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Revista: Diálogo Médico

Ano 15 - Nº 3 - Maio 2000
 




Bioarqueólogo da USP tem algumas certezas
 
 
 
 
 
 
Com base na análise de filigranas do DNA, cientistas juntam as peças de um enigmático quebra-cabeças
 
 
Desvendar o passado da humanidade e o próprio surgimento do mundo é um desafio que o homem vem perseguindo há milênios. Cada novo avanço tecnológico é logo utilizado nas pesquisas arqueológicas. E em tempos de clonagem e alimentos transgênicos, a genética também está contribuindo – e muito – nessa incessante busca pela origem da vida.

A mais recente descoberta aponta um novo caminho trilhado pelo Homo sapiens, da África ruma à Austrália. O trabalho, cuja autora principal é a cientista Augusta Silvana Santachiara Benerecelli, da Universidade de Pavia no norte da Itália, revela que, entre 60 mil e 70 mil anos atrás, a espécie humana chegou ao continente australiano passando pela Etiópia, península arábica e litoral da Ásia. Por falta de evidências fósseis, essa teoria não tinha ainda sido comprovada. Mas, através da análise de filigranas do DNA de populações atuais, os cientistas conseguiram juntar as peças desse enigmático quebra-cabeças.

Para o bioarqueólogo brasileiro, Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Departamento de Biologia da Universidade de São Paulo (USP), essa comprovação genética é a confirmação da teoria paleontológica proposta pela brasileira Martha Mirazón Lahr, que atualmente está na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

- A Martha é uma das pessoas que mais conhece a questão da origem e da dispersão do homem moderno. Em 1995 e 1996, ela levantou essa possibilidade de uma de uma terceira emigração da África. Hoje, nós sabemos que o homem moderno surgiu na África, por volta de 120 mil anos atrás. Houve três tentativas de ele sair do continente para colonizar o planeta. A primeira ocorreu há cerca de 100 mil anos. Mas quando ele chegou no Oriente Médio, na região que atualmente é o Estado de Israel, não conseguiu avançar provavelmente por questões climáticas. O frio devia ser muito forte – explica Neves.

 
 
A segunda tentativa de deixar a África, desta vez realizada com sucesso, foi a comprovada pelo estudo genético. De acordo com o bioarqueólogo da USP, a nova rota seguida pelo homem primitivo tinha o clima tropical, o que facilitou sua sobrevivência.

– A última saída do continente africano aconteceu há 50 mil anos, quando a espécie humana já dispunha de uma nova tecnologia, chamada de tecnologia do Paleolítico Superior, que incluiu instrumentos de ossos e de chifre, entre outras inovações. Com esses recursos, eles puderam enfrentar o frio e colonizar todo o mundo, chegando à Europa, ao Oriente Médio, à Ásia e à Eurásia – afirma.

 
 


O minucioso mapeamento dos ossos cranianos possibilita a comparação e o rastreamento da evolução humana.
 
DECIFRANDO O DNA

A equipe da cientista Augusta baseou suas pesquisas no marcador genético haplogrupo M, presente no DNA mitocondrial (mtDNA). As mitocôndrias são os órgãos celulares responsáveis pela produção de energia. São elementos importantes no estudo das linhagens populacionais. Sua vantagem está na transmissão por apenas um dos pais. Assim, os pesquisadores, os pesquisadores, a partir da hipótese da rota etíope, começaram a comparar genes de populações atuais, para tentar encontrar características únicas e compartilhadas, que permitam relacioná-las. Além disso, traçam estimativas sobre a época de mutações nesses traços genéticos e vão aos poucos reconstruindo árvores denominadas de filogenias. Sem os recursos tecnológicos atuais, certamente seria muito difícil realizar os cálculos matemáticos necessários, feitos pelos computadores. Mas se hoje temos a genética molecular, no passado, Neves lembra que os grupos sangüíneos e alguns produtos do DNA conhecidos já ajudavam a desvendar os mistérios da humanidade. – Desde a década de 50 vem-se estudando a composição genética das populações humanas. É claro que com a possibilidade de se trabalhar diretamente com o gene e não mais com um produto dele, a pesquisa se torna muito mais apurada – diz.

Quando a genética e a antropologia chegam a um consenso, os pesquisadores arqueólogos comemoram. Segundo o bioarqueólogo, o sonho de todos os antropólogos é ter uma teoria sua, baseada no estudo de fósseis humanos, confirmada geneticamente.

- Esse trabalho da Augusta publicado na revista Nature Genetics, é muito importante para todos nós. É maravilhoso termos uma hipótese feita sobre esqueletos pré-históricos corroborada pela genética das populações atuais – declara.

 
 
 
 
 
 
 
Pesquisas no Brasil

Um dos responsáveis pela descoberta do fóssil batizado de “Luzia”, com cerca de 11.500 anos de idade, na região de Lapa Vermelha, em Minas Gerais, Neves conta que no Brasil existem grupos de pesquisa no Rio Grande do sul, em Belo Horizonte e no Pará que trabalham com as composições genéticas das populações indígenas atuais, também para poder tentar entender o processo de ocupação do continente americano.

Mas diferente do que ocorreu no estudo da emigração da África, Neves destaca que suas descobertas com os esqueletos estão caminhando para um lado diferente das descobertas genéticas.

- Vale ressaltar que os conflitos entre essas duas áreas também existem. No meu caso, as pesquisas genéticas têm mostrado que a população indígena das Américas é muito homogênea, portanto deve ter tido uma única população fundadora da Ásia que veio para cá. Já as minhas pesquisas apontam o contrário. No passado, tivemos na América a presença tanto de povos asiáticos, quanto de povos biologicamente muito diferente dos asiáticos. Logo a informação esqueletal – conta.
Como e quando esse impasse vai se resolver, o pesquisador não sabe dizer, mas ele afirma que certamente as respostas estarão mais próximas quando se conseguir retirar o DNA dos esqueletos.

- Isso é possível e já foi em alguns lugares do mundo. Minha hipótese só poderá ser comprovada geneticamente quando tivermos condições tecnológicas de extrair o DNA dos esqueletos com os quais eu trabalho. Se é que sobrou DNA neles. Condições tecnológicas existem, mas ainda estão sendo testadas – finaliza.