ALFABETO DA MATEMÁTICA

 

Jornal da APM (Associação Paulista de Medicina)

Suplemento Cultural - Ago/2002 - Coord. Guido A. Palomba

Irany Novah Moraes - professor de medicina

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É preciso usar método bem diferente para ensinar. Mostrem em poucas palavras os grandes objetos de uma ciência, assinalem alguns exemplos marcantes. Não se orgulhem de ensinar um grande número de coisas. Existem apenas a curiosidade. 

Contentem-se em abrir os espíritos.

 

 Anatole France (1884-1924)

 

Tenho escrito sobre a matemática, com a preocupação de enfatizar sua importância no desenvolvimento do raciocínio que cada vez mais é exigido do médico no exercício profissional.

Num rápido preâmbulo, relembro idéias exaradas no artigo publicado neste Suplemento  em agosto de 2001 p.6 LINGUAGEM DA MATEMÁTICA EM MEDICINA vou continuar minha apologia ressaltando a necessidade de dar ênfase a modernização do ensino médico para prepará-lo integralmente para este milênio.

Se tal esforço, por si, não der a diretriz necessária, certamente desencadeará reflexões de muitos que pela energia de sua iluminação irá clarear os horizontes daqueles que têm o poder de reformular o ensino e torná-lo moderno, pois sabem que: o futuro é  amanhã de manhã (Tofler).

Os procedimentos Médicos costumam ser avaliados quantitativamente levando em conta dados numéricos, para estabelecer a hierarquia de valores. Poucas vezes entretanto, os submetem a estudo estatístico para dar o grau de segurança da afirmativa. Esse fato decorre do hábito de se ensinar, quase toda medicina, tendo por base o mais freqüente. Tal fato induz parecer este, ser o "normal". Poucos se dão conta que essa idéia, em princípio, é equivocada, uma vez que se mudarmos o grupo estudado onde outros fatores de variação interferem os resultados, certamente serão diferentes.

Nossos colegas de laboratório clínico dão um bom exemplo a ser seguido; seus resultados são acompanhados dos valores de "referência" indicando explicitamente idade, sexo e técnica adotada para o exame. Assim, eles não cometem o erro de dizer "valor normal" confundindo com o mais freqüente naquele grupo. 

A realidade porém, é que, de uma forma ou de outra, não se pode prescindir da estatística. Ela é na verdade a chave da compreensão de grande parte dos ensinamentos, mas principalmente para dar o grau de segurança de se estar falando a verdade em tal afirmativa. Tal assertiva é magnitude tão grande que torna inacreditável aceitar como, até hoje, estatística não seja disciplina básica obrigatória nos cursos de graduação em medicina.

Aqui há de se prestar homenagem a Antônio Barros de Ulhôa Cintra que criou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo uma disciplina que além de ministrar a introdução à matéria aos alunos funcionava principalmente como fonte de sabedoria a prestar socorro aos que a procuravam um "planejamento estatístico" para suas teses. Esses privilegiados que a ela recorriam apresentavam sempre pesquisas com evidente cientificidade e com suficientes justificativas das técnicas utilizadas revelando satisfatório domínio da metodologia que haviam adotado.

O responsável por essa Disciplina foi durante cerca de dois lustros, uma personalidade que todos os brasileiros conhecem: médico, zoólogo, estatístico, compositor e cantor. Nesse período ele e sua equipe orientaram cerca de duas centenas de teses. Desejando relembrar alguns daqueles beneficiados pela sua orientação, procurei-o e abrindo um caderno, ato contínuo, leu seus nomes e títulos das teses. Quase todos eu conhecia e, sabia de sua projeção na vida científica, acadêmica ou profissional. Todos tiveram êxito foram pessoas que "deram certo" ! 

Em minhas reflexões veio uma questão: deram certo porque já eram bons e sentiram necessidade de aprender estatística ou como aprenderam estatística o êxito foi a conseqüência? Seja qual tenha sido a alternativa verdadeira fica evidente a importância da estatística. Depois de contar o milagre, se o leitor ainda não adivinhou o santo vou relatar algo de pitoresco que testemunhei em seu boêmio estilo de vida.

Aparecia no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e depois de um agradável bate papo na "sala dos médicos" contando suas aventuras na selva cheia de peripécias, encefalite de macacos das florestas e outras muito mais agradáveis no sertão brasileiro orientando e orientador partiam para trabalhar na tese. Terminada a tarefa, já hora avançada continuavam então na boemia da noite paulistana. Uma das madrugadas saíram para a "Ronda"...

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Das teses que sei de sua contribuição tenho a dizer que a cientificidade apresentada se deve fundamentalmente à orientação e competência do amigo de longa data Paulo Vanzolini. Tudo que foi dito serviu para relembrar os tempos de Pronto-Socorro da profícua conveniência circulando idéias de espírito elevado e para ressaltar a importância da estatística.

Sou daqueles, que acha equivocado o atual ensino da medicina. O curso ministrado, nada tem a ver com o que o aluno de hoje, médico de amanhã, vai deparar na clínica. Ele deveria estar sendo preparado para raciocinar com dados em constante evolução e mesmo com o desconhecido e para tal nada melhor, do que aprender matemática. Aliás, dizia Galileu Galilei: matemática é o alfabeto com que Deus escreveu o universo.

Entretanto alerto ao jovem médico, que o fato de usar a simples porcentagem para fazer  prognóstico deve ser feito com muita habilidade pois o paciente com medo sempre raciocina pensando no pior. O paciente costuma de início "inverter o sinal" e então passa a conjecturar com a diferença correspondente ao mau resultado, ou seja, com a probabilidade de malogro do procedimento proposto, enquanto o médico, está pensando no êxito. Para ilustrar essa assertiva, lembro que certa ocasião um de meus pacientes procurou-me pelo fato de que no período em que acompanhava sua esposa para tratamento num hospital americano "aproveitou" a oportunidade e fez uma consulta. O colega americano propôs lhe uma operação e ato contínuo, explicou-lhe que praticamente não correria risco, pois, a mortalidade daquele procedimento era de apenas um por mil. agradeceu, pagou a consulta e assim que retornou procurou-me para operar. 

Indaguei porque não o fizera lá. A resposta foi pronta: "o médico disse que apenas um em cada mil pacientes morre da operação e não me disse se ele já havia feito novecentos e noventa e nove e que então esta seria a minha vez. Para mim, seria cem por cento, pois eu não morreria só um milésimo! "

Há de se mudar e muito, a maneira de ensinar a medicina. em primeiro lugar aprimorando a relação médico-paciente; ensinando a ouvir mais seu doente e, sobretudo, saber dar valor a tudo que ele queixa, ao exame físico e ter critério rigoroso para solicitar exames complementares. Mas sobretudo incluir entre as cadeiras básicas também: matemática, estatística, lógica e bioética. Essa reforma será impossível se todo professor não se compenetrar dos preceitos de Anatole France, e mostrasse as linhas mestras da especialidade, assinalando alguns exemplo marcantes, ao invés de ensinar muita matéria. Deveriam apenas excitar a curiosidade e abrir seus espíritos. 

O programa de residência médica deveria enfatizar a postura científica e adequar o seu último ano para ser transformado em mestrado profissionalizante em medicina, despertando os pendores para a pesquisa e adotando técnicas pedagógicas e de didática, para facilitar a comunicação com os doentes e seus familiares. Estaremos realmente preparando o médico do futuro quando tudo será muito diferente pois a genética descobriu o alfabeto que Deus usou para escrever o ser humano.

Só fica faltando um ponto crucial para que o ensino médico se torne perfeito. Ensinar "bom senso"; tornando todos os médicos dotados da perfeita capacidade da razão para julgar e raciocinar com ponderação, e em cada caso com base na experiência de vida obtida no treinamento tutelado no trabalho que o preparou no programa de Residência Médica e depois no decorrer de sua própria vivência profissional. 

O médico assim formado será o propulsor para lançar a medicina no círculo virtuoso da saúde no país. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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