Delirium

          DSM.IV

Os transtornos da seção "Delirium" compartilham uma apresentação sintomática comum, envolvendo uma perturbação na consciência e cognição, mas são diferenciados com base em sua etiologia:

Delirium Devido a uma Condição Médica Geral
Delirium Induzido por Substância (incluindo efeitos colaterais de medicamentos)
Delirium Devido a Múltiplas Etiologias
Delirium Sem Outra Especificação

Características Diagnósticas
          A característica essencial de um delirium consiste de uma perturbação da consciência acompanhada por uma alteração na cognição que não pode ser melhor explicada por uma Demência preexistente ou em evolução. A perturbação desenvolve-se em um curto período de tempo, geralmente de horas a dias, tendendo a flutuar no decorrer do dia. Existem evidências, a partir da anamnese, exame físico ou testes laboratoriais, de que o delirium é uma conseqüência fisiológica direta de uma condição médica geral, Intoxicação ou Abstinência de Substância, uso de um medicamento ou exposição a uma toxina, ou uma combinação desses fatores. A perturbação na consciência manifesta-se por uma redução da clareza da consciência em relação ao ambiente. A capacidade para focalizar, manter ou deslocar a atenção está prejudicada (Critério A). As perguntas precisam ser repetidas porque a atenção do indivíduo se dispersa, ou o indivíduo pode perseverar na resposta a uma pergunta anterior, ao invés de deslocar adequadamente o foco de sua atenção. A pessoa se distrai facilmente com estímulos irrelevantes. Em vista desses problemas, pode ser difícil (ou impossível) engajá-la em uma conversação. Há uma alteração concomitante na cognição (que pode incluir comprometimento da memória, desorientação ou perturbação da linguagem) ou desenvolvimento de uma perturbação da percepção (Critério B). O comprometimento da memória é evidente, acomete com maior freqüência a memória recente e pode ser testado pedindo-se que a pessoa memorize vários objetos sem relação entre si ou uma frase curta e os repita após alguns minutos de distração. A desorientação é habitualmente manifestada por desorientação temporal (por ex., pensa ser de manhã no meio da noite) ou espacial (por ex., pensa estar em casa, não em um hospital). No delirium leve, a desorientação temporal pode ser o primeiro sintoma a aparecer. A desorientação autopsíquica é menos comum. A perturbação na linguagem pode se evidenciar como disnomia (isto é, prejuízo na capacidade de nomear objetos) ou disgrafia (isto é, prejuízo na capacidade de escrever). Em alguns casos, o discurso é dispersivo e irrelevante; em outros, compulsivo e incoerente, com mudanças imprevisíveis de assunto. O profissional pode ter dificuldade para avaliar alterações na função cognitiva, pois o indivíduo pode mostrar-se desatento e incoerente. Sob essas circunstâncias, é útil rever cuidadosamente a sua história e obter informações a partir de outros informantes, particularmente membros da família. As perturbações na cognição podem incluir interpretações errôneas, ilusões ou alucinações. O bater de uma porta, por exemplo, pode ser interpretado pela pessoa como um tiro (interpretação incorreta); as dobras nas roupas de cama podem parecer-lhe objetos animados (ilusão); ou o indivíduo pode "ver" um grupo de pessoas pairando sobre a cama, quando na verdade não há ninguém ali (alucinação). Embora as interpretações sensoriais incorretas sejam habitualmente do tipo visual, elas podem afetar também outras modalidades sensoriais. As percepções errôneas variam de simples e uniformes até altamente complexas. O indivíduo pode ter uma convicção delirante do caráter de realidade das alucinações e apresentar respostas emocionais e comportamentais congruentes com seu conteúdo. A perturbação desenvolve-se em um curto período de tempo e tende a apresentar flutuações no decorrer do dia (Critério C). Durante a ronda hospitalar matinal, por exemplo, a pessoa pode mostrar-se coerente e cooperativa, mas à noite pode insistir em arrancar o equipamento intravenoso e voltar à casa dos pais já falecidos.

Características e Transtornos Associados
          O delirium freqüentemente está associado a uma perturbação no ciclo de sono-vigília, a qual pode incluir sonolência diurna ou agitação noturna e dificuldade para conciliar o sono. Em alguns casos, pode ocorrer uma inversão completa do ciclo de sono-vigília. O Delirium freqüentemente é acompanhado por perturbação no comportamento psicomotor. Muitos indivíduos com delirium são inquietos ou hiperativos. As manifestações de aumento da atividade psicomotora podem incluir tatear ou manusear as roupas de cama, tentar sair da cama quando isto é inseguro ou inoportuno e movimentos súbitos. Por outro lado, o indivíduo pode apresentar redução da atividade psicomotora, com lentidão e letargia que se assemelham ao estupor catatônico. A atividade psicomotora pode oscilar de um extremo a outro, no decorrer de um dia. Um comprometimento do julgamento pode interferir no tratamento médico apropriado. O indivíduo pode apresentar perturbações emocionais tais como ansiedade, medo, depressão, irritabilidade, raiva, euforia e apatia. Podem ocorrer rápidas e imprevisíveis mudanças de um estado emocional para outro, embora alguns indivíduos com delirium tenham um tom emocional constante. O medo freqüentemente acompanha alucinações ameaçadoras ou delírios transitórios. Caso o medo seja intenso, a pessoa pode atacar aos que falsamente percebe como ameaçadores. Pode haver ferimentos por quedas do leito ou por tentativas de escapar quando conectado a equipamento intravenoso, tubos respiratórios, cateteres urinários ou outros equipamentos médicos. O estado emocional perturbado também pode manifestar-se por chamados, gritos, palavrões, gemidos, resmungos ou outros sons. Esses comportamentos são especialmente prevalentes à noite e sob condições nas quais a estimulação e os indicadores ambientais estão ausentes. Além de achados laboratoriais característicos de condições médicas gerais associadas ou etiológicas (intoxicação ou estados de abstinência), o EEG é tipicamente anormal, mostrando lentificação generalizada ou atividade rápida.

Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero
          As bagagens cultural e educacional devem ser levadas em consideração na determinação da capacidade mental do indivíduo. Indivíduos provenientes de certos contextos podem não estar familiarizados com as informações usadas em certos testes de conhecimentos gerais (por ex., nomes de presidentes, conhecimentos geográficos), memória (por ex., data de nascimento em culturas que rotineiramente não celebram aniversários) e orientação (por ex., o senso de localização e posicionamento pode ser conceitualizado diferentemente, em algumas culturas). As crianças podem ser mais suscetíveis ao delirium do que os adultos, especialmente quando relacionado a doenças febris e certos medicamentos (por ex., anticolinérgicos). Em crianças, o delirium pode ser confundido com um comportamento não-cooperativo, e a obtenção de sinais cognitivos distintivos pode ser difícil. Se a criança não consegue ser acalmada por figuras familiares, isto pode ser sugestivo de delirium. A proporção de delirium entre os sexos reflete a da população idosa em geral (na qual a proporção de mulheres para homens aumenta com o avanço da idade), o grupo em maior risco para o desenvolvimento do delirium.

Prevalência
          Em indivíduos com mais de 65 anos hospitalizados por uma condição médica geral, aproximadamente 10% apresentam delirium na admissão e outros 10 a 15% podem desenvolvê-lo durante a hospitalização.

Curso
          Os sintomas de delirium geralmente se desenvolvem em questão de horas ou dias, mas podem iniciar subitamente (por ex., após um traumatismo craniano). Com mais freqüência, os sintomas isolados progridem para o delirium pleno dentro de um período de 3 dias. Os sintomas de delirium podem resolver-se em algumas horas ou persistir por semanas, particularmente em indivíduos com demência coexistente. Se o fator etiológico subjacente é prontamente corrigido ou auto-limitado, a recuperação completa é mais provável.

Diagnóstico Diferencial
          O tema mais comum no diagnóstico diferencial diz respeito à presença de demência ao invés de delirium, apenas delirium ou delirium superposto a uma demência preexistente. O comprometimento da memória é comum tanto ao delirium quanto à demência, mas a pessoa que apresenta apenas demência está alerta e não tem perturbação na consciência, característica do delirium. Quando há sintomas de delirium, informações de membros da família, outros responsáveis ou registros médicos podem ser úteis para determinar a existência prévia de sintomas de demência. A codificação de um delirium superposto a diferentes tipos de demência é discutida sob "Procedimentos de Registro" para cada tipo de delirium. A suposta etiologia determina o diagnóstico específico de delirium (textos e critérios para cada diagnóstico de delirium são oferecidos em separado, nesta seção). Se o delirium é considerado uma conseqüência dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral, aplica-se o diagnóstico de Delirium Devido a uma Condição Médica Geral. Se o delirium decorre dos efeitos fisiológicos diretos de uma droga de abuso, aplica-se o diagnóstico de Delirium por Intoxicação com Substância ou Delirium por Abstinência de Substância, dependendo de o delirium ocorrer em associação com Intoxicação com Substância ou Abstinência de Substância. Se o delirium resulta do uso de medicamentos ou exposição a toxinas, aplica-se o diagnóstico de Delirium Induzido por Substância. Não raro, o delirium é devido tanto a uma condição médica geral quanto ao uso de uma substância (incluindo medicamentos). Isto pode ser visto, por exemplo, em um indivíduo idoso com uma séria condição médica geral que está sendo tratado com múltiplos medicamentos. Quando existe mais de uma etiologia (por ex., tanto uma substância quanto uma condição médica geral), aplica-se o diagnóstico de Delirium Devido a Múltiplas Etiologias. Caso não seja possível estabelecer uma etiologia específica (isto é, induzido por substância ou devido a uma condição médica geral), faz-se o diagnóstico de Delirium Sem Outra Especificação. O diagnóstico de Delirium por Intoxicação com Substância ou Delirium por Abstinência de Substância é feito no lugar de Intoxicação com Substância ou Abstinência de Substância apenas se os sintomas de delirium excedem aqueles geralmente associados com a intoxicação ou síndrome de abstinência e são suficientemente severos para indicar uma atenção clínica independente. Mesmo em indivíduos com sinais óbvios de intoxicação ou abstinência, outras causas possíveis de delirium (isto é, Delirium Devido a uma Condição Médica Geral) não devem ser ignoradas. Por exemplo, um traumatismo craniano decorrente de quedas ou lutas durante a intoxicação pode ser responsável por ele. O delirium caracterizado por alucinações vívidas, delírios, perturbações na linguagem e agitação deve ser diferenciado de Transtorno Psicótico Breve, Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme e outros Transtornos Psicóticos, bem como de Transtornos do Humor com Aspectos Psicóticos. No delirium, os sintomas psicóticos são flutuantes, fragmentados e não sistematizados, ocorrem no contexto de uma redução da capacidade de manter e deslocar adequadamente o foco da atenção e estão geralmente associados com anormalidades EEG. Existe, com freqüência, comprometimento da memória e desorientação no delirium, mas em geral não nesses outros transtornos. Finalmente, no delirium, a pessoa geralmente apresenta evidências de uma condição médica geral, Intoxicação ou Abstinência de Substância ou uso de medicamentos. O Delirium deve ser diferenciado da Simulação e do Transtorno Factício. Esta distinção é feita com base na apresentação freqüentemente atípica da Simulação e do Transtorno Factício e na ausência de uma condição médica geral ou substância que esteja etiologicamente relacionada à aparente perturbação cognitiva. Os indivíduos podem apresentar-se com alguns, mas não todos os sintomas de delirium. As apresentações que não chegam a satisfazer os critérios para uma síndrome precisam ser cuidadosamente avaliadas, porque podem ser prenúncios de delirium pleno ou apontar para uma condição médica geral subjacente ainda não diagnosticada. Essas apresentações devem ser codificadas como Transtorno Cognitivo Sem Outra Especificação.

F05.0 - 293.0 Delirium Devido a uma Condição Médica Geral

     DSM.IV

Características e Aspectos Associados
          As características descritivas do Delirium Devido a uma Condição Médica Geral (Critérios A-C) são discutidas nas páginas 122-123. Além disso, para o diagnóstico de Delirium Devido a uma Condição Médica Geral, deve haver evidências, a partir da história, exame físico ou achados laboratoriais, de que a perturbação cognitiva é uma conseqüência fisiológica direta de uma condição médica geral (Critério D). A fim de determinar se o delirium é devido a uma condição médica geral, o profissional deve, primeiro, estabelecer a presença desta condição, e uma relação etiológica do delirium com a mesma. Uma avaliação cuidadosa e abrangente de múltiplos fatores é necessária para fazer este julgamento. Embora não existam diretrizes infalíveis, diversas considerações oferecem alguma orientação quanto a esta área. Uma delas consiste na presença de uma associação temporal entre o início, exacerbação ou remissão da condição médica geral e do delirium. Evidências a partir da literatura sugerindo a possível existência de uma associação direta entre a condição médica geral em questão e o desenvolvimento de um delirium podem oferecer um contexto útil na avaliação de uma determinada situação. Além disso, o clínico também deve determinar que a perturbação não é melhor explicada por um Delirium Induzido por Substância ou um transtorno mental primário (por ex., um Episódio Maníaco). Essa determinação é explicada em maiores detalhes na seção "Transtornos Mentais Devido a uma Condição Médica Geral". O delirium pode estar associado com muitas condições médicas gerais distintas, cada qual com exame físico e achados laboratoriais característicos. Nas doenças sistêmicas, geralmente não se encontram sinais neurológicos focais. Várias formas de tremor podem estar presentes. A asterixia, um movimento de agitar as mãos hiperestendidas, foi originalmente descrita na encefalopatia hepática, mas também pode ser encontrada em associação com outras causas de delirium. Sinais de hiperatividade autonômica (por ex., taquicardia, sudorese, rubor facial, pupilas dilatadas e pressão sangüínea elevada) ocorrem com freqüência. Além dos achados laboratoriais característicos das condições médicas gerais (ou intoxicação ou estados de abstinência) que representam fatores etiológicos, o EEG geralmente é anormal, mostrando lentificação ou atividade rápida generalizadas.

Procedimentos de Registro
          No registro do diagnóstico de Delirium Devido a uma Condição Médica Geral, o clínico deve anotar tanto o delirium quanto a condição médica geral identificada supostamente causadora da perturbação no Eixo I (por ex., 293.0 Delirium Devido à Hipoglicemia). O código da CID-9-MC para a condição médica geral deve ser também anotado no Eixo III (por ex., 251.2 hipoglicemia) (Ver Apêndice G para uma lista de códigos selecionados da CID-9-MC para condições médicas gerais). Em um indivíduo com história estabelecida de Demência do Tipo Alzheimer ou Demência Vascular, um delirium superposto deve ser anotado, pela codificação do subtipo apropriado de demência (por ex., 290.3 Demência do Tipo Alzheimer, Com Início Tardio, Com Delirium). No caso de outras demências, tanto a demência quanto o Delirium devem ser codificados no Eixo I (por ex., 294.1Demência Devido à Doença de Parkinson e 293.0 Delirium Devido à Encefalopatia Hepática). Em situações nas quais não está claro se os déficits cognitivos se devem a delirium ou demência, pode ser útil fazer um diagnóstico adicional de delirium e observar atentamente a pessoa, enquanto continuam os esforços para identificar a natureza da perturbação.

Condições Médicas Gerais Associadas
          As condições médicas gerais etiológicas para delirium incluem infecções sistêmicas, transtornos metabólicos (por ex., hipóxia, hipercapnia, hipoglicemia), desequilíbrios eletrolíticos, doença hepática ou renal, deficiência de tiamina, estados pós-operatórios, encefalopatia hipertensiva, estados convulsivos pós-ictais e seqüelas de traumatismo craniano. Certas lesões focais do lobo parietal direito e superfície ínfero-medial do lobo occipital também podem provocar delirium.

Critérios Diagnósticos para F05.0 - 293.0 Delirium Devido a...
[Indicar a Condição Médica Geral]

A. Perturbação da consciência (isto é, redução da clareza da consciência em relação ao ambiente), com redução da capacidade de direcionar, focalizar, manter ou deslocar a atenção.

B. Uma alteração na cognição (tal como déficit de memória, desorientação, perturbação da linguagem) ou desenvolvimento de uma perturbação da percepção que não é melhor explicada por uma demência preexistente, estabelecida ou em evolução.

C. A perturbação desenvolve-se ao longo de um curto período de tempo (em geral de horas a dias), com tendência a flutuações no decorrer dia.

D. Existem evidências, a partir da história, exame físico ou achados laboratoriais, de que a perturbação é causada por conseqüências fisiológicas diretas de uma condição médica geral.

Nota para a codificação: Se o delirium está sobreposto a uma Demência preexistente do Tipo Alzheimer ou Demência Vascular, indicar o delirium codificando o subtipo apropriado de demência, por ex., 290.3 Demência do Tipo Alzheimer, Com Início Tardio, Com Delirium.
Nota para a codificação: Incluir o nome da condição médica geral no Eixo I, por ex., 293.0 Delirium Devido à Encefalopatia Hepática; codificar também a condição médica geral no Eixo III (ver Apêndice G para códigos).

 

Delirium Induzido por Substância

          DSM.IV

 

Características Diagnósticas e Aspectos Associados
          Os aspectos descritivos do Delirium Induzido por Substância (Critérios A-C) são discutidos adiante. Além disso, para o diagnóstico de Delirium Induzido por Substância, deve haver evidências, pela história, exame físico ou achados laboratoriais, de Intoxicação ou Abstinência de Substância, efeitos colaterais de medicamentos ou exposição a toxinas com suposta relação etiológica relacionados ao delirium (Critério D). Um delirium que ocorre durante Intoxicação com Substância é diagnosticado como Delirium por Intoxicação com Substância; um delirium que ocorre durante Abstinência de Substância é diagnosticado como Delirium por Abstinência de Substância, e um delirium associado com efeitos colaterais de medicamentos ou exposição a toxinas é diagnosticado como Delirium Induzido por Substância. O Delirium que ocorre durante a Intoxicação com Substância pode surgir minutos a horas após o consumo de doses relativamente altas de certas drogas como cannabis, cocaína e alucinógenos. Com drogas tais como o álcool, barbitúricos ou meperidina, o delirium às vezes se desenvolve apenas após uma intoxicação mantida por alguns dias. Habitualmente, o delirium resolve-se à medida que cessa a intoxicação ou dentro de algumas horas ou dias após seu término (embora a duração possa ser mais longa após a intoxicação com fenciclidina). O delirium associado com Abstinência de Substância desenvolve-se à medida que as concentrações da substância nos tecidos e líquidos corporais diminuem após a redução ou término de um uso prolongado e habitualmente em altas doses de certas substâncias. A duração do delirium tende a variar de acordo com a meia-vida da substância envolvida: substâncias de ação mais longa em geral estão associadas com síndrome de abstinência mais prolongada. O Delirium por Abstinência de Substância pode persistir por apenas algumas horas ou por até 2-4 semanas. Esse diagnóstico deve ser feito ao invés de um diagnóstico de Intoxicação com Substância ou Abstinência de Substância apenas quando os sintomas cognitivos excedem aqueles habitualmente associados com a síndrome de intoxicação ou de abstinência e quando os sintomas são suficientemente severos para indicar uma atenção clínica independente.

Procedimentos de Registro
          Um diagnóstico de Delirium Induzido por Substância é acompanhado pelo nome da substância específica (ao invés da classe de substâncias) supostamente causadora do delirium (por ex., "Diazepam", ao invés de "Sedativos, Hipnóticos ou Ansiolíticos"). O código diagnóstico é selecionado a partir da listagem de classes de substâncias oferecida no conjunto de critérios. Para substâncias que não se enquadram em qualquer das classes (por ex., digitais), o código para "Outra Substância" deve ser usado. Além disso, para medicamentos prescritos em doses terapêuticas, o medicamento específico deve ser indicado listando-se o código E apropriado (ver Apêndice G). Para substâncias que produzem intoxicação ou abstinência, o nome da substância é acompanhado pelo contexto no qual os sintomas se desenvolveram (por ex., 292.81 Delirium por Intoxicação com Dextroanfetamina; 291.0 Delirium por Abstinência de Álcool). Para efeitos colaterais de medicamentos e exposição a toxinas, utiliza-se o termo "Induzido" (por ex., 292.81 Delirium Induzido por Digitais). Quando mais de uma substância possivelmente exerce um papel significativo no desenvolvimento do delirium, cada uma delas deve ser listada em separado. Se uma substância é considerada um fator etiológico mas a substância ou classe de substâncias específica é desconhecida, o diagnóstico é 292.81 Delirium Induzido por Substância Desconhecida.

Substâncias Específicas
          O Delirium por Intoxicação com Substância pode ocorrer com as seguintes classes de substâncias: álcool; anfetaminas e substâncias relacionadas; canabinóides; cocaína; alucinógenos; inalantes; opióides, fenciclidina e substâncias relacionadas; sedativos, hipnóticos e ansiolíticos, e outras substâncias desconhecidas. O Delirium por Abstinência de Substância pode ocorrer com as seguintes classes de substâncias: álcool (freqüentemente chamado "delirium tremens"); sedativos, hipnóticos e ansiolíticos, e outras substâncias ou substâncias desconhecidas. Os medicamentos que causam delirium, conforme relatos, incluem anestésicos, analgésicos, agentes antiasmáticos, anticonvulsivantes, anti-histamínicos, anti-hipertensivos e medicamentos cardiovasculares, antimicrobianos, drogas antiparkinsonianas, corticosteróides, medicamentos gastrintestinais, relaxantes musculares e medicamentos psicotrópicos com efeitos colaterais anticolinérgicos. As toxinas que causam delirium incluem anticolinesterase, inseticidas organofosforados, monóxido de carbono, dióxido de carbono e substâncias voláteis, tais como combustíveis ou tintas.

Critérios Diagnósticos para Delirium por Intoxicação com Substância

A. Perturbação da consciência (isto é, redução da clareza da consciência em relação ao ambiente), com capacidade reduzida para focalizar, manter ou deslocar a atenção.

B. Uma alteração na cognição (como déficit de memória, desorientação, perturbação da linguagem) ou o desenvolvimento de uma perturbação da percepção não melhor explicada por uma demência preexistente, estabelecida ou em evolução.

C. A perturbação desenvolve-se ao longo de um curto período de tempo (geralmente de horas a dias), com tendência a flutuações no decorrer do dia.

D. Existem evidências, a partir da história, exame físico ou achados laboratoriais de (1) ou (2): (1) os sintomas nos Critérios A e B desenvolveram-se durante a Intoxicação com Substância (2) o uso de medicamentos está etiologicamente relacionado com a perturbação*.

Nota: Este diagnóstico deve ser feito ao invés de um diagnóstico de Intoxicação com Substância, apenas quando os sintomas cognitivos excedem aqueles habitualmente associados com a síndrome de intoxicação e quando os sintomas são suficientemente severos para indicar uma atenção clínica independente. *Nota: O diagnóstico deve ser registrado como Delirium Induzido por Substância se estiver relacionado ao uso de medicamentos. Consultar o Apêndice G para códigos E, indicando medicamentos específicos.

Codificar Delirium por Intoxicação Com [Substância Específica]:
(F10.03 - 291.0 Álcool;
F15.03 - 292.81 Anfetamina [ou Substância Tipo-Anfetamina];
F12.03 - 292.81 Canabinóides;
292.81 Cocaína;
F16.03 - 292.81 Alucinógenos;
F18.03 - 292.81 Inalantes;
F11.03 - 292.81 Opióides;
F19.03 - 292.81 Fenciclidina [ou Substância Tipo Fenciclidina];
F13.03 - 292.81 Sedativos, Hipnóticos ou Ansiolíticos;
F19.03 - 292.81 Outra Substância [ou Substância Desconhecida] [por ex., cimetidina, digitais, benzotropina]).

 

Critérios Diagnósticos para Delirium por Abstinência de Substância

A. Perturbação da consciência (isto é, redução da clareza da consciência em relação ao ambiente), com redução da capacidade de focalizar, manter ou deslocar a atenção.

B. Uma alteração na cognição (como déficit de memória, desorientação, perturbação da linguagem) ou o desenvolvimento de uma perturbação da percepção não melhor explicada por uma demência preexistente, estabelecida ou em evolução.

C. A perturbação desenvolve-se ao longo de um curto período de tempo (geralmente de horas a dias), com tendência a flutuações no decorrer do dia.

D. Existem evidências, a partir da história, exame físico ou achados laboratoriais, de que os sintomas nos Critérios A e B desenvolveram-se durante ou logo após uma síndrome de abstinência.

Nota: Este diagnóstico deve ser feito ao invés de um diagnóstico de Abstinência de Substância, apenas quando os sintomas cognitivos excedem aqueles habitualmente associados com a síndrome de abstinência e quando os sintomas são suficientemente severos para indicarem uma atenção clínica independente.0

Codificar Delirium por Abstinência de [Substância Específica]:
(F10.4 - 291.0 Álcool;
F13.4 - 292.81 Sedativo, Hipnótico ou Ansiolítico;
F19.4 - 292.81 Outra Substância [ou Substância Desconhecida]).

 

Delirium Devido a Múltiplas Etiologias

     DSM.IV

 

          A categoria Delirium Devido a Múltiplas Etiologias é incluída para alertar os clínicos quanto à situação comum na qual o delirium possui mais de uma condição médica geral etiologicamente relacionada (por ex., Delirium Devido a Encefalopatia Hepática, Delirium Devido a Traumatismo Craniano) ou ele pode ser devido aos efeitos combinados de uma condição médica geral (por ex., encefalite viral) e uso de substância (por ex., Abstinência de Álcool).

Procedimentos de Registro
          O Delirium Devido a Múltiplas Etiologias não tem seu próprio código individual nem deve ser registrado como um diagnóstico. Por exemplo, para codificar um delirium devido à encefalopatia hepática e abstinência de álcool, o clínico anotaria tanto 293.0 Delirium Devido à Encefalopatia Hepática quanto 291.0 Delirium por Abstinência de Álcool no Eixo I e 572.2 encefalopatia hepática no Eixo III.

Critérios Diagnósticos para Delirium Devido a Múltiplas Etiologias

A. Perturbação da consciência (isto é, redução da clareza da consciência em relação ao ambiente) com redução da capacidade de focalizar, manter ou deslocar a atenção.

B. Uma alteração na cognição (como déficit de memória, desorientação ou perturbação da linguagem) ou o desenvolvimento de uma perturbação da percepção, não melhor explicada por uma demência preexistente, estabelecida ou em evolução.

C. A perturbação desenvolve-se ao longo de um curto período de tempo (geralmente de horas a dias), com tendência a flutuações no decorrer do dia.

D. Existem evidências, a partir da história, exame físico ou achados laboratoriais, de que o delirium possui mais de uma etiologia (por ex., mais de uma condição médica geral etiológica, uma condição médica geral mais Intoxicação com Substância ou efeito colateral de medicamento).

Nota para a codificação: Utilizar múltiplos códigos refletindo o delirium específico e as etiologias específicas, por ex., 293.0 Delirium Devido à Encefalite Viral; F10.4 - 291.0 Delirium por Abstinência de Álcool.

 

F05.9 - 780.09 Delirium Sem Outra Especificação

     DSM.IV

          Esta categoria deve ser utilizada para o diagnóstico do delirium que não satisfaz os critérios para qualquer dos tipos específicos de delirium descritos nesta seção. Os exemplos incluem:
1. Uma apresentação clínica de delirium supostamente devido a uma condição médica geral ou uso de substância, mas para a qual existem evidências insuficientes para estabelecer uma etiologia específica.
2. Delirium devido a causas não relacionadas nesta seção (por ex., privação sensorial).