301.13 Transtorno Ciclotímico

Características diagnósticas

        A característica essencial do Transtorno Ciclotímico consiste em uma perturbação crônica e flutuante do humor, envolvendo numerosos períodos de sintomas hipomaníacos e numerosos períodos de sintomas depressivos (Critério A). Os sintomas hipomaníacos têm número, gravidade, abrangência ou duração insuficientes para a satisfação de todos os critérios para um Episódio Maníaco, e os sintomas depressivos têm número, gravidade, abrangência ou duração insuficientes para a satisfação de todos os critérios para um Episódio Depressivo Maior. Entretanto, não é necessário que os períodos com sintomas hipomaníacos satisfaçam os critérios de duração ou limiar dos sintomas para um Episódio Hipomaníaco. Durante o período de 2 anos (1 ano para crianças e adolescentes), quaisquer intervalos livres de sintomas não duram mais de 2 meses (Critério B). O diagnóstico de Transtorno Ciclotímico é feito apenas se o período inicial de 2 anos de sintomas ciclotímicos está livre de Episódios Depressivos Maiores, Maníacos e Mistos (Critério C). Após o período inicial de 2 anos de Transtorno Ciclotímico, Episódios Maníacos ou Mistos podem sobrepor-se ao Transtorno Ciclotímico, diagnosticando-se, neste caso, tanto Transtorno Ciclotímico quanto Transtorno Bipolar I. Da mesma forma, após o período inicial de 2 anos de Transtorno Ciclotímico, Episódios Depressivos Maiores podem sobrepor-se ao Transtorno Ciclotímico, diagnosticando-se, neste caso, tanto Transtorno Ciclotímico quanto Transtorno Bipolar II. O diagnóstico não é feito se o padrão de alterações do humor é mais bem explicado por Transtorno Esquizoafetivo ou está sobreposto a um Transtorno Psicótico, como Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação (Critério D), sendo que, neste caso, os sintomas de humor são considerados aspectos associados do Transtorno Psicótico. A perturbação do humor também não deve decorrer dos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (p. ex. droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral (p. ex. hipertireoidismo) (Critério E). Embora algumas pessoas possam funcionar particularmente bem durante alguns períodos de hipomania, deve haver, de modo geral, um sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes, em conseqüência da perturbação do humor (Critério F). O prejuízo pode desenvolver-se como resultado de períodos prolongados de alterações cíclicas e freqüentemente imprevisíveis de humor (p. ex., a pessoa pode ser considerada temperamental, “de lua”, imprevisível, inconsistente ou inconfiável).

Características e transtornos associados

        Características descritivas e transtornos mentais associados. Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos de Sono (i. é, dificuldade para conciliar e manter o sono) podem estar presentes.

Características específicas de idade e gênero.

        O Transtorno Ciclotímico freqüentemente começa cedo e às vezes é considerado um reflexo da predisposição temperamental para outros Transtornos do Humor (especialmente Transtornos Bipolares). Em amostras comunitárias, o Transtorno Ciclotímico aparentemente ocorre na mesma proporção entre homens e mulheres. Em contextos clínicos, as mulheres com Transtorno Ciclotímico podem estar mais propensas a buscar tratamento do que os homens.

Prevalência

        Os estudos têm relatado uma prevalência de Transtorno Ciclotímico durante a vida de 0,4 a 1%. A prevalência em clínicas para transtornos do humor pode variar de 3 a 5%.

Curso

        O Transtorno Ciclotímico em geral inicia na adolescência ou no começo da vida adulta. O início mais tardio do Transtorno Ciclotímico na vida adulta sugere um Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral, como esclerose múltipla. O Transtorno Ciclotímico em geral tem um início insidioso e um curso crônico. Existe um risco de 15 a 50% de que a pessoa desenvolva, subseqüentemente, um Transtorno Bipolar I ou Transtorno Bipolar II.

Padrão Familial

        O Transtorno Depressivo Maior e o Transtorno Bipolar II parecem ser mais comuns entre os parentes biológicos em primeiro grau de pessoas com Transtorno Ciclotímico do que na população em geral. Também pode haver um risco familial aumentado de Transtornos Relacionados a Substâncias. Além disso, o Transtorno Ciclotímico pode ser mais comum nos parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com Transtorno Bipolar I.

Diagnóstico diferencial

        O Transtorno Ciclotímico deve ser diferenciado de um Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral. O diagnóstico de Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral, Com características Mistas, é feito quando a perturbação do humor é considerada como a conseqüência fisiológica direta de uma condição médica geral específica, geralmente crônica (p. ex., hipertireoidismo). Esta distinção fundamenta-se no histórico, nos achados laboratoriais ou no exame físico. Caso se julgue que os sintomas depressivos não sejam conseqüência fisiológica direta da condição médica geral, então o Transtorno de Humor primário é registrado no Eixo I (p. ex., Transtorno Ciclotímico) e a condição médica geral é registrada no Eixo III. Isto ocorre, por exemplo, se os sintomas de humor são considerados como conseqüência psicológica de uma condição médica geral crônica ou se não existe um relacionamento etiológico entre os sintomas de humor e a condição médica geral.

       Um Transtorno do Humor Induzido por Substância é diferenciado do Transtorno Ciclotímico pelo fato de que uma substância (em especial estimulantes) está etiologicamente relacionada à perturbação do humor. As freqüentes alterações do humor sugestivas de Transtorno Ciclotímico em geral se dissipam após a cessação do uso da droga.

       O Transtorno Bipolar I, Com Ciclagem Rápida, e o Transtorno Bipolar II, Com Ciclagem Rápida, podem assemelhar-se ao Transtorno Ciclotímico em virtude das freqüentes e acentuadas alterações do humor. Por definição, os estados de humor no Transtorno Ciclotímico não satisfazem todos os critérios para um Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco ou Episódio Misto, ao passo que o especificador Com Ciclagem Rápida exige a presença de episódios de humor completos. Se um Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco ou Episódio Misto ocorre durante o curso de um Transtorno Ciclotímico estabelecido, aplica-se o diagnóstico de Transtorno Bipolar I (para um Episódio Maníaco ou Episódio Misto) ou Transtorno Bipolar II (para um Episódio Depressivo Maior), juntamente com o diagnóstico de Transtorno Ciclotímico.

        O Transtorno da Personalidade Borderline está associado com acentuadas alterações do humor, que podem sugerir um Transtorno Ciclotímico. Se os critérios são satisfeitos para cada um dos transtornos, podem ser diagnosticados tanto Transtorno da Personalidade Borderline quanto Transtorno Ciclotímico.


Critérios Diagnósticos para 301.13 Transtorno Ciclotímico

A. Pelo período mínimo de 02 anos, presença de numerosos períodos com sintomas hipomaníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos que não satisfazem os critérios para um Episódio Depressivo Maior.
Nota: Em crianças e adolescentes duração mínima de 01 ano.

B. Durante o período de 02 anos estipulado em A (01 ano para crianças e adolescentes), o indivíduo não ficou sem os sintomas do Critério A por mais de 02 meses consecutivos.

C. Nenhum Episódio Depressivo Maior, Episódio Maníaco ou Episódio Misto esteve presente durante os 02 primeiros anos da perturbação.
Nota: Após os 02 anos iniciais (01 ano para crianças e adolescentes) do Transtorno Ciclotímico, pode haver sobreposição de Episódios Maníacos ou Mistos (sendo que neste caso Transtorno Bipolar I e Transtorno Ciclotímico podem ser diagnosticados concomitantemente) ou de Episódios Depressivos Maiores (podendo-se, neste caso, diagnosticar tanto Transtorno Bipolar II quanto Transtorno Ciclotímico.

D. Os sintomas no critério A não são mais bem explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.

E. Os sintomas não se devem aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento) ou de uma condição médica geral (p. ex., hipertireoidismo).

F. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.