A PSICOLOGIA NO BRASIL 

COMPLETA 40 ANOS

 

 

Revista Viver Psicologia nº 115 - agosto/2002

 

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Dia 27 de agosto comemoramos 40 anos de regulamentação da profissão de psicólogo, que pode ser considerada como relativamente nova no Brasil.

A luta pelo reconhecimento da profissão intensificou-se por volta do ano de 1959 quando o Ministério da Educação e Cultura passou a ser pressionado por grupos relacionados à área.

Para que o cadastro de psicólogo fosse obtido muitas exigências eram impostas. Era necessário, por exemplo, estar trabalhando há pelo menos 5 anos na área e em instituição publicamente reconhecida. Estas exigências eram feitas, pois, mesmo sem a regulamentação, a psicologia já era reconhecida e praticada no Brasil há décadas. Há indícios da presença desta ciência no Brasil há pelo menos um século.

Segundo Rose Campos a palavra "psychologia" surgiu primeiramente no século XVI, "usada como equivalente erudita do título de tratadas tradicionalmente denominados De Anima, significando sobre a alma". Contudo há registros de que, por volta do ano de 1530, Marcus Marulus, um humanista croata, teria usado o termo como título de sua obra.

Atualmente, o papel social do profissional da área tem sido amplamente discutido em função da diversidade de sua aplicação.

No início, a profissão não era tão abrangente como hoje e um dos setores maior aplicação era o de psicologia industrial.

"Empresas como a Estrada de Ferro Sorocabana e a Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo (CMTC), em São Paulo, foram as primeiras a formar grupos de psicólogos. O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) foi um dos primeiros a formar psicotécnicos, como eram denominados na época. E o interesse por esse campo começava a florescer principalmente entre pessoas formadas em cursos como os de filosofia e de pedagogia, que a partir de determinado momento puderam começar a optar pela área, como um foco de especialização." 1

Neste quadro, os primeiros cursos de psicologia começavam a ser estruturados. Por volta de 1940, Antônio Gomes Penna, um dos pioneiros da psicologia brasileira, formado em direito e em filosofia, passa a lecionar psicologia. Posteriormente, por volta de 1964, juntamente com Eliezer Schneider, cria o primeiro curso de psicologia do Rio de Janeiro na Faculdade Nacional de Filosofia. O interesse na área é tão evidente que, por volta dos anos 70, Gomes Penna organiza cursos de pós-graduação em psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Contudo, seu trabalho atinge o apogeu entre 1971 e 1991 quando passa a chefiar o Centro de Pós-Graduação do Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. O interesse de Gomes Penna pela psicologia estava ligado à sua preocupação com questões religiosas.

Durante a ditadura, o governo de Getúlio Vargas baniu vários docentes considerados de esquerda comprometendo a qualidade dos cursos.

Por volta de 1924, Durval Marcondes, depois de formar-se na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, torna-se o primeiro psiquiatra brasileiro a praticar clinicamente as descobertas de Sigmund Freud.

Em 1927, o próprio Marcondes funda, em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Psicanálise formada por médicos e intelectuais modernistas. O marco inicial das atividades da Sociedade é o lançamento da Revista Brasileira de Psychanalyse. Um exemplar de um dos números desta revista chegou a ser enviado a Freud que, através de uma carta incentiva a sua continuidade.

Outra personagem expressiva na história da psicologia é a médica alagoana Nise da Silveira que ingressa na Faculdade de Medicina da Bahia aos 15 anos de idade, forma-se em 1926, freqüenta no ano seguinte a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e passa a atuar como psiquiatra em 1933.  Por sua atuação política é presa e afastada do serviço público de 1936 a 1944. De volta às atividades adota postura contrária à utilização de tratamentos como o uso do choque elétrico, o coma insulínico e a lobotomia. A médica é uma das responsáveis  pela adoção de recursos artísticos no tratamento de doentes psicóticos. Como precursora das idéias de Carl Gustav Jung no Brasil, funda em 1954 o Grupo de Estudos C.G. Jung que é oficializado em 1969.

Podemos citar também Madre Cristina (1916-1977) como outra referência da psicologia nacional. Natural da cidade paulista de Jaboticabal, forma-se em Filosofia e em Pedagogia pela faculdade Sedes Sapientae, na capital, ingressando na vida religiosa e lecionando para universitários. Complementa seus estudos na Sorbone, em Paris, depois de estudar sozinha as obras de Freud. Torna-se doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e militante política contra a repressão no período negro da ditadura.

Fica claro que a história dos ícones da psicologia nacional (resgatada recentemente de forma sistêmica) e a evolução da área estão intrinsecamente ligadas à própria história nacional.

O resgate histórico de qualquer ciência é sempre importante para se entender a evolução dos processos e suas posições no contexto geral. Sendo assim, o histórico da psicologia torna-se ainda mais interessante por estar constantemente ligado às outras áreas como a medicina, a filosofia, à ética e às diversas áreas do conhecimento até mesmo com aquelas de domínio recente, como a cibernética, no que tange às pesquisas sobre inteligência artificial, por exemplo.

Sobre o papel social da profissão, notamos que a psicologia, por adotar uma postura de respeito às diferenças, mescla-se às políticas sociais.

Trata-se de uma ciência em constante relação com os fatos e com o momento histórico e que apesar da evolução da profissão também sofre as mudanças e as ações impostas por este mesmo tempo. É o caso, por exemplo, do número excessivo de novos profissionais que são colocados anualmente no mercado. Uma preocupação constante dos formadores que acreditam que este excesso pode comprometer a qualidade. Muitas pessoas freqüentam o curso mas não conseguem exercer a profissão, mas é preciso reconhecer que o curso permite uma formação humanística a ser aproveitada em qualquer outra área.

Uma outra questão é que apesar dos quase cem anos de atuação de fato, a psicologia no Brasil ainda é vista como uma ciência de elite e muito pouco preocupada com os destinos da sociedade. Contudo a própria vontade presente na base da categoria e o esforço em se construir políticas públicas tem a intenção de promover o acesso da população a este tipo de assistência sem desconsiderar o comprometimento com a ética profissional. 

Enfim, uma ciência complexa e importante, um histórico rico, profissionais notáveis, ou seja há muito para se comemorar com relação às conquistas da psicologia no Brasil. Mas o fundamental é entender que as reflexões nunca terminam, assim como a atuação profissional e a sua contribuição para a evolução da humanidade. 

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