Demarcação
 
Livro: O Realismo e o objetivo da ciência
Autor: Karl R. Popper
OPUS Biblioteca de Filosofia
Publicações Dom Quixote
 
     O significado do problema da demarcação
 
     Depois de ter, uma vez apresentado a minha solução do problema da indução, tentei segui-lo nas suas ramificações até a sua fase metafísica, como lhe chamei – muito para lá do seu âmbito original. Mas a minha exploração das ramificações do problema da indução estaria incompleta se desprezasse o problema da demarcação entre ciência e metafísica. De fato, há uma questão que quase sempre se me põe mal eu tomo consciência de que na verdade não acredito na indução, e que não acredito sequer que a indução desempenhe um papel significativo nas ciências. Essa questão é a seguinte: abandonando-se a indução, como é que se pode distinguir as teorias das ciências empíricas das especulações pseudocientíficas, não científicas ou metafísicas?

     Este é o problema da demarcação. Ele resolve-se, sugiro eu, aceitando a estabilidade, a refutabilidade ou a falsificabilidade como sendo a característica distintiva das teorias científicas. A partir da formulação que foi dada, dificilmente se poderá avaliar o seu significado. À primeira vista, ele poderá até parecer antes ser uma questão pedante do que um problema com verdadeiro interesse. Pois o que significa um nome, uma distinção, uma classificação ou uma demarcação? Quando ansiamos por saber, quando o nosso objetivo é aprender algo acerca do Mundo, não nos preocupamos muito com os compartimentos ou departamentos que possam ser atribuídos ao que virá a ser o nosso conhecimento. Tal como eu disse na introdução, assuntos e outras divisões do saber são fictícios e enganadores, ainda que possam ser de alguma conveniência enquanto unidades administrativas. No que toca à ciência e à metafísica, não acredito de maneira nenhuma em algo como uma demarcação clara. A ciência foi sempre, em todas as épocas, profundamente influenciada por idéias metafísicas. Certas idéias e problemas metafísicos (como o problema da mudança, ou o programa cartesiano de explicar toda a mudança através de uma ação a distâncias a perder de vista) dominaram, durante séculos, o desenvolvimento da ciência enquanto idéias reguladoras; ao passo que outras (como o atomismo, uma outra tentativa de resolver o problema da mudança) se transformaram gradualmente em teorias científicas. É claro que também houve desenvolvimentos na direção oposta: como os positivistas gostam de dizer, há um número considerável de doutrinas metafísicas que se pode demonstrar serem ecos de doutrinas da ciência absoletas.

     Pode-se exemplificar isto graças à história do próprio positivismo. Pode dizer-se que o próprio positivismo e fenomenalismo de Mach foi, na sua origem, uma teoria científica respeitável, concebida para explicar a falta do sucesso do atonismo e de outras teorias da estrutura da matéria, através da hipótese de que muito simplesmente não havia nenhuma entidade física tal como a matéria ou a <<substância>>. Mach podia apontar o sucesso da física fenomenalista – sobre tudo a ter termodinâmica fenomenalista – e as dificuldades lógicas fundamentais que entravavam o caminho das tentativas de Boltzmann para explicar a segunda lei em termos de uma estrutura atômica ou molecular. A solução proposta por Mach implicava que esses problemas, e todos os outros pertencentes à <<substancia>> ou à <<matéria>>, fossem pseudoproblemas, incluindo, claro, todos os problemas respeitantes à <<estrutura da matéria>>. Mas devido ao trabalho de Einstein de 1905 sobre o movimento browniano, estabeleceu-se o pleno significado das teorias de Maxwell e de Boltzmann. O movimento browniano alcançou, através da interpretação de Einstein, o estatuto de um experimento crucial. E, como o próprio Einstein assinalou, a existência de movimento browniano refutava a versão fenomenalista da termodinâmica. Com isto, mostrou-se que o problema da estrutura atômica da matéria era um problema físico genuíno. Assim, a partir de 1905, o positivismo e fenomenalismo de Mach tornou-se cada vez mais metafísico, num dos sentidos preferidos pelos positivistas: tornou-se um caso de física obsoleta que os cientistas enquanto cientistas tinham abandonado, mas que continuava a perdurar entre filósofos, e entre cientistas, quando estes se transformavam em filósofos – ou em apologetas, o que eles de vez em quando fazem quando as suas teorias começam a ficar em apuros (veja-se também a seção 113 mais adiante, isto é, a seção 21 de A Teoria dos Quanta e o Cisma em Física, volume III do Pós-escrito).

     Tal como estes exemplos demonstram, não pode haver demarcação clara entre ciência e metafísica; e o significado da demarcação se é sequer que algum há, não haveria ser sobreestimado. Apesar disto, defendo que o problema da demarcação tem um elevado significado. Tem-no não porque haja algum mérito intrínseco em classificar teorias, mas sim porque uns quantos e genuínos e importantes problemas estão intimamente ligados a ele; na verdade são todos os problemas da lógica da ciência.

     No início desta seção, fiz referência a uma dessas ligações: à idéia de que o método indutivo nos dá um critério de demarcação. Outra ligação anteriormente referida – o problema da discutibilidade das hipóteses científicas, e, portanto, da racionalidade dessas hipóteses – está é claro ligado com o problema da testabilidade das hipóteses científicas. Podemos considerar a testabilidade um certo tipo de discutibilidade: discutibilidade por meio de argumentos empíricos, argumentos que apelam à observação e à experimentação. Uma terceira ligação ao problema da indução é apresentada pela maneira como eu distingui a quarta fase, ou fase metafísica do problema da indução das outras três fases lógicas e metodológicas desse problema. Na sua quarta fase – isto é enquanto de saber se existem leis naturais verdadeiras – esse problema assumiu um caráter marcadamente diferente do das fases anteriores, e essa diferença reclamou uma elucidação urgente. Para essa elucidação, o caráter existencial do problema deu-nos a chave: os enunciados puramente existenciais são impiricamente irrefutáveis. Ao discuti-los temos de ter sempre presente a sua irrefutabilidade empírica. O fato de os enunciados e os problemas metafísicos poderem, não obstante, ser discutíveis (ainda que de modo inconclusivo), tentei-o estabelecer pelo expediente simples de os discutir.

     O problema da demarcação está também, é claro, intimamente relacionado, tanto histórica como logicamente, com aquele o que chamei, no começo da seção 2, o problema central da filosofia do conhecimento. Porque o problema de como adjudicar ou decidir entre teorias ou crenças em competição leva, como disse nessa ocasião, ao problema de decidir se é possível ou não justificar racionalmente uma teoria uma teoria; e isto, por sua vez, leva ao problema de distinguir entre, ou de demarcar, teorias racionais e crenças irracionais, um problema que freqüentemente é identificado (talvez de forma um pouco irrefletida) com o problema de distinguir entre, ou de demarcar, teorias empíricas ou <<científicas>> de teorias <<metafísicas>>.

     Assim, o problema da demarcação é mais do que uma questão de classificar teorias para se ser capaz de lhes chamar ou «científicas» ou «metafísicas». Ele dá, na verdade, acesso a alguns dos mais fundamentais problemas da teoria do conhecimento, e, assim, da filosofia.

      Mas o problema da demarcação tem também uma importância prática considerável. Defrontei-me com este problema e com a sua solução muitos anos antes de me ter começado a interessar pelo problema da indução e antes de ter percebido aquelas ligações entre o problema da indução e o problema da demarcação a que acabei de me referir. Isto foi em 1919, quando comecei a suspeitar das várias teorias psicológicas e políticas que reivindicavam o estatuto de ciências empíricas, em especial a «psicanálise» de Freud, a «psicologia individual» de Adler, e a «interpretação materialista da história», de Marx. A mim parecia--me que todas estas teorias eram defendidas de uma forma acrítica. Dispunha--se de um grande número de argumentos em favor delas. Mas a crítica e os argumentos contrários a elas eram vistos como hostis, como sintomas de uma recusa obstinada em admitir a verdade manifesta; e, por isso, eram enfrentados com hostilidade e não com argumentos.

     O que eu achava mais impressionante e mais perigoso nessas teorias era a pretensão de elas serem «verificadas» ou «confirmadas» por um fluxo incessante de provas observacionais. E, na verdade, assim que se abriram os olhos, podia-se ver por toda a parte casos que constituíam verificações dessas teorias. Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os artigos de fundo até aos anúncios, provas que constituíam verificações da luta de classes; e encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia. E um psicanalista, fosse ele freudiano ou adleriano, diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora a hora, estava a ver as suas teorias a serem verificadas por observações clínicas.

     Mas seriam essas teorias testáveis? Estariam realmente essas análises mais bem testadas do que, digamos, os horóscopos, freqüentemente «verificados» dos astrólogos? Que acontecimento, que se poderia conceber que, aos olhos dos seus aderentes, as falsificasse? Não eram todos os acontecimentos imagináveis «verificações»? Era precisamente esse fato — o fato de que essas análises batiam sempre certo, de que eram sempre verificadas — que impressionava os seus aderentes. Comecei a pensar que essa aparente força era, na verdade, uma fraqueza, e que todas essas «verificações» eram demasiadamente pouco válidas para serem tomadas por argumentos.

     O método de procurar verificações parecia-me pouco válido — parecia-me, na verdade, ser o método típico de um pseudociência. Apercebi-me da necessidade de se distinguir, tão claramente quanto possível, este método de um outro método — o método de testar uma teoria tão severamente quanto se for capaz — isto é, o método da crítica, o método de procurar casos que constituam falsificação.

     O método de procurar verificações não era apenas acrítico: promovia também uma atitude acrítica quer em quem expunha quer em quem lia. Ameaçava, assim, destruir a atitude da racionalidade, da argumentação critica.

     Freud era, de longe, o mais lúcido e o mais persuasivo dos expositores a que me estou a referir. Mas qual era o seu método de argumentar? Freud dava exemplos; analisava-os, e mostrava que eles se encaixavam na sua teoria, ou que a sua teoria podia ser descrita como sendo uma generalização dos casos analisados. Por vezes apelava aos seus leitores para que suspendessem as suas críticas, e indicava que iria responder a todas as criticas sensatas em ocasiões posteriores. Mas quando eu olhei um pouco mais de perto para uns quantos casos importantes, descobri que as respostas nunca tinham chegado. De forma assaz curiosa, porém, muitos leitores estavam satisfeitos.

     Para mostrar que isto não são simples demonstrações ou acusações vazias vou substanciá-las com algum pormenor através da análise da discussão que Freud apresenta das teses fundamentais do seu extenso livro, A Interpretação dos Sonhos, justamente considerado por ele e por outros a sua obra mais importante. Seria crítica a abordagem de Freud?