Epidemiologia, História Natural e Prevenção de Doenças

Maria Zélia Rouquayrol

Epidemiologia & Saúde

(continuação da página anterior)

 

FATORES SÓCIO-POLÍTICOS

Identicamente ao que acontecer com os fatores econômicos, os fatores políticos são indissociáveis da totalidade que os condiciona. Se em estudos analíticos de pré-patogênese, esses fatores, pela própria natureza do proceder científico, são isolados e desta forma analisados, isto jamais poderá ser mais interpretado e confundido como se tratasse de uma forma de traduzir a realidade, reconhecendo-a como resultante da interação dos fatores que serviram à sua análise. As categorias de análise não podem ser confundidas com as categorias de realidade.

Sob o nosso ponto de vista, são os seguintes alguns dos fatores políticos que devem ser fortemente considerados ao se analisarem as condições de pré-patogênese ao nível do social:

-  instrumentação jurídico-legal;

-  decisão política;

-  higidez política

-  participação consentida e valorização da cidadania;

-  participação comunitária efetivamente exercida;

-  transparência das ações e acesso à informação.

 

 

FATORES SÓCIO-CULTURAIS

No contexto do social, devem ser citados preconceitos e hábitos culturais, crendices, comportamentos e valores, valendo como fatores pré-patogênicos contribuintes para a difusão e manutenção de doenças. Vale a pena citar como exemplo de padrão externo de comportamento, com características pré-patogênicas cuja influência se faz sentir quase que diretamente, o proceder das populações rurais em regiões subdesenvolvidas da África e do Brasil, que conservam o hábito de defecar na superfície do solo, nas proximidades de mananciais. Este traço cultural foi no passado e continua sendo, no presente, um dos fatores contribuintes para a disseminação da esquistossomose, cuja endemicidade é alimentada pela permanência de uma pobreza cronificada. Um outro exemplo de padrão externo de comportamento, com influência quase que direta na difusão de doença, vem da larga expansão que nas últimas décadas tiveram as doenças de transmissão sexual entre os jovens, fenômeno que deve ser associado às atuais liberdades e promiscuidade sexuais.

A par destes e de uma infinidade de outros comportamentos externos pré-patológicos do mesmo jaez, bem mais aproximados aos agentes ambientais do que à estrutura social, é mister apontar fatores culturais de natureza bem diversa, de cuja ação mais distante e mais abrangente, os resultados são menos previsíveis. São os padrões conceptuais de comportamento, que poderíamos imaginar (só imaginar!) sob a forma de um gigantesco superego cultural, determinando o pensar e o fazer coletivos. Como fatores na pré-patogênese estes comportamentos estariam mais adequadamente inseridos no sistema de valores internalizados de natureza cultural/social/econômica/política do que entre os comportamentos externos ou as condutas biossociais inconvenientes.

Quer-se referir à:

-  passividade diante do poder exercido com incompetência ou má fé;

-  alienação em relação aos direitos e deveres da cidadania;

-  transferência irrestrita, para profissionais da política, da responsabilidade pessoal pelo social;

-  participação passiva como beneficiários do paternalismo de estado ou oligárquico;

-  incapacidade de se organizar para reivindicar.

 

Esta tem sido a essência de nossa cultura política, bem como a de outros povos subdesenvolvidos, reforçada através de nossa história pelos estratos político e econômico, em benefício de alguns, com prejuízo para o todo. Têm sido pré-patogênicos na medida em que a sociedade abrangente se vê frustrada em controlar e fiscalizar os investimentos públicos. A Constituição de 1988 gerou possibilidades de participação da comunidade na gerência das ações e serviços públicos de saúde. Agora, há que se lutar por desenvolver, como padrões de comportamento, atitudes de comprometimento e participação.

“O sistema público está doente e sua febre é expressa em números vermelhos – apenas 5 de cada 10 cruzeiros gastos pelo governo com saúde, chegam ao paciente na forma de algum tipo de assistência. A outra metade de se perde em corrupção ou desperdício”.(Veja, 1993.)

 

 

FATORES PSICOSSOCIAIS

Dentre os fatores psicossociais aos quais pode ser imputada a característica de pré-patogênese, encontram-se: marginalidade, ausência de relações parentais estáveis, desconexão em relação à cultura de origem, falta de apoio no contexto social em que se vive, condições de trabalho extenuantes ou estressantes, promiscuidade, transtornos econômicos, sociais ou pessoais, falta de cuidados maternos na infância, carência afetiva de ordem geral, competição desenfreada, agressividade vigente nos grandes centros urbanos e desemprego. Estes estímulos têm influência direta sobre o psiquismo humano, com conseqüências somáticas e mentais danosas.

 

 

FATORES AMBIENTAIS

 Para efeito de análise estrutural epidemiológica, por ambiente deve ser entendido o conjunto de todos os fatores que mantém relações interativas com o agente etiológico e o suscetível, incluindo-os, sem se confundir com os mesmos. O termo tem maior abrangência do que lhe é dado no campo da ecologia. Além de incluir o ambiente físico, que abriga e torna possível a vida autotrófica e o ambiente biológico, que abrange todos os seres vivos, inclui também a sociedade evolvente sede das interações sociais, políticas, econômicas e culturais.

Agressores ambientais são agentes que, de forma imediata, sem mais intermediações, podem pôr-se em contato direto com o suscetível. Quanto à sua forma de surgimento ou por sua presença, podem ser inseridos em uma das seguintes categorias:

a) agentes presentes no ambiente de forma habitual, em convivência natural ou tradicional com o homem;

b) agentes pouco comuns e que, mercê de situações novas, alterações impostas por novos hábitos ou por modificações na maneira de viver, por má administração ou manipulação inábil de meios e recursos, por importação passam a se  fazer presentes de forma perceptível, como agentes, em algum evento epidemiológico;

c) agentes que explodem em situações anormais de grande monta como são as macroperturbações ecológicas, os desastres naturais e as catástrofes.

 

São componentes do ambiente físico: situação geográfica, solo, clima, recursos hídricos e topografia, agentes químicos e agentes físicos.

Em situações ecológica desfavoráveis, algumas produzidas por fatores naturais, outras produzidas artificialmente pela ação do homem, algumas permanentes, outras contingentes, têm desenvolvimento os fatores físicos, químicos e biológicos que, por terem acesso à organização interna de seres vivos, podem funcionar, para estes, como agentes patogênicos.

Modernamente, o estudo da influência exercida pelos fatores naturais do ambiente físico na produção de doenças tornou-se menos importante que o conhecimento da ação desenvolvida pelos agentes aí agregados artificialmente. O progresso e o desenvolvimento industrial criaram problemas epidemiológicos novos, resultantes da poluição ambiental. O ambiente físico que envolve o homem moderno condiciona o aparecimento de doenças cuja incidência tornou-se crescente a partir da urbanização e da industrialização. As doenças cardiovasculares, as alterações mentais e o câncer pulmonar estão também associados a fatores do ambiente físico.

Publicação da Organização Panamericana da Saúde (OPS, 1976) menciona que, com a industrialização crescente e a modificação dos costumes, há um grande número de substâncias carcinogênicas que se ingerem, inalam, absorvem por via cutânea ou que se introduzem no organismo como medicamentos ou por acidente.

No estudo de fatores agressivos presentes no ambiente físico e aí colocados através de atividade do homem, não deve ser esquecido o uso, às vezes exagerado, de pesticidas na proteção dos cultivos. Os alimentos, tanto os vegetais quanto os de origem animal, veiculam estas substâncias em concentrações mínimas. Teme-se que o seu acúmulo gradual no organismo humano, devido à sua relativa estabilidade, possa trazer sérios danos para a saúde dos consumidores. Outro problema bastante sério são os aditivos alimentares, sob forma de sabores artificiais, corantes, conservantes e até hormônios sintéticos. Seus efeitos, a longo prazo, por exposição contínua, ainda são desconhecidos. Não seria demais lembrar que o ambiente físico dos locais de trabalho pode, pelos fatores presentes, estar associado à produção de doenças.

No ambiente humano (OPS, 1962), o uso de medicamentos é outro fator importante que pode compor a estrutura epidemiológica de doenças não infecciosas. As características normais do feto poderão sofrer alterações se uma nova droga passar a ser comercializada sem provas suficientes de sua inocuidade. Tal fato aconteceu. A partir de 1959, observou-se que, repetidas vezes, em vários consultórios pediátricos, uma síndrome fora do comum, a focomelia, anteriormente um fato raro, passou a ser notificada de modo inusitado: 30 a 70 vezes a mais. Em um estudo com 46 mães chegou-se à certeza de que 41 delas havia feito uso de talidomida nos primeiros meses de gestação. Estudos em animais confirmaram a ação teratogênica da talidomida nos primeiros meses de gestação (Mellin & Katzenstein, 1962).

Estrógenos de diferentes estruturas químicas podem causar tumores em animais de experimentação. Embora a importância desta observação para o homem não tenha sido determinada com clareza, convém advertir que alguns informes epidemiológicos indicam que a administração de estilbestrol em mulheres grávidas aumenta de maneira considerável o risco de que suas filhas venham a ter adenocarcinoma vaginal (Herbst, 1971). Além desses fatos publicados, há inúmeros casos encobertos, não notificados, decorrentes do uso indiscriminado de medicamentos.

Sob o ponto de vista da estrutura epidemiológica, o ambiente biológico está constituído por todos os seres vivos que possam ter influência sobre o agente etiológico e o suscetível. Ecologicamente,  fazem parte da biota. Para efeito de análise, são colocados em destaque e tratados como elementos interagentes no sistema ambiente-agente-suscetível.

A influência mais geral que qualquer fator biológico possa ter sobre o estado de saúde ou de doença das populações humanas se faz sobre seu estado nutricional. Solo, clima, e recursos hídricos confluem para a riqueza de recobrimento vegetal e esta será propícia à abundância da vida animal.

O homem depende tanto dos animais quanto dos vegetais para a sua sobrevivência. Comunidades relativamente saudáveis são aquelas que, em princípio, dispõem de capacidade para produção de alimento em seu próprio benefício.

No outro extremo da rede de influência e de ações que se centram no ambiente biológico, estão os microssistemas bioclimáticos propícios à manutenção dos vetores e dos reservatórios de bioagentes patogênicos.