforme o caso — até na amplitude de novas concepções filosóficas e sociais.

A unidade subjetiva do homem, extremamente acentuada na psicologia moderna, e mais especialmente na escola holística e na medicina psicossomática, já havia sido assinalada por Comte: “É importante notar que o cérebro nunca deve ser considerado isoladamente do conjunto do organismo" (7 — p. 673). Neste sentido. Silveira considera o indivíduo como uma unidade complexa, resultante do conjunto de funções psíquicas — que se exteriorizam de modo peculiar a cada um, e que resultam da estrutura da personalidade — e das funções somáticas. Assim, embora estabeleça a necessária correlação do psíquico e do somático, não confunde indivíduo com organismo.