SÍndrome Ansiosa

 

Carla Ruffoni Ketzer

 

"Via de regra, o que não está à vista perturba a mente do homem mais seriamente que o que ele vê." (Júlio César)

 

 

INTRODUÇÃO:

Preocupação, apreensão, temor e, até mesmo, ansiedade são termos freqüentemente utilizados por pacientes e que representam sintomas psiquiátricos inespecíficos. Entretanto, precisamos diferenciar a ansiedade normal da ansiedade patológica. Consideramos normal quando a ansiedade é uma resposta adaptativa do ser humano frente a situações ameaçadoras, preparando o indivíduo para evitar a ameaça ou atenuar suas conseqüências. Um bom exemplo disto é a ansiedade apresentada frente a uma prova (ameaça), que poderá levar o indivíduo a estudar mais (atenuar as conseqüências). Falamos de ansiedade patológica quando o grau de sofrimento é intenso o suficiente para levar a uma desadaptação do indivíduo.

 

 

DEFINIÇÃO:

A ansiedade patológica caracteriza-se por uma "sensação difusa", semelhante ao medo, mas em resposta a um perigo vago, não concreto. Surge, portanto, quando a resposta a determinado estímulo é inadequada, seja por sua duração e/ou intensidade exageradas. Assim, a intensidade, duração ou freqüência da ansiedade são claramente desproporcionais ao estímulo (ameaça), causando sofrimento ao paciente e levando-o a apresentar prejuízo social e/ou ocupacional.

Freqüentemente, essa sensação desagradável de apreensão, vem acompanhada por sintomas autonômicos, entre eles: 

 

sudorese

tremores

náuseas

taquicardia

agitação psicomotora

vômitos

palpitações

desconforto abdominal

diarréia

A esse conjunto (ansiedade patológica + sintomas autonômicos) chamamos de Síndrome Ansiosa

 

 

CLASSIFICAÇÃO:

Segundo a classificação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM- IV), a Síndrome Ansiosa é parte definidora de transtornos classificados como transtornos de ansiedade, e que se apresentam como:

a) Transtorno de Pânico e Agorafobia: o transtorno de pânico pode ser descrito pela ocorrência espontânea e inesperada de ataques de pânico, caracterizados por intensa ansiedade ou medo acompanhados de sintomas somáticos (taquicardia, dispnéia, sudorese e palpitações, são os mais comuns), com duração breve (geralmente menos de 1h). Os sintomas mentais principais são extremo medo, senso de morte e/ou catástrofe iminente, medo de "ficar louco" ou perder o controle, sendo o paciente incapaz de indicar a fonte de seus temores. O paciente precisa apresentar, segundo o DSM-IV, ataques de pânico recorrentes e inesperados, além de preocupação sobre os ataques por um mês ou mais, para podermos considerar o diagnóstico de transtorno do pânico.

A agorafobia, por outro lado, acompanha freqüentemente o transtorno do pânico, e caracteriza-se por ansiedade ou esquiva a locais (geralmente locais públicos) ou situações das quais poderia ser difícil escapar ou obter ajuda em caso de apresentar um ataque de pânico.

b) Fobia Específica: "fobia é um medo irracional que provoca esquiva consciente do objeto, atividade ou situação específica temida". A exposição ao estímulo fóbico provoca imediata resposta de ansiedade no indivíduo, podendo assumir proporções de um ataque de pânico. O diagnóstico só é apropriado se a esquiva, o medo ou a antecipação ansiosa ao estímulo fóbico interferirem significativamente na rotina diária, funcionamento ocupacional ou vida social do indivíduo ou causar sofrimento acentuado. Os objetos e situações mais temidos são animais, tempestades, altura, doença, ferimentos e morte.

c) Fobia Social: A fobia social, menos comum que a anterior, caracteriza-se por um medo excessivo de humilhação ou embaraço em vários contextos sociais, como falar em público, comer em restaurantes, usar toalete público, entre outros. A exposição à situação social ou de desempenho provoca uma resposta de ansiedade no indivíduo, podendo chegar também a ataques de pânico. Aqui também é necessário que haja prejuízo do funcionamento do indivíduo para que se possa fechar o diagnóstico deste transtorno.

d) Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): primeiramente, é importante entender que as obsessões são pensamentos, idéias ou imagens persistentes, vivenciados como intrusivos e inadequados, causando acentuada ansiedade ou sofrimento no paciente. Compulsões, por sua vez, são comportamentos repetitivos, estandartizados e recorrentes, cujo objetivo é prevenir ou reduzir a ansiedade gerada pelas obsessões. Assim, as obsessões aumentam a ansiedade do indivíduo, enquanto a execução das compulsões reduz essa ansiedade (ex.: obsessão de contaminação seguida de lavagem compulsiva das mãos; obsessão de dúvida seguida de compulsão de verificação). O Transtorno Obsessivo-Compulsivo caracteriza-se principalmente pela presença de obsessões e compulsões recorrentes, suficientemente severas para consumirem tempo do paciente (mais de 1h por dia envolvido com rituais) ou causar sofrimento acentuado ou prejuízo significativo. O paciente percebe o caráter irracional das obsessões ou compulsões (tem insight), o que acaba gerando muita angústia.

e) Transtorno de Estresse Pós-Traumático: para ser classificado como portador deste transtorno, o paciente deve ter vivenciado um estresse emocional tão importante que seria traumático para qualquer indivíduo. Esses traumas incluem experiências de combate, catástrofes naturais, agressão física, estupro, acidentes graves, etc. O transtorno de estresse pós-traumático caracteriza-se pelo reviver o trauma através de sonhos e de pensamentos durante a vigília; evitação persistente de coisas que lembrem o trauma e embotamento da resposta a esses indicadores; hiperexcitação persistente.

f) Transtorno de Ansiedade Generalizada: consiste em uma preocupação excessiva e abrangente, acompanhada por sintomas somáticos, causando comprometimento significativo no funcionamento social e/ou ocupacional, ou acentuado sofrimento para o indivíduo. Prevalência anual varia de 3-8% da população.

g) Transtorno de Ansiedade devido a uma Condição Médica Geral: muitas condições médicas (patologias não psiquiátricas) podem provocar sintomas semelhantes aos observados nos transtornos de ansiedade. Assim, hipertireoidismo, hipotireoidismo, deficiência de vit. B12 , hipoparatireoidismo, entre várias outras patologias, estão freqüentemente associados com sintomas de ansiedade. Certas lesões cerebrais e estados pós-encefalíticos, por exemplo, podem produzir sintomas idênticos aos vistos no transtorno obsessivo-compulsivo. O diagnóstico depende da identificação de sintomas de um transtorno de ansiedade, seja ele ansiedade generalizada, ataques de pânico, ou sintomas obsessivos-compulsivos.

h) Transtorno de Ansiedade induzido por Substâncias: é comum, tanto pelo abuso das drogas chamadas recreacionais, quanto de fármacos prescritos pelos médicos. Várias substâncias são capazes de produzir sintomas de ansiedade, desde as simpaticomiméticas (anfetaminas, cafeína, cocaína, etc), até as serotonérgicas (LSD, etc), além de muitas outras.

i) Outros Transtornos de Ansiedade: transtorno de estresse agudo, transtorno de ansiedade sem outra especificação, transtorno misto de ansiedade-depressão.

 

 

 


BIBLIOGRAFIA

1. ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV). Porto Alegre, Ed. Artes Médicas Sul, 1995, 4a ed.

2. KAPLAN H , SADOCK B & GREBB J. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas Sul, 1997, 7a
edição. Pag.545-579.

3. GABBARD G. Psiquiatria Psicodinâmica: baseado no DSM-IV. Porto Alegre,Artes Médicas, 1998, 2a ed. Pg. 174-199.

4. Glossário das definições dos sintomas incluídos na 9a edição do P.S.E. – Exame do estado psíquico, 1983. (polígrafo da tradução elaborada por GENTIL F V & CAETANO R).