OBJETOS DE AMOR



Revista Mente & Cérebro
ed. 169 - Fevereiro 2007



          Animais de estimação — sejam eles cães, gatos, iguanas, aves, roedores, peixes, serpentes — têm ocupado espaços cada vez mais privilegiados como integrantes das famílias contemporâneas. Muitas pessoas se desvelam por seus mascotes com muito mais empenho que por qualquer membro da própria espécie. Segundo etólogos, os bichos reconhecem esse empenho — e assumem seu lugar como parte do grupo. Mas o que faz com que alguém opte por trazer um animal para conviver sob o mesmo teto, prover seu sustento, a manutenção de sua saúde, retirar fezes espalhadas pelo quintal ou pela casa e, ainda, ter os móveis e cantos da casa marcados por urina, unhas ou dentinhos afiados do novo morador? Certamente há compensações emocionais e psíquicas para esses contratempos.

          O self do homem contemporâneo, bem distinto do de caçadores-coletores remanescentes — como os aborígenes australianos e alguns índios da Amazônia —, estruturou-se pela interação com o meio. A existência dos objetos reais do mundo é percebida por nós de maneira única, variando conforme o estágio da nossa subjetivação. Em relação aos animais não poderia ser diferente. É comum que principalmente gatos e cães vivam próximo das pessoas, muitas vezes dentro de casa. Crianças os encontram disponíveis e fazem “uso psíquico” deles, conferindo-lhes uma função muito próxima daquela ocupada pelo objeto transicional — um aliado que as ajuda a superar a ansiedade provocada pela idéia de separação da mãe. Sua presença está tão incorporada à herança cultural humana que entre as primeiras palavras pronunciadas por um bebê estão os vocábulos onomatopaicos que fazem referência direta aos sons feitos por eles: “au-au”, “miau”, “pocotó”.


          RAZÕES HISTÓRICAS

          Herdamos de nossos antepassados a proximidade afetiva com os bichos. Hoje, entretanto, lançamos sobre os animais novas solicitações, reclamando uma coadjuvação mais complexa, atribuindo sentidos aos seus comportamentos, tal qual a mãe faz com o bebê — não raro, o dono “conhece” os diferentes latidos de seu cão ou a expressão corporal do seu gato. Sem perceber, as pessoas optam por estabelecer relações estreitas com seres tão diversos como maneira de aliviar angústias. Por conseguinte, surge o animal contemporâneo, tão diferente de seus ancestrais: mais que como companhia eles funcionam como provedores de afeto, ajudando a resgatar ou estimular aspectos lúdicos e cognitivos.

          O fenômeno contemporâneo da proximidade entre homens e animais está vinculado a uma seqüência de significações que vem se configurando ao longo da evolução humana. Afinal, objetos reais componentes de nosso mundo têm sentidos alterados sempre que ocorrem transformações e conquistas psíquicas. Também ocorre esse processo na relação entre pessoas e animais. O lugar ocupado por eles no universo os papéis e os significados atribuídos a eles se transformaram em decorrência das mudanças do processo de subjetivação — as formas como vemos e sentimos o mundo, o que pensamos e desejamos com base no que vivemos e como nos apropriamos dessas experiências.

          Por meio da observação de povos contemporâneos que se dedicam atividades de caça e coleta, podemos aferir que seres humanos, antes advento da agricultura, viviam cercados por pequenos animais, especialmente para entretenimento. Para expIanar parcialmente o mistério dessa relação recorremos à etologia. Os autores P. Bernard e A. Demaret fazem referências às motivações individuais, bem como a razões próprias da espécie humana, comuns a todos, para que se mantenha um animal de estimação junto de si. Uma das motivações comuns a cada ser humano, transmitida pelo processo filogenético (referente à evolução espécie) está vinculada ao nosso passado tribal: o comportamento do homem contemporâneo guarda traços herdados dos caçadores-coletores

          É possível destacar, por exemplo a inclinação humana para alimenta outro, a disposição para compartilhar e buscar companhia — traços presentes em crianças pequenas das mais diversas culturas. Outra característica é a necessidade de contato físico direto. Os primatas nos legaram a tendência de cuidar da aparência e acariciar os membros do grupo - evidente no comportamento do limpar-se mutuamente e retirar piolhos. Embora o contato físico entre pessoas nem sempre seja bem-aceito socialmente e muitas vezes amarras psíquicas tornem difícil buscá-lo, o animal doméstico costuma oferecer-se ao afago.

          Para o cachorro, o grupo humano ao qual pertence se toma sua matilha, ali ele identifica um líder. A parceria formada desde muito cedo entre cães e humanos provavelmente tem sido favorecida essa predisposição comum para num “ambiente tribal”.

          Por meio da observação de outras sociedades de caçadores-coletores reconstituições sugeridas por antropólogos, é possível estudar dois aspectos vida tribal relevantes para compreender as relações entre homens e animais: a importância dada às crianças e os traços específicos da psicologia tribal.

          Quanto ao primeiro fator, inúmeros autores consideram que a seleção natural provavelmente privilegiou nas mulheres aspectos psicofisiológicos que as motivassem a alimentar cada filho durante seus primeiros três ou quatro anos. Isso nos faz compreender de onde vem nossa atual tendência a cuidar dos pequenos. Nos dias atuais, em que o número de filhos tem diminuído consideravelmente, e tantas pessoas vivem sós, especialmente nos grandes centros, animais de estimação, particularmente os cachorros, podem servir como substitutos das crianças. Já os gatos são considerados substitutos para uma companhia tribal no “acampamento”: são autônomos, asseados e em geral exigem pouca atenção.


          INVEJA E IDENTIDADE

          Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade privilegia valores como beleza, higiene e organização. Apesar de considerada fundamental para a civilização pela óptica do positivismo, a ordem em excesso contribui para o mal-estar, implica a falta de liberdade, especialmente no que diz respeito à busca do prazer. Para o autor, a autonomia conquistada não fez com que a espécie humana abandonasse os ideais valorizados pela modernidade. Segundo ele, em nossos tempos, mais que nunca, o ser humano os persegue.

          Comparando a modernidade — época em que a atitude de busca do prazer era considerada como autodestrutiva — com o período contemporâneo, denominado por Bauman pós-modernidade, o sociólogo sublinha que o mal-estar do homem moderno derivava do sacrifício de sua liberdade, situação tolerada uma vez que era a maneira de sentir-se de certa forma seguro. Já para o homem pós-moderno o desconforto psíquico decorre de sua tênue segurança, tolerada graças à liberdade de procura de prazer.

          Pensemos então no homem contemporâneo, que sobrevive em sociedades onde as relações são marcadas por efemeridade, incerteza, instabilidade e insegurança. Os bens são descartáveis e é propagada a idéia de que tudo pode ser substituído. Imaginemos que esse homem se defronte com um cão que dorme tranqüilamente, para quem não existem preocupações acerca da sua sobrevivência, realização de sonhos e a manutenção de papel na sociedade, ou com um gato, para quem o alimento “cai do céu” — basta espreitar um passarinho incauto e sua refeição está garantida. E, ainda que por alguns segundos, é muito provável que a pessoa, tomada pelas demandas internas e externas, considere quão tranqüila deve ser a vida do bicho — com urna pontinha de inveja da aparente segurança e da liberdade com que o animal vive seus instintos sexuais.




          De fato, bichos parecem seguros quanto a própria “identidade” e não se preocupam com o julgamento de seus pares. Já o homem preocupa-se com seu lugar na sociedade, atravessado por desejos que nem sempre compreende, precisa “agregar valores” a si mesmo e a quem representa ou acredita ser. Conforme salienta o psicólogo Erich Fromm, na sociedade contemporânea é dado enorme valor ao verbo ter: status, bens, qualificações, competências, opiniões etc. Com o advento da tecnologia, a cultura é invadida e revestida pela idéia de obsoleto, mesmo em relação a seres humanos, muitas vezes vistos como peças num sistema que precisa produzir para que em seguida se consuma o produto.

          O mal-estar experimentado pelo homem deriva de um existir sem segurança, segundo Bauman. É justamente esse olhar que nos ajuda a compreender, do ponto de vista psicanalítico, os motivos pelos quais tantas pessoas estabelecem relações afetivas tão intensas com seus animais. O psicanalista inglês Donald Winnicott apresenta em sua obra o conceito de espaço potencial, com base na constatação de que o existir abarca não somente nossa conduta na realidade externa ou uma experiência interna, esta experimentada como algo íntimo, próprio somente do indivíduo - mas abrange também uma área intermediária entre a realidade externa e a interna. Winnicott questiona: onde estamos durante os momentos em que nos divertimos? Envolvidos numa atividade cultural ou mesmo numa brincadeira, não parecemos totalmente voltados para o exterior, nem tão imersos no nosso mundo interno.

          A capacidade criativa do adulto também está presente no “gesto criador do bebê que estende a mão para a boca da mãe, tateia-lhe os dentes e, simultaneamente, fita-lhe os olhos, vendo-a criativamente”. Esse lugar psíquico intermediário, onde nos refugiamos quando brincamos, é chamado pelo autor de espaço potencial. Segundo o psicanalista, é primordialmente por meio da apercepção criativa que o indivíduo desfruta do prazer de estar vivo. E isso se torna possível durante atividades lúdicas. O ambiente cultural pode tanto favorecer quanto dificultar o desenvolvimento dessa potencialidade. É no brincar, especificamente nos espaços potenciais, que o ser humano encontra um refúgio da realidade, da ansiedade e da insegurança.

          Nos nossos dias, é comum que muitas pessoas, ameaçadas pelo entorpecimento e conseqüente apagamento da subjetividade, recorram ao convívio com animais como forma de resgatar aspectos lúdicos - e sobreviver meio aos conflitos. Nessas relações, é possível desenvolver um espaço potencial, onde o self verdadeiro possa emergir de forma espontânea durante o brincar.

          Para o autor, a experiência criativa relaciona-se à qualidade viva de alguns animais, bem como à de seres humanos, embora a experiência não seja vivida da mesma maneira pelos dois. É inegável que o cão participa criativamente do jogo com seu dono, quando, por exemplo, pega sua bolinha e a morde insistentemente, fitando seu dono num gesto que o convida a brincar.





          MAIS QUE UM URSINHO







          Para falar das relações objetais – a diferenciação entre o eu e o outro, o mundo interno e externo - Winnicott se refere à gênese dos espaços potenciais, conceito básico de sua teoria. O autor introduz a idéia de fenômeno transicional que pode ser ocupado por gestos – como sugar os punhos dedos ou a ponta do cobertor – e pela escolha de objetos denominados na obra winnicottiana objetos transicionais – como bichinhos de pelúcia, bonecas, cobertores ou até os próprios dedos. O investimento afetivo no objeto permite a passagem psíquica entre o mundo imaginário e a realidade. O fenômeno transicional representa um modelo evolutivo estruturante, que propicia a vivência da primeira relação simbólica a criança, que experimentava nos primeiros meses um estado de fusão com a mãe, vive com o objeto transicional “a primeira posse não-eu”.

          Ao falar de “eu” e “não-eu” o psicanalista inglês se refere à área intermediária entre a subjetividade e a percepção objetiva.Para ele, o objeto transicional se configura como um símbolo da união do bebê e da mãe (vista de forma total ou parcial) e, na mente da criança se localiza no espaço e no tempo – na fase em que, na ilusão infantil, os dois estavam fundidos numa relação simbiótica.

          Nos casos em que parece impossível separar-se do ursinho querido – ou do paninho de dormir – subjaz o temor muito intenso da separação da figura materna. O apego ao objeto pode revelar a negação dessa ameaça, muitas vezes inconsciente. O “relacionamento” entre a criança e o objeto transicional tem características peculiares: o pequeno proprietário assume seus direitos sobre o objeto, e este, por sua vez, deve sobreviver ao amor e ao ódio infantil (em diversas ocasiões, o efeito é acariciado e, em outras, mutilado); é importante que tenha textura e temperatura agradáveis ao bebê. Muitas crianças fazem questão de mantê-lo junto de si – principalmente nos momentos de tristeza ou insegurança - recorrem a eles na hora de dormir, incluindo-os num ritual para aplacar a ansiedade de enfrentar a experiência solitária de adormecer. Durante o sono, quando há suspensão da consciência e os sentidos estão como que desativados, a criança não tem certeza de que mãe continuará próxima quando fechar os olhos – ou que reencontrará no dia seguindo. O brinquedo macio, entretanto, está ao alcance das mãos: pode ser abraçado e acariciado.

          Winnicott lembra que, mesmo passados os primeiros anos, meninos e meninas podem voltar a ter a necessidade de buscar objetos transicionais em situações nas quais se sentirem ameaçados. O esperado, porém, é que o objeto transicional seja gradualmente descatexizado, isto é, deixe de receber o investimento emocional que a criança lhe destina. Como o espaço transicional se amplia à medida que a criança cresce, a tendência é que se desenvolva em relação a outros relacionamentos, à arte e às experiências culturais.