Transtornos Alimentares na 1ª. Infância

     DSM.IV

SM.IV

Características Diagnósticas
          Os Transtornos de Alimentação da Primeira Infância caracterizam-se por perturbações persistentes no comportamento alimentar. Os transtornos específicos incluídos são:

PICA

TRANSTORNO DE RUMINAÇÃO

TRANSTORNO DE ALIMENTAÇÃO DA 1a. INFÂNCIA

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* Observe que Anorexia Nervosa e Bulimia Nervosa estão incluídas na seção "Transtornos Alimentares".

F98.3 - 307.52 - PICA

     DSM.IV

Características Diagnósticas
          A característica essencial da Pica é o consumo persistente de substâncias não nutritivas por um período de pelo menos 1 mês (Critério A). A substância típica ingerida tende a variar com a idade. Bebês e crianças mais jovens tipicamente comem tinta, reboco, cordões, cabelos ou tecidos. Crianças mais velhas podem comer fezes de animais, areia, insetos, folhas ou pedregulhos. Adolescentes e adultos podem consumir argila ou terra. Não existe aversão à comida. Este comportamento deve ser inapropriado em termos evolutivos (Critério B) e não deve fazer parte de uma prática culturalmente sancionada (Critério C). O consumo de substâncias não nutritivas é uma característica associada de outros transtornos mentais (por ex., Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Retardo Mental). Se o comportamento alimentar ocorre exclusivamente durante o curso de um outro transtorno mental, um diagnóstico separado de Pica deve ser feito apenas se o comportamento alimentar for suficientemente severo para indicar uma atenção clínica independente (Critério D).

Características e Transtornos Associados
          A Pica freqüentemente está associada com Retardo Mental. Embora deficiências de vitaminas ou minerais tenham sido relatadas em alguns casos, geralmente não existem anormalidades biológicas específicas. Em certos casos, a Pica chega à atenção clínica apenas quando o indivíduo se apresenta com alguma das várias complicações médicas gerais resultantes (por ex., envenenamento por chumbo em conseqüência da ingestão de tinta ou reboco com tinta, problemas mecânicos nos intestinos, obstrução intestinal decorrente da ingestão de bolas de cabelo, perfuração intestinal ou infecções tais como toxoplasmose e toxocaríase como resultado da ingestão de fezes ou terra). Pobreza, negligência, falta de supervisão parental e atraso do desenvolvimento podem aumentar o risco para a condição.

Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
          Em certas culturas, comer terra ou outras substâncias aparentemente não nutritivas supostamente apresenta algum valor. A Pica é vista com maior freqüência em crianças pequenas e, ocasionalmente, em mulheres grávidas.

Prevalência
          Os dados epidemiológicos sobre a Pica são limitados. A condição freqüentemente deixa de ser diagnosticada, podendo ser comum entre crianças pré-escolares. Entre indivíduos com Retardo Mental, a prevalência do transtorno parece aumentar de acordo com a gravidade do retardo.

Curso
          A Pica tem seu início na primeira infância. Na maioria dos casos, o transtorno provavelmente dura vários meses, depois apresentando remissão. Ele pode continuar, às vezes, até a adolescência ou, menos freqüentemente, até a idade adulta. Em indivíduos com Retardo Mental, o comportamento pode diminuir durante a idade adulta.

Diagnóstico Diferencial
          Antes dos 18 aos 24 meses de idade, aproximadamente, o ato de levar à boca e, às vezes, comer substâncias não nutritivas é relativamente comum e não implica a presença de Pica. O diagnóstico é feito apenas quando o comportamento é considerado persistente (isto é, está presente por pelo menos 1 mês) e inapropriado, levando em conta o nível de desenvolvimento do indivíduo. A ingestão de substâncias não nutritivas pode ocorrer durante o curso de outros transtornos mentais (por ex., em um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, na Esquizofrenia, em decorrência de crenças delirantes, e na Síndrome de Kleine-Levin). Nesses casos, um diagnóstico adicional de Pica deve ser dado apenas se o comportamento alimentar for suficientemente severo para indicar uma atenção clínica independente. A Pica pode ser diferenciada de outros transtornos da alimentação (por ex., Transtorno de Ruminação, Transtorno de Alimentação da Primeira Infância, Anorexia Nervosa e Bulimia Nervosa) pelo consumo de substâncias não nutritivas.

Critérios Diagnósticos para F98.3 - 307.52 Pica

A. Ingestão persistente de substâncias não nutritivas por um período mínimo de 1 mês.

B. A ingestão de substâncias não nutritivas é inapropriada ao nível de desenvolvimento do indivíduo.

C. O comportamento alimentar não faz parte de uma prática culturalmente sancionada.

D. Se o comportamento alimentar ocorre exclusivamente durante o curso de um outro transtorno mental (por ex., Retardo Mental, Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, Esquizofrenia), sua gravidade é suficientemente severa para indicar uma atenção clínica independente.

 

F98.2 - 307.53 Transtorno de Ruminação

     DSM.IV

Características Diagnósticas
          A característica essencial do Transtorno de Ruminação consiste na repetida regurgitação e remastigação de alimentos, que se desenvolve em um bebê ou criança após um período de funcionamento normal e dura por pelo menos 1 mês (Critério A). O alimento parcialmente digerido é regurgitado sem náusea, esforço para vomitar, repugnância ou transtorno gastrintestinal aparentes. O alimento é então ejetado da boca ou, mais comumente, mastigado e engolido de novo. Os sintomas não são devido a uma condição gastrintestinal ou outra condição médica geral associada (por ex., síndrome de Sandifer, refluxo esofágico) (Critério B) e não ocorrem exclusivamente durante o curso de Anorexia Nervosa ou Bulimia Nervosa. Se os sintomas ocorrem exclusivamente durante o curso de Retardo Mental ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, eles devem ser suficientemente severos para indicarem uma atenção clínica independente (Critério C). O transtorno é observado com maior freqüência em bebês, mas pode ser visto em indivíduos mais velhos, particularmente naqueles que também apresentam Retardo Mental. Os bebês com o transtorno exibem uma posição característica de tensionar e arquear as costas com a cabeça estirada para trás, fazendo movimentos de sucção com a língua e dando a impressão de obterem satisfação com a atividade.

Características e Transtornos Associados
          Os bebês com Transtorno de Ruminação em geral se mostram irritáveis e famintos entre os episódios de regurgitação. Embora o bebê se mostre faminto e consuma grandes quantidades de alimentos, pode ocorrer desnutrição, porque a regurgitação segue-se imediatamente. Podem ocorrer perda de peso, fracasso em fazer os ganhos de peso esperados e até mesmo a morte (com taxas relatadas de mortalidade chegando a 25%). A desnutrição parece ser menos provável em crianças mais velhas e adultos, nos quais o transtorno pode ser contínuo ou episódico. Problemas psicossociais tais como falta de estimulação, negligência, situações de vida estressantes e problemas no relacionamento pais-filho podem ser fatores predisponentes. Uma subestimulação do bebê pode ocorrer, caso o responsável se desencorage e se afaste, em razão de experiências mal-sucedidas de alimentação ou do mau cheiro do material regurgitado. Em alguns casos, também pode desenvolver-se o Transtorno de Alimentação da Primeira Infância. Em crianças mais velhas e adultos, o Retardo Mental é um fator predisponente.

Prevalência
          O Transtorno de Ruminação parece ser incomum. É possível que ocorra com maior freqüência no sexo masculino.

Curso
          O início do Transtorno de Ruminação pode ocorrer no contexto de atrasos do desenvolvimento. A idade de início está entre os 3 e os 12 meses, exceto em indivíduos com Retardo Mental, nos quais o transtorno pode ocorrer em um estágio evolutivo um pouco mais tardio. Em bebês, o transtorno freqüentemente apresenta remissão espontânea. Em alguns casos severos, entretanto, o curso é contínuo.

Diagnóstico Diferencial
          Em bebês, anomalias congênitas (por ex., estenose pilórica ou refluxo gastroesofágico) ou outras condições médicas gerais (por ex., infecções do sistema gastrintestinal) podem causar regurgitação do alimento e devem ser descartadas por exames físicos e laboratoriais apropriados. A ruminação deve ser diferenciada do vômito normal da primeira infância, pela natureza aparentemente voluntária da ruminação (por ex., observação de movimentos preparatórios característicos seguidos de regurgitação e movimentos de sucção ou mastigação que parecem agradáveis ao bebê). O Transtorno de Ruminação não é diagnosticado se os sintomas ocorrem exclusivamente durante o curso de Anorexia Nervosa ou Bulimia Nervosa.

Critérios Diagnósticos para F98.2 - 307.53 Transtorno de Ruminação

A. Regurgitação repetida e remastigação do alimento por um período de pelo menos 1 mês após um período de funcionamento normal.

B. O comportamento não é devido a uma condição gastrintestinal ou outra condição médica geral associada (por ex., refluxo esofágico).

C. O comportamento não ocorre exclusivamente durante o curso de Anorexia Nervosa ou Bulimia Nervosa. Se os sintomas ocorrem exclusivamente durante o curso de Retardo Mental ou Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, eles são suficientemente severos para indicar uma atenção clínica independente.

 

F98.2 - 307.59 - Transtornos Alimentares da 1a. Infância

     DSM.IV

Características Diagnósticas
          A característica essencial do Transtorno de Alimentação da Primeira Infância é a persistente falha em comer ou mamar adequadamente, que se reflete como um fracasso significativo para ganhar peso ou uma perda de peso significativa ao longo de pelo menos 1 mês (Critério A). Não existe uma condição gastrintestinal ou outra condição médica geral (por ex., refluxo esofágico) suficientemente severa para explicar a perturbação alimentar (Critério B). A perturbação na alimentação não é melhor explicada por um outro transtorno mental (por ex., Transtorno de Ruminação) ou pela indisponibilidade de alimentos (Critério C). O início do transtorno deve ocorrer antes dos 6 anos de idade (Critério D).

Características e Transtornos Associados
          Características descritivas e transtornos mentais associados. Os bebês com transtornos da alimentação são, com freqüência, especialmente irritáveis e difíceis de consolar durante a alimentação. Eles podem mostrar-se apáticos e retraídos, bem como apresentar atrasos no desenvolvimento. Em alguns casos, problemas na interação entre os pais e a criança podem contribuir para exacerbar o problema alimentar do bebê (por ex., apresentação inapropriada de alimentos ou responder à recusa do bebê a alimentar-se como se este fosse um ato de agressão ou rejeição). A ingesta calórica inadequada pode exacerbar os aspectos associados (por ex., irritabilidade, atrasos do desenvolvimento) e contribuir ainda mais para as dificuldades de alimentação. Fatores no bebê possivelmente associados com a condição incluem dificuldades neurorregulatórias (por ex., dificuldades no ciclo sono-vigília, regurgitação freqüente, períodos imprevisíveis de alerta) e prejuízos do desenvolvimento preexistentes que tornam o bebê menos responsivo. Outros fatores que podem estar associados à condição incluem psicopatologia parental e abuso ou negligência à criança.

Achados laboratoriais associados
          Pode haver achados inespecíficos associados com a desnutrição, vistos ocasionalmente no Transtorno de Alimentação da Primeira Infância (por ex., anemia e baixa albumina sérica e proteínas totais). Achados ao exame físico e condições médicas gerais associadas. A desnutrição pode estar presente e, em casos severos, acarretar risco de vida no Transtorno de Alimentação da Primeira Infância.

Características Específicas à Idade e ao Gênero
          Um início mais tardio (por ex., aos 2 ou 3 anos, ao invés de no primeiro ano de vida) está associado com menores graus de atraso no desenvolvimento e desnutrição, embora um retardo do crescimento possa ser observado. O Transtorno de Alimentação da Primeira Infância afeta igualmente ambos os sexos.

Prevalência
          De todas as baixas hospitalares pediátricas, 1-5% são por fracasso em obter o ganho de peso esperado, e até metade destas pode refletir perturbações na alimentação, sem qualquer condição médica geral visível predisponente.

Curso
          O Transtorno de Alimentação da Primeira Infância em geral tem seu início no primeiro ano de vida, mas pode aparecer em crianças de 2 ou 3 anos de idade. A maioria das crianças apresenta melhora no crescimento após períodos de tempo variáveis.

Diagnóstico Diferencial
          Problemas menores na alimentação são comuns na primeira infância. O diagnóstico de Transtorno de Alimentação da Primeira Infância deve ser feito apenas se o problema com a alimentação acarreta um fracasso significativo em ganhar peso ou uma perda importante de peso. Este transtorno não é diagnosticado se as perturbações na alimentação podem ser plenamente explicadas por uma condição gastrintestinal, endócrina ou neurológica. As crianças com uma [98]condição médica geral subjacente podem ser mais difíceis de alimentar, e o diagnóstico de Transtorno de Alimentação da Primeira Infância não deve ser feito nesses casos, a menos que o grau de perturbação tenha uma gravidade maior do que seria de se esperar com base apenas na condição médica geral. O diagnóstico é sugerido se existe melhora na alimentação e ganho de peso em resposta a uma mudança dos responsáveis pelos cuidados da criança.

Critérios Diagnósticos para F98.2 - 307.59
Transtorno de Alimentação da Primeira Infância

A. Perturbação na alimentação, manifestada por fracasso persistente em comer ou mamar adequadamente, com fracasso significativo em ganhar peso ou perda significativa de peso ao longo de pelo menos 1 mês.

B. A perturbação não se deve a uma condição gastrintestinal ou outra condição médica geral associada (por ex., refluxo esofágico).

C. A perturbação não é melhor explicada por outro transtorno mental (por ex., Transtorno de Ruminação) ou pela indisponibilidade de alimentos.

D. O início ocorre antes dos 6 anos de idade.


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