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O QUE É CULTURA

 

Sinopse do livro "O que é cultura" 

José Luiz dos Santos

 

 


O QUE É CULTURA


 

CULTURA E DIVERSIDADE

 A preocupação com a cultura é um fato permanente da humanidade. Todos querem entender os caminhos que levaram as civilizações a se constituírem, bem como, entender, a partir daí, as perspectivas futuras de relacionamento entre elas.

Os contatos entre diferentes grupos marcaram as civilizações ao longo da história promovendo as transformações culturais tanto pelos movimentos internos quanto pelos conflitos internos.  Portanto, sempre que pensamos em cultura temos que considerar a multiplicidade e a riqueza dos seus elementos, a realidade dos grupos e ainda as características que os unem e os diferenciam. Tudo isso expressa o que sintetizamos como cultura.

A lógica interna de cada realidade cultural é traduzida nos costumes, nas formas de habitação, no vestuário, no trabalho e em tantas outras expressões.

Quando entendemos as diferenças entre os grupos como questões culturais passamos a compreendê-los de forma ampla e menos preconceituosa o que enriquece as relações humanas. As ações do grupo sempre têm um sentido quando historicamente contextualizadas.

Temos que considerar também que as diferenças culturais ficam evidentes por efetuarmos comparações entre elas. Se adotássemos outra postura, se não tomássemos por referência um modelo cultural, não perceberíamos as diferenças nem haveria motivos para tentar entendê-las.

Outra reflexão que a análise sobre a cultura nos permite é a visão de nós mesmos como seres sociais. A partir da percepção de outras culturas podemos ampliar nossa visão enquanto membros de um grupo social, as razões da realidade social onde estamos inseridos, como ela é mantida e a possibilidade de transformá-la.

Mais questões importantes relacionadas à cultura podem ser entendidas a partir da forma ou da tendência do grupo em utilizar e modificar os recursos naturais disponíveis. Assim, territórios idênticos foram ocupados por populações diferentes dando origem a culturas e civilizações com características próprias e formas particulares de organização social. Estas culturas estiveram e estão sujeitas a mudanças ou transformações históricas como reflexo da atitude do grupo social ou ainda por imposição, inclusive pela força, de culturas externas.

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Cultura e evolução

Estudos efetuados no século XIX pretendiam colocar as culturas humanas em escalas hierárquicas. Segundo estes estudos haveria escalas sucessivas de evolução social pelas quais as populações passariam, primeiramente se diferenciando de outras espécies animais até alcançar o índice de evolução conhecido na Europa Ocidental da época. Sendo assim as sociedades todas fariam parte desta escala de evolução em linha única.

Com base nesta proposta as diversas sociedades do século XIX estariam inseridas em diferentes estágios da evolução humana quando as civilizações indígenas seriam classificadas como “selvagens”, as tribos africanas como “bárbaras” e as populações européias como “civilizadas”.

Obviamente que nesta concepção de evolução hierarquizada há todo um critério europeu de visão da humanidade. Isto serviria inclusive como forma de consolidação do domínio de países capitalistas sobre os demais povos.

Esta concepção linear de evolução foi combatida com base no princípio que cada cultura tem suas características próprias e múltiplos critérios a serem considerados.

Acima de tudo, estas classificações tinham como função principal considerar os povos não-europeus como inferiores e passíveis de domínio e exploração.

Estudos contínuos permitiram derrubar os argumentos tendenciosos e preconceituosos.

“Não existe relação necessária entre características físicas de grupos humanos e suas formas culturais, nem tampouco a multiplicidade das culturas implica quebra da unidade biológica da espécie humana.”  (SANTOS, 1994, p.15)

Podemos concluir que o princípio de uma linha evolutiva única para os grupos humanos implicava em considerações racistas e preconceituosas. Concomitantemente, este “enquadramento” cultural aos padrões preestabelecidos supera questionamentos importantes sobre a história da humanidade como a possibilidade das transformações dos grupos humanos e a importância da produção material nesta história.

 

 

Cultura e relativismo

Neste processo passa-se a classificar a cultura ou o grau cultural de um grupo tendo como referência o ponto de vista do observador com critérios culturais próprios de avaliação e tornando esta visão relativa.

     “Passa-se assim da demonstração da diversidade das culturas para a constatação do relativismo cultural. Observem o quanto essa equação é enganosa. Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se se entender a inserção dessas culturas particulares na história mundial. Se insistirmos em relativizar as culturas e só vê-las de dentro para fora, teremos de nos recusar a admitir os aspectos objetivos que o desenvolvimento histórico e da relação entre povos e nações impõe. Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto, não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras. Existem no entanto processos históricos que as relacionam e estabelecem marcas verdadeiras e concretas entre elas.”  (SANTOS, 1994, p.16)

 

 

Cultura e sociedade

Estas mesmas discussões surgem quando relacionamos culturas de sociedades diferentes à cultura de uma outra sociedade em particular. Ou seja, numa macrocultura encontramos grupos menores com outras características peculiares ou outros modos de organização. São realidades culturais internas que podem ser tão diversas parecendo, às vezes, culturas estranhas. Por isso é de fundamental importância considerarmos as culturas internas de um país para compreender os aspectos culturais do mesmo como um todo.

Ao analisarmos cultura e sociedade nos deparamos com os mesmos limites da análise sob o ponto de vista relativo quando, ao invés disso, deveríamos considerar as realidades culturais em contextos históricos de cada sociedade, das suas relações sociais em si e entre elas.

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O QUE SE ENTENDE POR CULTURA


O estudo e a discussão sobre culturas humanas são processos sistemáticos. Este interesse fica ainda maior com o aumento dos contatos e dos conflitos entre povos e nações.

A preocupação com a questão cultural voltava-se tanto para as sociedades que progrediam como para aquelas que iam perdendo suas características originais ou mesmo desaparecendo em função da supremacia das grandes potências. Mas as discussões e as preocupações em si não conseguiram traduzir completamente o que se entende por cultura.

Podemos relacionar cultura ao estudo, à educação e à formação escolar. Podemos nos referir à cultura considerando as manifestações artísticas (teatro, música, pintura, escultura etc.) ou os meios de comunicação de massa (rádio, televisão e cinema).

Temos ainda as festas e cerimoniais tradicionais, as crenças, as lendas, as características do vestuário, as comidas, o idioma e tantas outras manifestações. 

Santos (1994, p.22) diz descrever cultura de modo genérico preocupando-se com tudo que caracteriza uma população humana. 

 

As duas concepções básicas de cultura

Podemos definir cultura em duas concepções básicas nas quais cada uma delas reúne um conjunto comum de preocupações.

Primeiramente há a concepção que evidencia os aspectos de uma realidade social.

 

"Assim, cultura diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação, ou então de grupos no interior de uma sociedade. Podemos assim falar na cultura francesa ou na cultura xavante. Do mesmo modo falamos na cultura camponesa ou então na cultura dos antigos astecas."  (SANTOS, 1994, p.24)

 

Com esta colocação concluímos que apesar de estarmos falando de situações sociais distintas podemos caracterizar cada uma delas como cultura. O que levamos em conta é a organização da vida social de cada grupo bem como o seu modo de administrar ou gerir os aspectos materiais.

Este primeiro conceito básico de cultura é usualmente adotado quando nos referimos às falas dos povos e de realidades sociais diferentes das nossas e com as quais temos pouco em comum.

Uma segunda definição básica pode ser aplicada quando nos referimos particularmente ao conhecimento, às idéias e crenças e às formas como são evidenciadas na vida da sociedade. Mas, ainda assim, nos referimos a uma totalidade de aspectos pertencentes a um grupo enfatizando o conhecimento e as dimensões associadas a ele.

 

"De acordo com esta segunda concepção, quando falarmos em cultura francesa poderemos estar fazendo referência à língua francesa, à sua literatura, ao conhecimento filosófico, científico e artístico produzidos na França e às instituições mais de perto associadas a eles."  (SANTOS, 1994, p. 25)

 

Santos (1994, p. 25) ainda considera, como definição desta segunda concepção de cultura, as culturas alternativas (lojas de produtos naturais, clínicas de medicina alternativa etc.), as tendências de pensar a vida e a sociedade na qual enfatizamos a natureza e a realização individual quando temas como ecologia, alimentação, o corpo, as relações pessoais e a espiritualidade são considerados como principais.

Ao considerarmos estas duas concepções é possível que cultura seja vista como uma realidade estagnada ou fechada. No entanto, ao estudá-las é que percebemos claramente os processos de transformação pelos quais as sociedades passam e entendemos assim o quão dinâmicas são as culturas humanas.

 

 

Desenvolvimento das preocupações com cultura

A diversidade dos modos de vida dos povos e nações é fator essencial quando pensamos em cultura. Reflexões sobre o assunto foram encontradas nos escritos de autores da Grécia, Roma  e da China antigas. No entanto, as preocupações com a cultura desenvolveram-se de forma sistemática a partir do século XVIII na Alemanha. Até então a preocupação com esta questão limitava-se aos pensadores empenhados na interpretação da história humana, na compreensão da particularidade dos costumes e crenças e a entender o contexto em que se desenvolviam.

Este foi o caminho para que se estabelecessem as modernas preocupações com cultura.  Contudo a palavra, de origem latina derivada do verbo colere (que significa cultivar), percorre longo caminho até adquirir esse sentido.

O sentido da palavra cultura foi ampliado pelos pensadores romanos antigos passando a se referir também ao refinamento pessoal e à educação elaborada de uma pessoa.

No século XIX com o predomínio do poder europeu sobre os demais povos as preocupações com a cultura tornaram-se ainda mais intensas e generalizadas como uma questão científica.

Neste contexto temos que considerar dois aspectos principais aos quais as preocupações com a cultura estiveram associadas. Primeiramente no século XIX a visão não religiosa do mundo e da vida humana passou a dominar. Até então a visão de mundo era disseminada a partir da ótica cristã. Essa ruptura ocorreu pela necessidade do entendimento da origem e da transformação social e das espécies de vida. Isso desencadearia o surgimento de teorias científicas sobre a evolução das espécies. Portanto, novas formas de conhecimento surgiram sistematizando as preocupações com a cultura.

Como historicamente as potências européias expandiam-se, um segundo aspecto ligado à preocupação com a cultura foi a necessidade de se conhecer  mais amplamente os povos a serem dominados.

 

"Nesse sentido, as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente. [...] 

Assim a moderna preocupação com cultura nasceu associada tanto a necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política. Ela faz parte tanto da história do desenvolvimento científico quanto da história das relações internacionais de poder. Esta é uma relação muito íntima. De fato, o próprio entendimento moderno do que seja uma nação tem muito a ver com as discussões  sobre cultura."  (SANTOS, 1994, p.31)

 

 

Cultura e nação

A Alemanha foi referência para a formalização do conceito de cultura em função da unidade política da qual era constituída. A partir disso, cultura podia ser vista segundo Santos (1994,p.32) como "expressão de uma nação que não tinha estado".

No século XX, nas Américas, de forma diferente da Alemanha dos séculos anteriores, os debates sobre cultura traduzem projetos de nação em Estados como influência da colonização européia dessas terras.

A Rússia, no século XIX, continha uma diversidade de povos e preocupava-se em estabelecer entre eles uma realidade cultural que se estendeu mesmo após a revolução comunista de 1917.

Notamos que, historicamente, a discussão sobre cultura esteve ligada à questão da nação nas unidades políticas que queriam definir o que lhes era próprio, específico, em relação às nações que dominavam tanto política quanto economicamente. Assim, no século XVIII, este fato ocorre com a Alemanha. Neste período a Inglaterra e a França eram econômica, política e  intelectualmente as nações mais poderosas da Europa. O mesmo ocorre na Rússia no século XIX e com a América Latina e os Estados Unidos antes de se tornar a potência que é hoje.

[...] "Nestes casos todos a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante no Ocidente, entendendo-se aí cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade." (SANTOS, 1994, p. 33) 

Na América Latina, inclusive no Brasil, as culturas anteriores à conquista européia foram consideradas como "mundos à parte" das culturas nacionais que se desenvolveram a partir daí.

Sua contribuição para a formação da cultura nacional só passa a ser considerada quando fornecem elementos particulares como nomes, comidas, roupas, lendas etc. Assim também são tratadas as contribuições culturais dos imigrantes de outras partes do mundo bem como dos que foram trazidos como escravos.

 

"Assim, é comum que na América latina as discussões sobre cultura se refiram a uma história de contribuições culturais de múltipla origem, as quais têm por pólo de integração os processos que são dominantes no mundo ocidental no que concerne à produção econômica, à organização da sociedade, à estrutura da família, ao direito e às idéias, concepções e modos de conhecimentos. É preciso cautela com essa tendência a entender países como o nosso como uma mistura de traços culturais. [...] o importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz, as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade." (SANTOS, 1994,p.34)

 

 

Preocupações da cultura

Outras preocupações estão implícitas quando se discute cultura. Por exemplo, quando nos referimos à cultura como sendo oposição à selvageria então estamos concebendo cultura como marca da civilização.

Durante os séculos XVIII e XIX as discussões sobre cultura tentavam distinguir aspectos materiais dos não-materiais ou entre matéria e espírito de uma sociedade.

Os conceitos de cultura e civilização passaram a ser  quase sinônimos com o decorrer do tempo.

 

"É importante ainda lembrar que essas discussões sobre cultura firmaram-se no mesmo período em que outras abordagens se preocupavam em estudar criticamente as características internas da sociedade capitalista, em estudar as condições para a sua superação e contribuir para as lutas operárias. Estudava-se assim a natureza das classes sociais e sua dinâmica, a expansão do capitalismo e seus fundamentos. Os dois planos de estudo, o da cultura e o da sociedade de classes, andam muitas vezes separados, mas nada impede que os pensemos conjuntamente." (SANTOS, 1994, p. 37)

 

 

Relações entre as duas concepções básicas de cultura

De forma geral, duas concepções básicas orientam há tempos as discussões sobre cultura:

  • uma trata da totalidade das características de uma realidade social (preocupação sedimentada  na concepção de cultura e ciência do século XIX);

  • outra diz respeito ao conhecimento que a sociedade - povo, nação, grupo - tem da realidade e a maneira como o expressam (preocupação mais antiga herdada da relação de cultura com erudição e refinamento pessoal).

Quando relacionamos estes dois conceitos básicos encontramos a origem da maneira de entender cultura.

Para definirmos cultura considerando todos os aspectos de um povo (nação, sociedade) ampliaremos este conceito de forma pouco operacional. Mesmo assim, isto pode ser válido quando comparamos sociedades muito distintas que resultaram de processos históricos bem diferentes. Contudo, conforme Santos (1994,p.38) o encontro entre sociedades assim torna-se cada vez mais raro. Com a interação entre os povos é comum que estes partilhem características comuns fundamentais.  Analisar culturas de forma isolada deixa de ser viável pois não reflete a realidade comum.

 

[...] Assim, por exemplo, por mais diferenças que possam existir entre países como o Brasil, o Peru, Quênia e Indonésia, todos eles partilham processos históricos comuns e contêm importantes semelhanças em sua existência social, buscam desenvolver suas economias dependentes, superar desigualdades sociais internas e atingir padrões internacionais de qualidade de vida. É uma situação bem diferente, vejam bem, dos contatos iniciais da sociedade inglesa com sociedades nativas da Oceania ou com reinos da África, ou da sociedade brasileira com sociedades indígenas da Amazônia." (SANTOS, 1994, p.40)

 

Podemos dizer também que cultura está associada a outras preocupações do estudo da sociedade como relações de poder e a organização social. Sendo assim, novamente nos deparamos com as duas concepções básicas de cultura.

[...] ao falarmos de cultura, nos referimos principalmente á dimensão de conhecimento de uma sociedade, mas sempre temos em mente a sociedade como um todo. (SANTOS, 1994, p. 44)

 

 

ENTÃO O QUE É CULTURA

Não é possível considerar cultura como um fato isolado, independente do contexto histórico  de uma sociedade.

"Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica  não apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular, produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da desigualdade." (SANTOS, 1994, p.45)

 

Atualmente, as preocupações com cultura relacionam-se à civilização ocidental. As sociedades de classe preocupam-se muito mais com as discussões sobre cultura do que as sociedades tribais. A ciência vê o mundo com os olhos da civilização procurando compreender  sua dinâmica e seu destino.

Cultura pode ter um mesmo significado de forma genérica, quando falamos da dimensão do processo social. No entanto, têm diferentes significados quando falamos de cultura numa sociedade indígena brasileira e numa sociedade primitiva, pois cada  uma delas possui características absolutamente próprias, mesmo que estejam em constante processo de mudança ou sofram influência das outras sociedades.

 

" [...] cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica, criadora, ela mesma em processo, uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas." (SANTOS, 1994, p. 50)

 

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A CULTURA EM NOSSA SOCIEDADE


A diversificação interna é uma das características das sociedades contemporâneas. Isso ocorre basicamente pela posição de cada um no processo de produção  ou seja, alguns são proprietários de empresas, outros são funcionários e assim por diante. Estas posições originam as classes sociais e cada uma destas classes tem suas características, sua forma de viver, seus problemas, sua dinâmica e suas diferenças no processo todo. Mas ainda dentro de uma classe social encontramos diferenciações mais complexas como por exemplo entre trabalhadores  rurais, operários de indústrias e comerciários. São diferentes estilos de vida, de renda, de acesso a escolas, hospitais, centros de lazer, etc. Isso nos permite refletir sobre como a dimensão cultural em nossa sociedade pode ser tratada..

 

"A nossa questão é discutir o que tem tudo isso a ver com cultura. Será que cultura se resume em expressar esses pequenos mundos? Notem que logo se poderia querer falar, a partir do exposto acima, na cultura dos jovens, dos católicos, dos bancários, das mulheres de classe média. Ou quem sabe dos jovens bancários católicos, ou das mulheres de classe média na região sul na década de 1960. Algumas preocupações são, contudo, mais freqüentes do que outras e vamos centrar atenção nelas. Assim, ao estudarmos cultura no Brasil, podemos nos preocupar em saber  o que seria a cultura nacional, ou qual seria a importância dos meios de comunicação de massa na vida do país, ou indagarmos sobre cultura das classes sociais ou sobre a cultura popular." (SANTOS, 1994, p. 53)

 

Popular x Erudito

No final da Idade Média, nos Estados nacionais em formação na Europa, com base no "refinamento pessoal", cultura passou a descrever as formas de conhecimento dominantes. Assim a cultura era medida pelo conhecimento erudito ao qual somente as classes dominantes tinham acesso. Em contrapartida a maior parte da população partilhava de um conhecimento que se supunha inferior, atrasado, superado e que gradativamente passou a ser considerado como uma forma de  cultura: a cultura popular.

 

"As preocupações com cultura popular são tentativas de classificar as formas de pensamento e ação das populações   mais pobres de uma sociedade, buscando o que há de específico nelas, procurando entender a sua lógica interna, sua dinâmica e, principalmente, as implicações políticas que possam ter."  (SANTOS, 1994, p.54)

 

Ainda hoje a cultura popular é avaliada com relação à cultura erudita e esta relacionada às classes dominantes.

A polarização entre o popular e o erudito transfere para a dimensão cultural o que de fato seria a luta entre classes sociais.

 

Há sempre uma preocupação de localizar marcas políticas quando se opera esse tipo de polarização entre as duas concepções de cultura. Nesse sentido, o que se busca na cultura popular é seu caráter de resistência à dominação, ou seu caráter revolucionário em relação a esta. (SANTOS, 1994, P.56)

 

Mas cultura popular pode ainda ser vista como um universo de saber, independente de formas externas. Ou seja cultura popular pode ser a expressão de um grupo social por si mesmo, como manifestação  do seu conhecimento e de seus valores e não simplesmente como oposição a um referencial proporcionado pela cultura erudita.

 

 

O popular na cultura

Quando desconsideramos as posições polarizadas ainda podemos indagar: o que é popular na cultura? Seriam os cultos afro-brasileiros? O carnaval? O futebol? E os sistemas educativo, de saúde e judiciário são parte da cultura popular?

As questões citadas estão relacionadas a nossa vida social e tem diferentes origens históricas. Assim, há um contraste entre o sistema educativo, hospitalar e jurídico que são oriundos da Europa enquanto outras manifestações  como o carnaval ou cultos afro-brasileiros podem ser vistos exclusivamente como populares.

Mas e o futebol, oriundo da Inglaterra, pode não ser considerado popular? Com relação a isto Santos (1994,p.61) afirma: [...] "Se a origem do que existe na cultura fosse tão determinante, o futebol de origem inglesa e introduzido no Brasil por setores de elite no começo deste século não teria jamais conseguido a generalização que tem."

 

"Da mesma forma, as instituições dominantes de origem européia, como as citadas anteriormente transformaram-se com o processo de transformação do país, tornando-se um legado de toda a população. E se a educação, a saúde, a justiça não atendem aos interesses de toda a população, isso não se deve à sua origem, mas às desigualdades sociais que marcam a nossa sociedade."  (SANTOS, 1994, p. 62-62)

 

Enfatizar o modo de sentir característico de uma população, que seja seu patrimônio, é falar de cultura. Mas falar de cultura de classe pode enfatizar as relações das classes entre si entendendo a desigualdade social e o funcionamento do exercício do poder.

 

"[...] O que se pode fazer ao falar em cultura de uma classe social é procurar  localizar os núcleos mais importantes de sua existência social, as relações que definem essa existência, procurando a expressão cultural deles. Mas essa é sempre uma preocupação limitada. A questão é entender a dimensão cultural da sociedade de classes como um todo, pois só assim se poderá esclarecer os significados das várias particularizações de cultura." (SANTOS, 1994,p.65)

 

De qualquer forma a cultura tem sua dinâmica própria, é criativa e mantêm relações fundamentais com outras dimensões da sociedade. O fundamental é saber como as particularidades da sociedade podem ser percebidas no plano cultural.

  

 

A comunicação de massa

As sociedades de massa constituem as modernas sociedades industrializadas sobre as quais as instituições dominantes provêm e criam as necessidades dos participantes anônimos que formam as multidões. Essas instituições desenvolvem um processo de funcionamento para controlar essas massas humanas levando-as a produzir, consumir e aceitar o seu destino.

Uma sociedade com estas características exige mecanismos culturais adequados para transmitir mensagens com rapidez e para o maior número de pessoas. Isso faz com que as massas sejam cada vez mais homogêneas em sua visão de mundo e sendo assim mais facilmente manipuladas.

Os instrumentos mais utilizados seriam o rádio, a televisão, a imprensa e o cinema.

Chamamos de "indústria cultural" este setor específico que tem como finalidade homogeneizar e nivelar a cultura das massas.

Essa indústria cultural é uma característica da civilização mundial atual. Age constantemente e influencia as populações, de um modo geral, em seu comportamento, em seu estilo de vida, modos de organizar a sua rotina, de se vestir, de falar, de escrever, de sentir e de pensar. Contudo, por mais eficazes que sejam, não produzem uma massificação tão intensa a ponto de paralisar totalmente a percepção de seus consumidores e as relações sociais de suas vidas. Apesar do poder que os meios de comunicação possuem  as sociedades, internamente,  conservam as suas diferenças mas certamente que esta cultura está voltada para as massas é um elemento  importante quando nos referimos a cultura na sociedade moderna. A influência desta cultura traz conseqüências bastante evidentes na maneira de ver o mundo das várias camadas da população.

Mas é preciso que fique claro que a indústria cultural e seus processos de homogeneização e controle das massas são projetos de interesses dominantes de parte da sociedade contudo, não representam a cultura dessa sociedade.

 

 

CulturA NaCIONAL

O conceito de cultura e nação estão relacionados há tempos.

"[...] cultura é um conteúdo do que se entende por nação; a maneira como as nações modernas são concebidas é indissociável de preocupações com suas características culturais." (SANTOS, 1994,p.72)

Contudo, a relação entre esses dois conceitos é ainda mais ampla. Ambas têm servido como palco dos confrontos entre as classes sociais e seus interesses. Também são referências para se compreender as  tendências para a formação de uma civilização mundial.

 

"Como as nações são unidades políticas da história contemporânea e como temos entendido aqui a cultura como uma dimensão do processo social, podemos tranqüilamente pensar em cultura nacional. Ela é assim resultado e aspecto de um processo histórico particular; o modo como se dá o processo histórico garante que a cultura nacional assim descrita não seja uma invenção. É uma realidade histórica, resultado de processos seculares de trabalho e produção, de lutas sociais, conseqüência das formas como a nação se produziu. A cultura nacional é, portanto, mais do que a língua, os costumes, as tradições de um povo, os quais de resto são também dinâmicos, também sofrem alterações constantes.

Pode-se, assim, entender a cultura nacional como a cultura comum de uma sociedade nacional, uma dimensão  dinâmica e viva, importante nos processos internos dessa sociedade, importante para entender as relações internacionais." (SANTOS, 1994,p.72-63)

 

E o que pode ser considerado como parte da cultura nacional?

 Acreditamos que toda a dimensão do processo social faz parte da cultura comum, mas na prática notamos que não é bem assim.

Consideremos a cultura brasileira, sobre a qual Santos (1994, p. 73,74) descreve:

"É hoje em dia comum que ao se falar em cultura brasileira se faça referência a certos  comportamentos, os quais sempre dizem respeito a situações envolvendo desigualdade social ou política. Supostamente os brasileiros driblam as regras e exigências dos poderosos dando um jeitinho, e alguém poderia concluir que por serem capazes de burlar as relações de poder não estão muito preocupados em modificá-las. Essa visão de brasilidade descreve assim uma realidade estática, desigual, mas que tem mecanismos próprios de equilíbrio. Há ainda toda uma tradição de falar no espírito conciliatório do brasileiro, e  isso sugere  que é sempre possível acomodar os interesses mais díspares e contraditórios. Notem que para todas essas definições de brasilidade se pode  encontrar exemplos. Mas não há por que obscurecer o fato de que as práticas conciliatórias não querem dizer conversas entre pares, mas implicam sim o reconhecimento de uma ordem de poder, de uma hierarquia entre eles. É uma aceitação de que tanto as posições nessa ordem quanto a própria ordem não estão, ao menos provisoriamente, sujeitas a transformação."

Os exemplos citados podem  carregar implicitamente uma visão conservadora da sociedade, ignorando as lutas sociais em busca da melhoria da qualidade de vida para a população.

Ainda no Brasil, em outras épocas atribuíam-se valores diferentes aos  grupos humanos que formavam nossa população. Disputava-se de certa forma a importância do europeu, indígena ou do africano na formação da cultura brasileira. Sob este aspecto houve uma grande tendência em se considerar minimamente a importância das raças africanas,durante séculos, apesar da sua grande população. Temos novamente o predomínio de uma visão elitista.

 

A discussão para saber qual o conteúdo de uma cultura nacional implica no atendimento que se tem sobre sua trajetória. Além disso a maneira como se vê a sociedade define a importância que se dá a diferentes aspectos da dimensão cultural.

É bom ressaltar que cultura comum não é um conjunto delimitado de características pois essa delimitação é um aspecto de movimentos contemporâneos. Mas não se pode pensar que a história da sociedade não seja um aspecto importante para entender a cultura. Somente a história de uma sociedade pode explicar sua formação, suas influências, a relação  dos núcleos sociais e seu desenvolvimento.

A discussão de cultura sempre remete ao processo, à experiência histórica. Não há sentido em ver a cultura como um sistema fechado. Isso não quer dizer que não possamos estudá-la. Podemos, por exemplo, indagar quais os processos próprios dessa dimensão cultural, como cada uma de suas áreas e manifestações se desenvolve, tem sua dinâmica; quais as instituições a ela ligadas mais de perto, as concepções nela presentes, as mensagens políticas que contêm. Podemos indagar sobre as tendências dessa dimensão cultural e discutir as propostas para seu desenvolvimento ou transformação.

A cultura em nossa sociedade  não é imune às relações de dominação que a caracterizam. Mas é ingênuo pensar que, se a cultura comum é usada para fortalecer os interesses das classes dominantes, ela deve ser por isso jogada fora. O que interessa é que a sociedade se democratize, e que a opressão política, econômica e cultural seja eliminada. A cultura é um aspecto de nossa realidade e sua transformação, ao mesmo tempo a expressa e a modifica. (SANTOS, 1994,p.79)

 

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CULTURA E RELAÇÕES DE PODER


 

Cultura também pode ser vista como um meio para compreender as sociedades contemporâneas. Dentro desta discussão sobre cultura não podemos ignorar as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre elas. Portanto cultura e poder são conceitos intrinsecamente relacionados. Sobre isso, Santos (1994, p. 80) afirma: "[...] a cultura é um produto da história coletiva por cuja transformação e por cujos benefícios as forças sociais se defrontam."

 

Saber e poder

Por que relacionar cultura e poder?

É bom ressaltar que tanto uma quanto o outro se consolidaram com o processo de formação de nações quando sempre havia uma classe social dominante.

 

"As preocupações com cultura surgiram assim associadas tanto ao progresso da sociedade e do conhecimento quanto a novas formas de dominação. Notem que o conhecimento não é só o conteúdo básico das concepções da cultura; as próprias preocupações com cultura são instrumentos de conhecimento, respondem  a necessidades de conhecimento da sociedade,as quais se desenvolveram claramente associadas com relações de poder." (SANTOS,1994,p.81,82)

 

Atualmente a preocupação com a cultura é tão evidente que além de defini-la e entendê-la, há instituições públicas voltadas a essa questão. Portanto essa preocupação com cultura faz parte da organização da própria sociedade.

 

"É uma característica dos movimentos sociais contemporâneos a exigência de que esse setor da vida social seja expandido e democratizado. Isso é particularmente importante quando se considera as mazelas culturais de um povo como o nosso, como, por exemplo, o analfabetismo, o controle do conhecimento e seus benefícios por uma pequena elite, a pobreza do serviço público de educação e de formação intelectual das novas gerações." (SANTOS,1994,P.82)

 

Concluímos portanto que as questões culturais estão próximas das relações de poder.  Cultura freqüentemente é associada a poder e como instrumento utilizado como forma de dominação.

 

Cultura e equívoco

Por tudo que já foi colocado, considerando que uma das muitas formas de se  entender cultura está associada às relações desta com o poder, verificamos como os interesses que dominam uma sociedade podem ser beneficiados por formas equivocadas de se tratar da cultura.

O relativismo, por exemplo, pode mascarar aspectos fundamentais das sociedades e da relação entre os povos quando consideramos o que ocorre numa cultura está somente relacionado a ela sem levar em conta o contexto histórico. Desta forma, todas as  demais ocorrências como opressão e sofrimento serão  analisados como relativos.

Pode-se também ver cultura como realidade estanque capaz de explicar o comportamento da sociedade como algo pronto, acabado, imutável, aceitando e justificando as relações de poder e submissão.

Outro equívoco é limitar a discussão sobre cultura considerando as polarizações como a oposição entre erudito e popular ou mesmo a onipotência dos interesses dominantes.

 

"É importante insistir no entanto em que o equívoco está na maneira de tratar a cultura, e nem sempre nos temas e preocupações que essas maneiras revelam. Assim, podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas, a compreensão de que suas características não são absolutas, não respondem a exigências naturais, mas sim que são históricas e sujeitas a transformação. Da mesma maneira  vimos que as preocupações com a cultura popular podem ser resgatadas se evitarmos a polarização  com o erudito e ressaltarmos as relações entre as classes sociais, e que os meios de comunicação de massa e as instituições públicas de cultura são elementos importantes da cultura contemporânea. Quanto à cultura nacional, não há por que deixar que dela se apropriem as forças conservadoras da sociedade. (SANTOS, 1994, p.84)

 

Cultura e mudança social

Apesar da cultura ser uma produção de cunho coletivo, seu controle e seus benefícios, nas sociedades de classes, não pertencem a todos. Este fato ocorre por que as relações entre os membros são marcadas por desigualdades expressivas de modo que as manifestações culturais, da sociedade como um todo, são direcionadas de maneira a beneficiar os interesses daqueles que dominam o processo social. Isso acontece tanto no interior das sociedades como na relação entre elas e evidencia a desigualdade no aspecto cultural.

Se por um lado há interesse de algumas potências em tornar a cultura de suas sociedades soberana sobre as demais, como parte de um processo de domínio, por outro lado a luta contra essa "universalização cultural" é forma de resistência contra estas relações por sociedades cada vez mais interligadas por processos histórico vivenciados por todos.

De qualquer modo, considerando todas as teses e antíteses sobre o tema, é imprescindível não esquecer que, como cita Santos (1994,p.86): "[...] num sentido mais amplo e também mais fundamental, cultura é o legado  comum de toda a humanidade."

 

 


 

Referência Bibliográfica

 

Santos, José Luiz dos.  O que é cultura, 14ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994