Esquizofrenia e psicoses degenerativas de Kleist: Patogenia e Psicopatologia Diferenciais

 

(continuação da página anterior)

 

PSICOSES ENDÓGENAS DEGENERATIVAS

Ao lado da sistematização das pesquisas sobre a esquizofrenia deve a psiquiatria imenso progresso a Kleist no âmbito de outras psicoses, também endógenas mas de dinamismo patogênico diverso. Tais são as formas mórbidas por ele arroladas como endógenas e autóctones porém com o cognome de benignas e atípicas: benignas pelo decurso – análogo a este respeito ao da psicose maníaco-depressiva – caracterizada pela remissão integral sem déficit mental; atípicas pelo fato de assumirem configurações clínicas que as faz confundir com quadros endógenos constitucionais e entretanto decorrem de modo inteiramente diverso, com restituição ao estado integral de normalidade.

Quadro 3 – Formas esquizofrênicas, segundo Kleist. Revisões publicadas em 1947 9p, 1953 9r e 1955, 29. Os sinais + e - indicam existência ou ausência de formas do tipo mórbido em causa.

 

Semelhantes quadros clínicos Kleist os isolou desde o início da carreira psiquiátrica, ao desmembrar dos quadros sistemáticos de Wernicke as psicoses acinéticas e as hipercinéticas (9a, b), que mais tarde precisou como psicoses da motilidade. Pouco tempo após, em 1911, mostrou ao discutir a “paranóia aguda” de Thomsen a vantagem da orientação patogênica e psicopatológica: os quadros delirantes agudos mantinham maior parentesco com as formas maníacas que com a paranóia. E pacientes desse grupo eram - como ainda hoje acontece, infelizmente - rotulados como maníaco-depressivos. Cumpria pois identificar o tipo mórbido de causa endógena em que conceitos delirantes expansivos revelavam as tendências latentes ao passo que na desordem circular legítima a configuração clínica se apresenta evidente, reconhecendo-se como constitucional.

Outras eventualidades clínicas, estas mais freqüentemente confundidas com a esquizofrenia, reclamavam a atenção acurada e o senso clínico de Kleist que as caracterizou como estados crepusculares autóctones não desencadeados por convulsões, embora filiáveis ao mesmo fundo genético que a epilepsia. Tais estados de turvação de consciência, de configuração crepuscular estudados sucessivamente em 1923 e em 1926 (9h,i), passavam assim a integrar o grupo das psicoses autóctones degenerativas agrupadas em 1921 (9f). Endossando sugestões de Schöder (28a,d), que o secundava em tais investigações, cognominou como degenerativas ao já numeroso grupo de psicoses dessa natureza. Na realidade provinham de dinamismo genético e era devido à influência dos genes que assumiam o feito clínico semelhante a várias formas de constitucionais. Desmembrando das doenças circulares do humor, de Kraepelin, as modalidades correspondentes das formas delirantes, os quadros paranódes, da epilepsia os estados acessuais - isto é, episódicos ou  esporádicos - constitui o grupo das psicoses ciclóides, paranóides e epileptóides (9j). Considerava-as ainda marginais porque os psiquiatras não se achavam familiarizados com elas e era quase a regra inclui-las nos grupos clássicos correspondentes. São dessa apresentação as formas clínicas e a comparação que reproduzimos no quadro 4.

Estudos de Gerum (7), Leonhard (18a, b, c), de Mollweide (22), de Neel (23b), de Seige (31), de Stadler (35), de Struss (36), bem como outros em nosso meio (32e, g, 33, 38a, b), revelaram a freqüência com que tais formas clínicas incidem em hospitais mesmo de pacientes crônicos. Mais encontradiças ainda se fazem elas em sanatórios para agudos, o que é compreensível uma vez que a maioria dos quadros clínicos tende para a remissão em breve tempo. 

De igual modo que em relação à esquizofrenia, tais quadros foram submetidos intencionalmente também à remissão catamnéstica. E além disso, foram muitas vezes registrados nas pesquisas catamnésticas de esquizofrênicos: eram em realidade pacientes de psicose degenerativa nos quais, apesar das cautelas clínicas, o diagnóstico aposto fora o de esquizofrenia, Kleist e Driest (10) dedicam um estudo especial a este tipo de erro diagnóstico, que certo figurará entre os mais freqüentes. De fato é fundamental evitá-lo, para que as terapêuticas recentes não tenham falseada a apreciação quanto à eficiência. E é felizmente viável consegui-lo. Mostram-no estudos de von Angyal (1) em relação à esquizofrenia periódica, de Leonhard (18m) em sentido geral, de Neele (23a) com referência a quadros hipercinéticos, de Schöder (28) quanto à psicose maníaco-depressiva e a esquizofrenia, de Silveira ao estudar terapêuticas de choque (32c, d, f) e ao discutir a orientação das classificações psiquiátricas (32i,j), de Speckmann em referência aos estados crepusculares episódicos (34).

 

Quadro 4 – Psicoses endógenas diatéticas isoladas por Kleist: Confronto com as endógenas constitucionais. Primeira classificação de Kleist 9j, traduzida em 1944 22h

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