CRONOFARMACOLOGIA
 
 
Revista: Diálogo Médico

Ano 15 - Nº 3 - Maio 2000
 
 











As drogas que respeitam os ritmos biológicos e da patologia

 
 
 
Depois dos Estados Unidos, Europa e Japão, chegou a vez de o Brasil descobrir as potencialidades de uma nova geração de medicamentos: os cronoterápicos. A diferença entre os remédios convencionais é que as novas drogas respeitam os ritmos biológicos do organismo e da patologia, o que os torna ainda mais eficazes. Desenvolvidos a partir da cronofarmacologia, eles somam a eficácia do combate e prevenção das doenças ao maior controle dos efeitos colaterais. Isto porque a liberação do fármaco respeita uma programação prévia, que leva em consideração os horários críticos da manifestação dos sintomas das doenças e as características rítmicas das funções do organismo (fisiológicas, bioquímicas e psicológicas).

Apesar de o mercado norte-americano já dispor de uma centena de medicamentos que obedecem à padronização cronobiológica – inclusive com as indicações técnicas na bula – ainda dá para contar nos dedos de uma única mão os remédios cronoterápicos disponíveis no Brasil. Endossando a qualidade das novas drogas, o Professor de Farmacologia do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo, Roberto DeLucia, garante que é apenas uma questão de tempo para que a novidade também esteja difundida por aqui, “Já estão mais que provados os benefícios destes remédios.”

A partir do mesmo princípio que demonstrou que todos os seres vivos respondem à ritmicidade ambiental (fenômenos geofísicos como as estações do ano, ciclos lunares, marés e o ciclo dia e noite), a cronofarmacologia estuda as variações rítmicas nos efeitos dos medicamentos.

O objetivo principal da ciência e estudar os processos de variação e os mecanismos relacionados, para entender melhor como ocorrem as alterações dentro do organismo.

Apesar de os conhecimentos sobre o fenômeno da ritmicidade ambiental e os seus efeitos nos organismos datarem dos primórdios da civilização, o pesquisador destaca que os primeiros registros científicos só surgiram nos últimos cem anos. Já o desenvolvimento científico e a aplicação na prática médica vêm ocorrendo há três décadas.


 
 
 
A farmacologia entende que, dependendo da hora do dia, o mesmo organismo pode ser bioquímica e fisiologicamente diferente.

- Os ritmos circadianos não ocorrem apenas ao nível basal, mas também na capacidade de o organismo reagir frente a estímulos ambientais. Essa resposta diferencial a um estímulo idêntico foi demonstrada para vários agentes, como, por exemplo, fármacos, toxinas, radiações e ruídos. Abrangentes, as áreas de pesquisa enfocam desde os efeitos dos fármacos como função do ritmo biológico e sobre as parâmetros da bioperiodicidade endógena até os perfis ritmos na administração programa do fármaco com finalidade de otimizar a sua eficácia clínica.

- A somatória dos conhecimentos sobre a variação rítmica do efeito do medicamento e da evolução da doença levou a uma nova linha de pesquisa, a cronoterapêutica. A partir daí, nós passamos a contar com medicamentos mais eficazes, com horário de administração programado e menos efeitos colaterais.

Além de determinar os níveis ideais de medicamento no sangue, a cronoterapêutica define o momento exato para a liberação da droga no organismo.

Exemplificando, o Prof. DeLucia cita os resultados positivos dos cronoterápicos no tratamento da hipertensão, no tratamento oncológico, dos distúrbios respiratórios, entre tantas outras patologias.

- A maior predisposição aos problemas cardíacos coincide com a ocorrência do aumento da pressão arterial e a alteração da coagulação sangüínea, que geralmente ocorrem no período entre seis e sete horas da manhã.

O uso dos cronoterápicos, que liberam o medicamento o organismo no início da manhã, tem se mostrado mais eficiente à terapêutica tradicional, com a administração de anti-hipertensivos no período noturno, compara o professor.

Quanto aos antineoplásicos, ele cita o limiar tênue entre o efeito terapêutico e tóxico dos remédios oncológicos, que provocam efeitos adversos em células sadias. E assegura:
- O médico pode ajustar a dose terapêutica administrando a medicação em determinados horários (início da manhã), intensificando o efeito antineoplásico e evitando os efeitos colaterais. Em casos de asma, cuja incidência de crises é maior durante a madrugada, é recomendada a programação da administração dos broncodilatadores no período noturno, numa ação preventiva, com doses menores, de ajuste durante o dia.

O Prof. DeLucia ressalta que as drogas cronoterápicas não diferem dos medicamentos convencionais quanto ao princípio ativo. “Apenas a formulação farmacêutica é modificada para liberação do medicamento num determinado horário, em condições ideais de absorção pelo organismo. Levando em consideração a variação rítmica que determina a maior eficiência da droga.”

Nos países onde os cronofármacos já estão difundidos, é comum a prática de um sistema terapêutico programado, quando o paciente recebe a medicação de acordo com as suas necessidades individuais.

 

"Os medicamentos são mais eficazes e têm menos efeitos colaterais" Prof. DeLucia
 
 
Mas apesar de tantas vantagens, que implicam até mesmo numa maior adesão terapêutica, o pesquisador adverte que não são todos os remédios que devem passar pela padronização cronobiológica.

- Nem sempre essas variações rítmicas são tão significativas (da ordem de 30%) para justificar a alteração da formulação farmacológica. O Prof. DeLucia lembra, entretanto, que os estudos cronobiológicos extrapolam a medicina e a farmacologia. As pesquisas repercutem nos diversos campos de atividade humana.

- O conjunto dos estudos cronobiológicos recentes – que já determinaram até mesmo os genes que controlam a ritmicidade dentro dos organismos – ocupou o segundo lugar no ranking das maiores descobertas (em número de trabalhos e achados relevantes) no período entre 1998 e 1999, de acordo com a revista Science, enfatiza o pesquisador.

 
 
As horas mais críticas
Asma – primeiras horas da madrugada, com pico às quatro horas

Artrite reumática – entre seis e oito horas da manhã

Hipertensão arterial – entre seis e sete horas da manhã

Infarto e derrame – nove horas da manhã

Dores crônicas – entre 21 e 23 horas

Úlcera e gastrite – entre 23 horas e uma da madrugada, com pico à meia-noite.