Centenário de nascimento de

Anibal Silveira

 

 

Jornal da APM (Associação Paulista de Medicina)

Suplemento Cultural - Ago/2002 - Coord. Guido A. Palomba

Guido A. Palomba - diretor cultural da APM

 

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Há cem anos, mais precisamente, em 17 de março de 1902, nascia em São Roque o grande Anibal Cipriano da Silveira Santos, um dos maiores mestres da Psiquiatria brasileira.  Era de Juqueri, da velha guarda, contemporâneo de Antônio Carlos Pacheco e Silva, Átila Vaz, Osório Thaumaturgo Cesar, Mario Yhan, Darcy Uchôa, Francisco Tancredi, Walter Edgard Maffei, Octavio Perez Vellasco. Foram seus admiradores e discípulos Ruy Piazza, João Godinho Leite, José Luiz Atilio Fiore, Stivanin, Walter Speltri, Ruy Benedicto, Paulo Fraletti, José Roberto Bellelli, Alex Landgraf de Carvalho, Terezinha Oliveira Silva, Dario, Luiz Barreto, Rui Camargo, Joaquim Lopes Alho Filho, Hilda Morana, Antônio José Eça, Rubens Zaclis, Alfredo Hansen Terra de Souza, Edu Machado Gomes, Garcia, Francisco Assis de Souza Lima, Odete Lanzarotti, Joacyr Salles Barros, Joy Arruda, Roberto Tomchinski, José Mandelli Júnior, Sérgio Harzov Coura, Biagio Squitino, Névio di Pietro, Collety, Sergio Traldi, Spartaco Vizoto, Isaias Melson, Vicente D'Andretta, Lucia Maria Salvia Coelho, Mario Robortella, Noemio Weniger e tantos outros que, como nós, admirávamos a sua vasta sabedoria.

Magro, baixo, óculos grossos, muito simpático, tomava o trenzinho, na Estação da Luz, para Juqueri, todas as manhãs, sempre no terceiro vagão, a contar de trás para frente. Os recém formados procuravam sentar perto do grande mestre, para beber a sua sabedoria... e as discussões acadêmicas, de tão acirradas, quase faziam com que perdêssemos a Estação Franco da Rocha, rumo ao "santuário" da Psiquiatria nacional, com seus treze mil internados!

Anibal Silveira dominava vários idiomas, entre eles o alemão, o que lhe permitiu estudar, nos originais, Karl Kleist, que era psiquiatra e neurocirurgião e montou um mapa correlacionando lesões cerebrais e psicopatologia. Anibal, estudando esse mapa, sistematizou novas correlações anatomoclínicas que, completados por outros mapeamentos glianeuronocapilares, mielocitoarquitetônicos e neurofisiológicos, resultaram na obra Silveira-Kleist, essencial para quem quer de fato estudar psiquiatria com seriedade.

Anibal aprendeu, como autodidata, Rorschach e fundou a Sociedade de Rorschach de São Paulo, de grande prestígio internacional. Era um positivista, comtiano, portanto, obrigatoriamente, um ergodinamista, aliás esse é o timbre inconfundível de todos os que foram da Escola Psiquiátrica de Juqueri, mestres e discípulos. Átila Ferreira Vaz, nosso saudosíssimo mestre, tinha por Anibal Silveira o respeito e a admiração não só pelo sábio mas também pelo homem bom que era. Dizia, e sempre repetia: "Anibal é admirável, dispensa aos pobres e aos menos afortunados a mesma dedicação que dispensa os ricos".

Quem conviveu com Anibal Silveira pôde sentir a força de sua grandeza, da complexidade de sua sabedoria, da simplicidade estóica de sua maneira de ser e da sua afeição pelos familiares, amigos, alunos e pacientes. Morreu aos 16 de agosto de 1979, de ataque cardíaco, deixando vasta obra para nós e para gerações que hão de vir.

 

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