O PRECEPTOR DA RESIDÊNCIA MÉDICA

Suzana Maciel Wuillaume
Doutora em Saúde da Criança e da Mulher - IFF/FIOCRUZ

        A importância de um melhor entendimento do exercício da preceptoria e da figura do preceptor aumenta à medida que a residência médica torna-se, cada vez mais, um processo necessário e imprescindível para o exercício profissional. No entanto, apesar de largamente usado, o conceito de preceptor de residência médica não é muito claro. A legislação pouco fala dele. O decreto nº 80.281 indica que os preceptores devem ser "profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional" (Brasil, 1977) e a Resolução nº 4/78 da CNMR, no seu art. 5º, alínea "d" estabelece que eles devem ser "portadores de certificado de residência médica da área ou especialidade em causa ou título superior, ou possuidores de qualificação equivalente, a critério da CNRM" (Brasil, 1978).

         A despeito dessa caracterização vaga, fica claro, porém que estes profissionais são relacionados para exercer a preceptoria com base em suas competências técnicas, científicas e experiências profissionais, não sendo solicitado deles competência didático-pedagógica.

         Wuillaume (2000), em seu trabalho de tese, observou que os próprios preceptores não identificam claramente o seu papel no exercício da preceptoria. Refletindo sobre a função que desempenham no processo ensino-aprendizagem na RM, alguns deles se colocam como transmissores de informações (tanto teórico-conceituais como de habilidades e atitudes).

         No entanto, todos concordam que o aprender é prerrogativa do sujeito que aprende, ou seja, do residente.

         A partir daí desenvolve-se a idéia do preceptor como mediador de um processo de ensino-aprendizagem que utiliza a supervisão da prática como estratégia principal. Essa mediação é uma atividade complexa que exige conhecimento sensibilidade, bom senso, criatividade e improvisação. Propicia oportunidades de aprendizagem na medida em que direciona o residente, apontando caminhos que integrem a teoria e a prática, permitindo a ele (re)construir o seu conhecimento a partir da singularidade das situações de ensino.

         Como um processo de formação, a mediação do preceptor transcende aos problemas técnicos relacionados a conhecimento e habilidades inerentes ao atendimento ao paciente, estendendo-se a tudo que diz respeito ao residente, uma vez que ocorre dentro de um contexto complexo de interações entre preceptores, residentes, profissionais de diferentes áreas do conhecimento, pacientes e instituições.

         Assumir esse lugar de interlocutor implica, ainda, no aprender a lógica do exercício da preceptoria - atuar na formação do residente exige: compreender a dinâmica do processo de ensino-aprendizagem a partir da prática, as especificidades que caracterizam o trabalho médico, e as transformações do mundo do trabalho e do exercício profissional do pediatra.

         O desenvolvimento do preceptor deve ser visto como uma estratégia no repensar da dinâmica da Residência Médica. Nesse sentido, tomar a preceptoria como campo de investigação e assumir a produção de conhecimento sobre essa prática pode significar um elemento dinamizador na reflexão sobre a Residência Médica.


Referências bibliográficas

Brasil - Leis, Decretos, etc. Decreto nº 80.281, de 5 de setembro de 1977. Regulamenta a Residência Médica, cria a Comissão Nacional de Residência Médica e dá outras providências: Diário Oficial da União. Brasília, 6 de setembro de 1977 - Seção I, pt. I p. 11.787.

Brasil - Ministério da Educação e da Cultura. Secretaria de Educação Superior. Comissão Nacional de Residência Médica. Resolução 04/78, estabelece normas gerais, requisitos mínimos e sistemática de credenciamento: Diário Oficial da União. Brasília, 9 de novembro de 1978.

Wuillaume, Susana M. O processo ensino-aprendizagem na Residência Médica em Pediatria: uma análise. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher IFF/FIOCRUZ, 2000.