Teoria da Personalidade

Lucia Maria Salvia Coelho
Epilepsia e Personalidade

 

III.  "Estudo específico das funções psíquicas”

Utilizando sua extraordinária capacidade de síntese, só comparável àquela de Comte, Silveira construiu um esquema (quadro à página 54) que nos permite compreender melhor os aspectos estruturais e dinâmicos da personalidade. Na esfera afetiva distinguem-se dois grupos fundamentais de funções: os instintos e os sentimentos.

As funções básicas da afetividade são os instintos, ou conjunto de funções que estimulam todo o contato do indivíduo com a realidade externa, e basicamente mantêm a sobrevivência individual e da espécie. Os instintos correspondem ao correlato subjetivo das funções fisiológicas básicas, das quais depende a sobrevivência física do indivíduo. Portanto, são funções subjetivas que não diferem das outras funções afeavas, a não ser quanto ao fato de se relacionarem fundamentalmente com a individualidade, enquanto que as outras regem relações com o ambiente físico e social.

Tinbergen (27) considera os instintos como mecanismos nervosos, hierarquicamente organizados, ligados a impulsos específicos, inatos, que os nutrem, desencadeiam e dirigem e que respondem a tais estímulos, com movimentos coordenados que contribuem para manter o indivíduo e a espécie. O autor distingue dois tipos de fatores responsáveis pela manifestação, em nível de comportamento, de impulsos instintivos: os internos e os externos. Na maioria das vezes, ambos atuam conjuntamente e se influenciam mutuamente. As funções intrínsecas instintivas determinam o limiar de reação e a modalidade geral das respostas aos estímulos externos. Por sua vez, os fatores externos — ou estímulos signos — não são elementos isolados, mas estruturas complexas de natureza configuracional, as quais despertam e estimulam a expressão das necessidades internas.

Como observa Lorenz (12), os instintos são concepções abstratas. Apenas podemos apreciar o resultado de seu funcionamento, que se exterioriza como comportamento instintivo. E Viaud (15) nos faz notar que as distinções feitas entre comportamento inteligente, comportamento instintivo e hábito, decorrem de um trabalho de análise. Porém, não são noções arbitrárias, pois que correspondem a fenômenos objetivamente observáveis.

Os instintos estão sempre ativos, desde o nascimento até a morte do indivíduo, e traduz-se de modo diverso conforme a fase de amadurecimento do ser, no caso humano, e de acordo com as circunstâncias. Ainda sob este aspecto, as verificações de Tinbergen coincidem com as concepções da teoria que adotamos. Assinala o autor que todo mecanismo instintivo se acha constantemente preparado para entrar em ação. Apenas se subordina a condições externas e funciona harmonicamente devido à existência de mecanismos de bloqueio que impedem o indivíduo de executar movimentos contínuos e caóticos. Embora as funções instintivas mantenham uma relativa independência na dinâmica subjetiva, para se expressarem como "comportamento instintivo" elas necessitam do concurso das funções conativas e das intelectuais. Comte já fazia ver que a idéia de fixidez das atividades dos mamíferos e das aves ao construir habitação ou ao efetuar a caça, ou ainda no modo de migração, não existe senão para os naturalistas de gabinete e para os observadores desatentos. "Todos os atos instintivos, afirma Audiffrent, supõem uma certa participação das faculdades mentais, por mais reduzida que seja. Além disso, a própria ação da hereditariedade pode modificar as disposições instintivas" (3 — p. 104). Portanto, ao mesmo tempo em que o indivíduo apresenta necessidades básicas, instintivas, inconscientes e por vezes contraditórias, ocorre uma reação intelectual que busca o controle e a adaptação de tais impulsos à realidade externa.

McDougalI descreveu uma série exagerada de instintos, exatamente por não fazer a devida distinção entre instinto e comportamento instintivo. Este último resulta do primeiro, porém sua expressão é orientada pelas diferentes funções psíquicas, principalmente as intelectuais.

Quadro I - Estrutura e Dinâmica da Personalidade

Adaptação da esquematização em 17-03-1966 (A.S.)

O instinto básico indispensável à sobrevivência individual é o nutritivo. Está ligado a todo o processo metabólico do organismo, inclusive do próprio cérebro considerado como víscera. O instinto nutritivo centraliza e dirige todo esse metabolismo visceral, todas as trocas bioquímicas. Tal fenômeno biológico de assimilação e de desassimilação, isto é, de renovação celular, existe em todo o ser vivo, mesmo vegetal. Entretanto, não denominamos instintos às

atividades nutritivas dos vegetais e de seres inferiores, pois se limitam ao nível celular. Já, nos animais que dispõem de sistema nervoso, tais funções nutritivas se subordinam a uma estrutura nervosa especial, bem definida, que oferece, além disso, um correlato subjetivo: a este denominamos instinto nutritivo, segundo a doutrina de Comte. A organização do indivíduo decorre do instinto nutritivo desde a sua fase embrionária; ao mesmo tempo, estimula todo o trabalho psíquico, afetivo, ativo e intelectual. "O instinto nutritivo que rege toda a integração vegetativa, afirma Silveira, não poderia estar ligado diretamente ao mundo visceral: toma-se necessária à existência de aparelhagem intermediária, autônoma de certa forma, entre aquele instinto e as vísceras. Juntamente com o da nutrição, o instinto de conservação da espécie (sexual) representa o conjunto inferior, hierarquicamente, do grupo da individualidade: dirige a maturação, depois o dinamismo das glândulas sexuais em sentido lato" (24 — p. 232).

O instinto sexual depende já da diferenciação entre os sexos, portanto, não é peculiar a toda série zoológica. Num ser rudimentar, a propagação se faz por cissiparidade, que ocorre em todo o protoplasma — daí não ser necessária a centralização desta atividade em um determinado órgão.

O instinto sexual só preside a sua função de reprodução quando o indivíduo amadurece geneticamente. Até esta fase, o instinto sexual é responsável pela maturação dos órgãos correspondentes. É uma modificação do instinto nutritivo, num sentido mais especial de definir as características do sexo. Portanto, não é apenas a atividade sexual que caracteriza o instinto sexual, mas sim a preparação para esta fase que precede de muito a função sexual genital, própria do adulto.

Lorenz e colaboradores (12) referem-se à possibilidade de o ato instintivo entrar em função, antes do amadurecimento do órgão correspondente. Em relação ao instinto sexual, já encontramos sua expressão desde o início da vida do indivíduo, antes que atinja a maturidade necessária para exercício de sua função reprodutora. Comte já havia assinalado tal fato e, posteriormente, Freud nele se fundamenta para desenvolver sua teoria sobre a evolução da libido, no processo de desenvolvimento ontogenético.

Em suma, o instinto sexual e o de nutrição são básicos e peculiares a todas as espécies vivas mais diferenciadas, particularmente na série dos vertebrados. O nutritivo atua continuamente na vida do indivíduo e apenas cessa com a sua morte. O sexual permite a reprodução e perpetua a espécie. Estes instintos estão sempre em atividade, estimulando as demais funções psíquicas e se exprimem de modo diverso, conforme o nível de amadurecimento do indivíduo considerado.

O processo nutritivo será a base para o desenvolvimento do próprio sistema nervoso e, portanto, das funções psíquicas correspondentes. Em cada fase do desenvolvimento do indivíduo, o instinto nutritivo interfere de modo sempre mais complexo. Até o nascimento, temos o aspecto puramente visceral, instintivo. Em seguida, ainda no período fetal, ocorre uma associação do instinto nutritivo ao instinto sexual, no sentido de amadurecimento dos órgãos sexuais, que determinarão as características sexuais primárias e secundárias. Ao mesmo tempo, o instinto nutritivo participa da assimilação dos estímulos externos e permite o estabelecimento dos primeiros nexos com o ambiente: nas primeiras fases, o recebimento do alimento, e posteriormente o domínio dos esfíncteres, permitem à criança a formação de nexos emocionais entre a satisfação das necessidades alimentares e a presença de adultos ou de determinados estímulos do ambiente. Então, ao mesmo tempo em que o indivíduo tem reações instintivas não-conscientes, não-Iógicas, que o impelem a agir em busca de satisfação, ocorre uma reação intelectual, que permite correlações específicas de estímulos e resultados. Estes nexos não atingem ainda o nível de abstração, porque as áreas cerebrais correspondentes não estão completamente amadurecidas. Mas, a partir destas noções primárias, o ser humano desenvolverá, futuramente, relações interpessoais mais diferenciadas.

O instinto materno ou de posse corresponde a um nível de diferenciação em relação aos dois instintos anteriores. Por estar ligada de modo apenas indireto com o instinto nutritivo, esta função apresenta maior dependência aos fatores dó ambiente externo. Assim, a expressão do instinto de posse varia conforme o nível de amadurecimento do indivíduo e de acordo com as ligações que ele estabelece com o meio físico e social.

Este instinto pode ser definido em seu aspecto mais amplo como uma ligação afetiva intensa mantida pelo indivíduo em relação aos produtos que dele emanam; quer estes produtos sejam de natureza propriamente fisiológica, quer eles resultem de uma elaboração emocional.

A expressão mais evidente e afetivamente mais importante deste instinto é a que corresponde à ligação entre a mãe e o produto da concepção, especialmente intensa nas primeiras fases de desenvolvimento do recém-nascido. Este instinto acha-se especialmente desenvolvido entre os vertebrados e se traduz de modo especialmente complexo no ser humano.

Embora o instinto materno ou de posse se tome mais amante durante a fase de gravidez e logo após o parto, não é exclusivo do sexo feminino, nem a sua ação fica limitada a este período em que os genitores intervêm de modo mais direto na preservação da existência de um ser humano ainda indefeso e dependente. Como as demais funções, este instinto pode manifestar-se de modo diverso conforme a fase de amadurecimento do indivíduo e conforme o seu caráter.

Em relação à expressão do instinto de posse como "instinto materno", verificamos que os etólogos estudam especificamente o comportamento a ele ligado, caracterizando-o como "cuidado à prole”. Eles observam as características específicas que assume este comportamento em cada espécie animal.

Entretanto o instinto de posse não encontra sua expressão apenas na situação de maternidade. Seu significado mais amplo é o de apego aos objetos e aos fatos e ainda aos produtos que emanam do próprio organismo. Mesmo a noção da própria identidade subjetiva resulta em grande parte da ação conjugada deste estímulo instintivo.

Nas primeiras fases de desenvolvimento ontogenético, o instinto de posse estimula o interesse da criança pêlos próprios excretos. Considera-os como parte de seu próprio organismo. Tal interesse coincide com a necessidade individual de dominar o ambiente e de afirmar-se diante dos demais. Os nexos emocionais e as fantasias primárias que poderão se originar deste processo de busca de conhecimento de si próprio e do ambiente imediato — e que resulta da expressão predominante mas não exclusiva do instinto de posse — foram estudados pela psicoanálise. Freud denominou este período de desenvolvimento de “fase anal”, entretanto, ao contrário do que postula a teoria de Comte, ele considerou as reações da criança nesta fase como expressão do instinto sexual. Freud não leva em conta o processo subjetivo associado ao instinto de posse, nem a participação indispensável das funções intelectuais no estabelecimento destes nexos primários.

Nesta fase da primeira infanda o instinto de posse traduz ainda uma grande carga de individualidade e acha-se, portanto, ligado a necessidades afetivas primárias e a processos intelectuais ainda imaturos. Mas, desde então esta expressão instintiva Já se associa ao apego e à necessidade de domínio resultando em uma expressão dinâmica da exploração do ambiente — por exemplo: traduzida no comportamento da criança em apanhar tudo que encontra ou colecionar objetos — e mesmo da curiosidade intelectual e da tendência em construir seus próprios objetos e concepções. Essa curiosidade e iniciativa não são de ordem basicamente sexual como pretendia Freud, mas antes refletem a participação harmônica das funções afetivas básicas e das primeiras expressões adequadas do processo intelectual.

Sullivan (25) correlaciona as funções aqui chamadas da individualidade à busca de satisfação, peculiar ao ser humano. Consiste esta em uma reação às necessidades primárias biológicas de alimento, de sono e de repouso. Para Sullivan, a busca de satisfação tem uma representação fisiológica pelo aumento do tonus de alguns músculos lisos, ao passo que a obtenção de satisfação resulta em relaxamento do tonus.

Através do método subjetivo que instituiu, Comte verificou a ocorrência de dois grupos de funções psíquicas que seriam intermediárias entre os instintos básicos e os sentimentos propriamente ditos. Silveira desenvolveu o significado destas funções baseado em seus conhecimentos da teoria de Comte e das teorias psicológicas atuais e na experiência clínica. Como veremos, estas funções foram igualmente identificadas por autores contemporâneos, embora sistematizadas de modo diferente. Em uma teoria da personalidade, toma-se indispensável reconhecer as tendências humanas fundamentais, isto é, que sofrem apenas ligeiras modificações nas diferentes culturas. Reconhecemos que tal possibilidade de generalização é limitada, pois o homem como ser social sofre necessariamente, no desenvolvimento das formas de comportamento, a influência do ambiente onde vive: as necessidades subjetivas básicas dão origem a modos cada vez mais complexos de atividade, o que dificulta a identificação daquelas funções primárias da personalidade. Porém, o método patológico 'e a observação sistemática dos fenômenos psíquicos permitem estabelecer quais são elas. Tal sistematização foi realizada originalmente na teoria de Comte, alicerçada na Sociologia e apoiada nos conhecimentos da época. Freud criou outra teoria, sem conhecer os trabalhos de Comte, mas cujos dados podem reduzir-se às diretrizes positivistas, como argumenta Wolmann (28). No plano clínico e mais recentemente, os estudos de Silveira e de Angyal são de molde a confirmar a teoria positivista. No grupo de funções básicas, consideram-se a seguir as relativas à destruição e à construção. Estas representam apenas um nível mais diferenciado do processo de assimilação e de desassimilação, ligado ao instinto nutritivo. Aqui, já o comportamento instintivo vai determinando um registro de contato com o ambiente, mas desprovido de cognição, através do qual se vão estabelecendo nexos simbólicos. Prevalecem então, no comportamento explícito, nesse período, as tendências à destruição c, ulteriormente, à construção. Tais dinamismos não se excluem mutuamente, nem ao comportamento resultante do instinto nutritivo. É a fase em que o ser humano desenvolve tendência a destruir objetos do ambiente, inicialmente com os dentes e em seguida com as mãos. O período em que predomina o impulso de destruição é concomitante ao aparecimento dos dentes. Corresponderia à fase oral agressiva, descrita por Freud. Porém, destruir não implica propriamente em agredir, mas consiste apenas em um meio mais rudimentar de a criança contatar o ambiente. Ao mesmo tempo em que morde o seio materno ou os objetos que leva à boca, apreende a reação dos adultos ou do ambiente imediato. Deste modo, associa ao resultado dos impulsos as reações específicas do mundo externo. Nesta fase, é possível que a criança desenvolva fantasias ligadas a este tipo de adaptação, porém o conteúdo destas fantasias não pode ser comunicado pela criança: apenas através de hipóteses é possível inferir a natureza dessas reações.

Com o desenvolvimento simultâneo da coordenação motora e das funções intelectuais, a criança toma-se capaz de reunir os diversos elementos do ambiente, segundo uma concepção primária e subjetiva ainda, porém Já simbólica. A tendência para a construção manifesta-se, assim, através das atividades lúdicas e das primeiras conexões cognitivas intencionais. Ademais, o impulso para a construção predomina sempre nas elaborações e na atividade do indivíduo, desde esta fase de seu desenvolvimento. Se isto não ocorresse, seria impossível a evolução do ser humano na acepção de integração pessoal, no plano gregário.

Angyal assinala a tendência para a construção como resultado dos impulsos fundamentais do ser humano, distinguindo aí dois tipos, aos quais denomina impulso para a ação e impulso para a exploração. O primeiro resulta na tendência a fazer coisas, a provocar situações pela mera satisfação de perceber a si mesmo como a causa de tais mudanças. Estas atividades podem ser observadas já na criança pequena: "Ela manifesta grande movimentação, independentemente de finalidades objetivas". Com o desenvolvimento, este tipo de atividade é substituído por manifestações significativas e úteis (1), Este impulso foi igualmente assinalado por Schachtel, que, utilizando concepções diversas e independentes das de Comte, de Silveira e de Angyal, chega fundamentalmente às mesmas conclusões. Em metamorphosis (18), o autor desenvolve um estudo interessantíssimo sobre as diversas fases de desenvolvimento humano. Menciona aí, de modo análogo a Angyal, a tendência da criança a agir no ambiente e, através de sucessivas destruições e construções, a alcançar uma adaptação positiva, não necessariamente associada a uma simples busca de satisfação das necessidades biológicas primárias. Denomina estes primeiros contatos desenvolvidos pela criança com o ambiente de afeio de atividade (activiíy-affect). Os autores que mencionamos, inclusive Silveira, assinalam que estas tendências básicas permanecem durante toda a vida do indivíduo.

Ainda relacionado à tendência para a construção, embora, no caso, associada à função intelectual, Angyal atribui ao impulso para a exploração: "Curiosidade, empenho em conhecer e explorar o mundo. / ... / Apreender as propriedades dos objetos e as leis que regem os vários fenômenos, de modo a obter uma base eficiente para a predição. Na medida em que se obtém uma informação, imediatamente o indivíduo busca as suas regularidades, tenta simplificar e reduzir os fatos, de modo a construir novas concepções" (l — p. 220). Reconhecendo, embora, o papel da inteligência neste tipo de atividade, Angyal lhe assinala como base mais geral a afetividade. De modo análogo. Silveira, no trabalho sobre os sistemas cerebrais (23), aponta a natureza afetiva das funções de destruição e de construção. E ainda estabelece como base necessária para a elaboração indutiva a construção, enquanto a dedução se acha relacionada com a destruição.

Já num plano mais diferenciado e, portanto, mais dependente das relações interpessoais, encontramos duas funções que não são propriamente instintos, mas sim tendências básicas humanas, que se manifestam apenas através de relações interpessoais. Estas funções correspondem à necessidade de domínio e à necessidade de aprovação. Adotamos o termo "necessidade" em lugar de "tendência", apenas para assinalar o caráter mais diferenciado destas funções e, ao mesmo tempo, o fato de representarem elas a base essencial para a auto-afirmação do indivíduo, nas relações interpessoais mais complexas. Assim, gradativamente, a criança vai sentindo necessidade de dominar o ambiente, o comportamento dos demais, de modo a obter plena satisfação e segurança. A criança percebe que os estímulos externos são variáveis enquanto que ela própria se sente como mais estável. Tal reação corresponde a um dinamismo emocional que decorre da repercussão da noção do ambiente na função afetiva caracterizada como "orgulho" e que colabora para o desenvolvimento da identidade psicológica.

A teoria freudiana assinala este aspecto ao se referir à fase anal de desenvolvimento. Angyal refere-se à necessidade de domínio como impulso para a superioridade: "...tendência a dominar, não apenas o ambiente, mas os outros. Esta tendência raramente ocorre em sua forma pura. As relações interpessoais envolvem uma grande variedade de tendências, porém, o impulso para dominar é um aspecto bastante comum no comportamento interpessoal" (1 — p. 219-20). E em seguida afirma: "A tendência à auto-expansão é egocêntrica em relação ao mundo. Corresponde, grosso modo, ao que se denomina habitualmente desejo de poder ou agressão. Em sua manifestação, acha-se sempre acentuada a individualidade" (1 — p. 221).

Silveira relaciona a necessidade de poder, ou orgulho, como definiram Comte e Audiffrent, com a tendência para a destruição e, num plano ainda mais básico, com o instinto nutritivo (ver sistemas cerebrais). Estabelece ainda que esta tendência estimula sempre a atividade humana, desde principalmente as primeiras fases de adaptação ao ambiente. Mas, por outro lado, a forma de exprimir-se depende dos valores e dos padrões culturais de comportamento que poderão estimular ou reprimir-lhe as manifestações. No plano intelectual, a necessidade de poder irá estimular a observação abstraia e a elaboração dedutiva. Já no plano conativo a função diretamente estimulada pela necessidade de poder é a iniciativa ou coragem.

Angyal refere-se à importância da necessidade de poder como estímulo para o indivíduo analisar os fatos e adquirir conhecimentos (1). Sullivan refere-se a essa necessidade, à qual liga a luta biológica da criança, que se sente impelida a expandir-se no ambiente, a desenvolver suas próprias capacidades. Tem origem nas primeiras experiências frustradoras que impedem a criança de dominar, não apenas o ambiente, mas os outros. Esta tendência como fundamental ao ser humano, para que possa desenvolver as próprias características de indivíduo social (25).

À medida que se amplia o círculo de relações humanas, a criança, para sentir-se segura e adaptada, necessita de ser aceita pelo grupo. Desenvolve seu comportamento de modo a obter aprovação dos demais. Esta necessidade, que basicamente é egoísta, irá presidir a concepção dos futuros papéis sociais adotados pelo indivíduo. E as próprias condições a ele impostas dependem das características peculiares à seriedade em que vive. Assim, a necessidade de aprovação sempre está presente no ser humano, nas diferentes fases de desenvolvimento e nas diferentes culturas. O desempenho dependerá da dinâmica da personalidade subjetiva do indivíduo e, por outro lado, da cultura em que vive.

Esta necessidade fundamental para o desenvolvimento das funções de sociabilidade foi relacionada por Silveira à tendência para a construção e, em nível mais básico, aos instintos de conservação da espécie. No plano da atividade explícita, a necessidade de aprovação, ou vaidade, como função psíquica subjetiva, determina a moderação dos impulsos; e no plano intelectual estimula a observação concreta das situações e a elaboração indutiva (23).

Na época em que prevalece a necessidade de aprovação, a criança ainda não desenvolveu a capacidade de abstração, necessária para assimilar globalmente os padrões sociais de comportamento. Tal processo só ocorrerá em fases ulteriores do desenvolvimento: a partir da observação concreta das experiências, ela apenas apreende as maneiras práticas que lhe favorecem a aceitação pelo grupo. Angyal observa que o comportamento das pessoas é norteado, em grande parte, pelo desejo de não desapontar os outros: "Podemos ter vontade e mesmo necessidade de mudar o nosso curso de vida, mas freqüentemente não o fazemos, temendo aquilo que os outros poderão pensar. Não desejamos desapontar as pessoas em suas expectativas a nosso respeito" (1 — p. 236). Ele ressalta, como também o faz Silveira, a influência social sobre a expressão desta necessidade: "o desejo de ser apreciado e reconhecido pelos demais, de ter boa reputação, de obter adaptação social, é apenas parcialmente motivado pela necessidade de poder. Ele implica também na apreciação dos valores sociais" (1— p. 223).

No grupo das funções de sociabilidade, as reações afetivas que apenas resultam da relação entre indivíduo e ambiente, manifestando-se exclusivamente através de relações interpessoais são denominadas por Silveira de sentimentos, por expressarem os modos de o indivíduo sentir o ambiente. A distinção entre instintos e sentimentos foi esclarecida por Audiffrent: "Os sentimentos estão sempre a serviço da sociabilidade, não atingem seu pleno desenvolvimento senão no plano social. Os atos provocados pelos sentimentos nunca possuem o caráter regular e quase mecânico encontrado nas atividades determinadas pelos instintos, os quais não são habitualmente orientados pelas funções intelectuais" (18 — p.103-04).

O setor de personalidade que permite a modificação, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento do indivíduo, é o da sociabilidade. São três as funções subjetivas que o integram, às quais Comte qualificou como sentimentos simpáticos. Estas funções estabelecem mais adequadamente a correlação entre o indivíduo e o meio em geral, principalmente o ambiente social.

Evidentemente, a própria natureza intrinsecamente interpessoal dos sentimentos, e portanto sua maior complexidade, dificulta o estudo específico de cada uma das funções de sociabilidade. Em plano mais geral, podemos apreciar apenas os diferentes níveis de adaptação social do indivíduo ao ambiente. A relação interpessoal básica e primária, que a criança estabelece em suas primeiras experiências com o ambiente social, tem um cunho ainda individual. Ela somente mantém uma ligação afetiva ao assimilar os vários aspectos dos estímulos exteriores que se relacionam diretamente com o instinto nutritivo. Logo, é o instinto nutritivo que rege o comportamento da criança, na fase inicial, embora estimulado por uma reação afetiva Já mais ligada e subordinada ao ambiente. As primeiras noções da realidade caracterizam-se por estes impulsos básicos, os quais, desse modo, influenciarão todo o comportamento futuro do indivíduo, manifestando-se em diferentes níveis objetivos e subjetivos.

Os primeiros contatos sociais do indivíduo com o ambiente apresentam uma grande carga de individualidade. Esta ligação não é orientada intelectualmente, mas depende da reação afetiva da criança, de seu interesse imediato, de suas sensações de prazer e desprazer. Nesta época, ela se apega principalmente à mãe, cuja figura não é percebida como um conjunto, como ser autônomo. Somente é sentida como fonte de satisfação — que lhe proporciona sensações tácteis agradáveis, alimento e calor. Comte e Silveira denominam esse sentimento básico de apego, e estabelecem sua relação para com a tendência à construção — a qual, aliás, está ligada a todas as funções de sociabilidade — e para com o instinto sexual. Em períodos ulteriores, e diante de uma situação de conflito ou quando a criança sente-se incapaz de enfrentar a situação imediata, o sentimento de apego passa novamente a predominar e ela busca a proteção da mãe ou de pessoas com as quais ela possui uma ligação afetiva mais intensa. Nesta fase, o apego pode expressar-se através do instinto de posse, e o estabelecimento das relações interpessoais é ainda rudimentar, indefinido intelectualmente mas que se acompanha de intensa carga afetiva.

Suilivan atribuí o qualificativo empatia a estes sentimentos básicos do ser humano. Desde o nascimento, o bebê demonstra uma relação específica com o adulto significativo (mãe ou ama). Se, por exemplo, a mãe não havia desejado ter esse filho, o pediatra encontrará, geralmente,- dificuldades relacionadas com a sua alimentação. Ou, no caso de ser a mãe extremamente ligada ao filho, de estar muito preocupada com algum acontecimento durante o instante em que o amamenta, o bebê ficará igualmente tenso, denotando dificuldade em alimentar-se adequadamente. Por outro lado, Suilivan assinala o caráter recíproco das relações pessoais, mesmo as mais básicas. Nota que a própria expressão de satisfação da criança ao ser alimentada acarreta satisfação e bem-estar aos pais. E, em decorrência deste vínculo empático, a reação dos pais à satisfação da criança comunica-lhe uma sensação de bem-estar que mais tarde será relacionada com a necessidade de poder. Suilivan afirma: "De modo geral, sabemos que existe um vínculo emocional entre o bebê e o adulto, significativo. E 'empatia' é o termo que usamos para caracterizar este vínculo peculiar entre a criança e a mãe. Muito antes de se registrar qualquer sinal de compreensão da expressão emocional, existem provas deste contágio ou desta comunhão afetiva. E tal nexo de configuração mãe—filho é de extrema importância para a compreensão de condicionamento cultural ou de incorporação à cultura. / ... / A   época em que a 'empatia' assume a maior predominância é entre os seis e sete meses de idade" (25 — p. 16-17).

No adulto, este sentimento de apego poderá manifestar-se através da ligação afetiva mais intensa que ele poderá ter com as pessoas, os lugares e mesmo os objetos. Por estar mais diretamente ligado às tendências instintivas, o apego revela uma natureza mais conservadora e egocêntrica. Comte estabelece que esse tipo de relação afetiva com o ambiente está ligado também, no plano da individualidade, àquele instinto a que denominou de posse ou materno. Assim, este vínculo que se estabelece, em nível de sociabilidade entre o indivíduo e determinados aspectos do ambiente, depende necessariamente das primeiras experiências emocionais da criança. Angyal, referindo-se à permanência deste sentimento básico no indivíduo adulto, observa: "Podemos permanecer em um local onde vivemos durante longo tempo, onde passamos a infância, ou que tenha pertencido a nossos ancestrais, mesmo que seja mais prático e útil afastarmo-nos desta localidade. Mantemo-nos, neste caso, ligados a este lugar devido a uma relação homônoma emocional de apego" (2 — p. 224). Note-se que o autor utilizou, para caracterizar o sentimento básico de ligação com o ambiente, o mesmo termo que foi adotado por Comte:   apego (attachement).

Em nível mais diferenciado de desenvolvimento individual, o sentimento do apego se combina com os sentimentos mais diferenciados socialmente, perdendo assim o seu caráter predominantemente individual e irracional.

À medida que amadurecem as funções conativas e intelectuais   e se ampliam as relações interpessoais da criança, ela se torna capaz de assimilar as normas mais gerais do grupo em que vive. Deste modo, ela se socializa através de sentimentos, já mais diferenciados do que os relacionados ao apego. A tendência a compartilhar, a pertencer a uma unidade mais ampla, supra-individual, que é subjacente às diversas manifestações do comportamento humano, assume características diversas segundo o tipo de relação interpessoal considerado: identificação com o grupo, lealdade à família, submissão a valores sociais, éticos, religiosos. Este sentimento representa uma evolução mais completa e ampla da simples necessidade de aprovação: já exige á elaboração lógica e a continuidade dos propósitos. Comte denominou a este sentimento veneração, Freud implicitamente o considera na concepção de superego, e Angyal igualmente o reconhece como básico ao ser humano, designando-o como tendência à harmonia. Para que ocorra a plena integração da criança à sociedade, é necessário que ela assimile gradativamente os valores e os papéis dos adultos, e construa modelos idealizados de comportamento, aos quais se identifica de modo a nortear o futuro comportamento social. Lembra-nos Angyal: "Na criança, o desejo de se tomar adulto manifesta-se de diversas maneiras. A maioria dos jogos infantis consiste na imitação das atividades dos adultos: brincar de soldado, de médico, de professor. /.../ Certas atividades proibidas aos jovens e que deste modo se tornam o símbolo da idade adulta, tais como fumar, beber, ter relações sexuais, vestir-se de certo modo, são especialmente atraentes para os adolescentes" (2 — p. 233-34). E ainda postula o autor: “A formação do ‘eu Ideal decorre de uma série de identificações sucessivas. A conformidade entre as ações e os ideais de comportamento constitui  fundamento para o auto-respeito" (2 — p. 253). Porém, quem desenvolveu especialmente o estudo deste processo de adaptação social, após os trabalhos de Jung, foi G. H. Mead. Este autor estabelece como distinção entre o ser humano e o indivíduo social o que ele denomina persona. A persona resulta da simbolização de relações interpessoais que atingem um nível mais amplo e complexo, através das quais o homem assimila os valores sociais como um todo e percebe os demais indivíduos segundo os papéis sociais que desempenham, isto é, como o outrem generalizado. Assim, Mead considera em suas formulações teóricas, como elemento primordial para a formação da própria imagem autoconsciente, ou persona, a assimilação e a adoção de papéis das pessoas que integram o círculo familial, por parte da criança. Desde o nascimento, a criança encontra-se em um ambiente sócio-cultural específico: pertence a uma determinada cultura, a uma classe social, a uma determinada época histórica. Os papéis que irá assimilar serão aqueles oferecidos pelo ambiente em que vive. Inicialmente, a ligação afetiva refere-se às relações familiais — como sentimento de apego — e posteriormente identifica-se de modo mais amplo com os valores sociais. As experiências essenciais ao desenvolvimento desse processo são consideradas por Mead os brinquedos e os jogos: "Brincando, a criança imita as reações dos adultos — posturas, tons de voz, comportamentos. Ela brinca com um companheiro imaginário, de modo que adota diferentes papéis. Então ela diz algo ao representar um papel e em seguida responde de acordo com o outro papel, mantendo consigo mesma uma conversação. Deste modo inicia-se a estruturação das reações básicas que poderá provocar em outras pessoas e em si mesma" (13 — p. 180-81). No jogo, já existem regras que consistem, em última análise, numa série de reações com um padrão geral: "No jogo, a criança deverá aprender os possíveis modos de reação dos outros, de maneira a adequar o próprio comportamento às situações que surgem. O jogo apresenta, portanto, um passo a mais no desenvolvimento da criança" (13 — p. 182). A diferença fundamental entre o jogo e o brinquedo é que, no primeiro, a criança deve adotar a atitude de todos os demais participantes na ação. As atitudes, que em cada fase do jogo os parceiros devem assumir, organizam-se em uma espécie de sistema e, neste caso, será o conjunto de regras o que irá reger o comportamento individual (13—p. 183-84).

Desse modo, para que o processo de adaptação social se realize plenamente — segundo a concepção de Mead — não é suficiente que o indivíduo adote simplesmente a atitude dos demais. É mister que ele assimile o caráter geral das relações interpessoais: as atitudes dos outros entre si e para com ele mesmo. E também que ele adote atitudes adequadas às características da situação social em que se encontra. Para tanto, torna-se necessário subordinar-se aos valores grupais como um todo: "A comunidade ou o grupo social organizado é que proporciona ao indivíduo a sua unidade como persona. A atitude do outro generalizado é a atitude subjacente a toda a comunidade" (13 — p. 184). De modo análogo ao que se passa com os demais sentimentos, a veneração — que implica em um processo contínuo de socialização — se traduz de modo diverso conforme a fase de desenvolvimento ontogenético. Assim, de início, ela se apresenta como submissão aos valores do ambiente e como imitação de modelos socialmente impostos. Com a evolução do indivíduo, o sentimento de veneração já supõe uma atividade crítica no processo de seleção e de assimilação dos valores grupais.

Graças ao desenvolvimento das capacidades intelectuais e ativas e ao amadurecimento das relações interpessoais afetivas, o indivíduo poderá desempenhar papéis sociais mais complexos. A partir daí ele se toma um membro social consciente de si mesmo e da comunidade à qual pertence. Os dois níveis de adaptação afetiva do indivíduo ao ambiente são ao mesmo tempo aferente e eferente. Ao mesmo tempo em que assimila os dados do ambiente, reage de modo peculiar a estes estímulos. Mas, após iniciar a integração mais diferenciada no ambiente social — através da assimilação de seus valores — o indivíduo poderá desenvolver a auto-afirmação e expressar plenamente a capacidade criadora. Só então será realmente capaz de dar de si espontaneamente, pouco ou nada exigindo do ambiente. Nesta fase de desenvolvimento, o ser humano está mais amadurecido emocionalmente e relaciona-se com um círculo social mais amplo.

Quando o comportamento humano é determinado exclusivamente pela necessidade de domínio e mesmo pela de aprovação, a atitude para com os outros assume um. feitio de meios e fins. No momento, porém, em que o indivíduo considera os outros companheiros, ou co-participantes em uma realidade mais ampla, outra característica humana se manifesta — o amor. A natureza básica do amor consiste em reconhecer o valor e em aceitar e respeitar os sentimentos do ser amado. Em relação a este sentimento mais nobre, embora mais dependente, entre as funções da afetividade — ao qual Comte denomina bondade — Angyal faz algumas considerações: "O amor tem sido reconhecido como uma atitude humana básica, que é plenamente distinta e irredutível a outras tendências de auto-afirmação humana. /... / O reconhecimento e aceitação das características da pessoa amada implicam também em compreendê-las. Os componentes básicos do amor são a compreensão e a igualdade. Para se amar é necessário sair de dentro dos limites da própria individualidade. É preciso partilhar os sentimentos com o outro" (2 — p. 133-34).

Este sentimento Já se manifesta em fases mais precoces ao desenvolvimento individual — a criança revela uma tendência espontânea em expressar seu amor aos demais. Além disso, este sentimento atua de modo indireto na evolução dos sentimentos mais básicos, e na própria expressão intelectual e nas disposições conativas. Neste sentido, este sentimento altruísta estimula o próprio progresso científico e social do ser humano.

Quando a bondade não se desenvolve suficientemente em decorrência de uma deficiência no processo de integração psicossocial, a dinâmica de personalidade se traduz através da predominância de sentimentos menos evoluídos ou mesmo, de necessidades afetivas de ordem mais primária — caracterizando o comportamento psicologicamente imaturo do ser humano.

Deste modo a bondade é a função afetiva que estabelece o contato mais direto com o meio externo, e de modo mais geral e fecundo. A bondade e o instinto nutritivo representam os pólos extremos do interesse, respectivamente em relação ao ambiente social e em relação ao meio biológico interno. Os três órgãos das funções de sociabilidade ligam-se apenas de modo indireto com a vida nutritiva, através de suas relações com as funções da individualidade.

O que unifica a personalidade é o conjunto de funções afetivas e principalmente o dos sentimentos. Os instintos — como funções que ligam mais diretamente o indivíduo a si próprio – variam  de intensidade, variam no arranjo entre si, conforme os dinamismos da personalidade, e deste modo tendem a levar o comportamento subjetivo do indivíduo a direções diversas e mesmo contraditórias. Portanto, o amadurecimento psicológico implica na subordinação das funções instintivas às funções de sociabilidade. E estas permitirão uma inter-relação harmônica com o ambiente. Referindo-se a esse processo, observa Silveira: "E o desenvolvimento psicológico, paralelo à maturação do sistema nervoso, consite na submissão gradativa e contínua do primeiro grupo (instintos) ao segundo (sentimentos)” (24 — p. 232).

Em suma, todo indivíduo bem adaptado deverá manifestar no comportamento tanto os impulsos da individualidade como os aspectos de sociabilidade. As duas orientações não são contraditórias, mas complementares. Ambas preexistem ao nascimento do ser humano. Manifestam-se e atingem o pleno amadurecimento em fases distintas do desenvolvimento individual. Somente no indivíduo adulto, como ser eminentemente social, os instintos deverão submeter-se aos sentimentos.

Para se dar esta adaptação à realidade faz-se necessária a intervenção concomitante das funções conativas e intelectuais.

A atividade, na acepção de Comte, constitui um setor da personalidade intermediário à afetividade — que estimula a ação e o trabalho mental — e à inteligência, que os orienta. Sem a participação das funções de atividade seria impossível a própria produção mental ou a ação explícita. Portanto, atividade corresponde a um grupo de funções subjetivas que regem o comportamento no meio externo e ao mesmo tempo estabilizam a atenção, permitindo deste modo a realização do trabalho intelectual.

Silveira utiliza o termo conação, adotado principalmente por McDougalI, para representar as funções subjetivas da atividade. Silveira afirma que McDougalI inclui neste conceito a intenção e a espontaneidade do indivíduo que executa a ação, embora deixe de considerar sua participação no trabalho mental, como o fazem Comte e seus discípulos. Mas, de qualquer modo, o termo conação — do latim conatus, que significa executo, isto é, realizo a partir da intenção, de um objetivo — é adequado para traduzir este setor da personalidade, uma vez que se faça essa correção no conceito.

Mead reconhece esta distinção entre a função ativa subjetiva e a atividade explícita: "é preciso insistir em que o comportamento objetivamente observado encontra expressão dentro do indivíduo. Parte dele aparece como atitude ou início dos atos./.-./ O ato manifesto, tal como o observamos, é apenas uma parte do processo já iniciado em plano subjetivo". E em seguida, criticando o behaviorismo, o autor comenta: "Watson deixou de considerar este aspecto do comportamento. No próprio ato existe um campo que não é externo, embora pertencente a ele, e existem características deste comportamento orgânico subjetivo que se revelam através de nossas atitudes, especialmente as relacionadas com a linguagem” (13 — p. 53). Embora o autor não estabeleça distinção entre as funções conativas, ele considera o papel delas no trabalho mental e no comportamento explícito. Afirma ainda Mead: “Se quisermos usar a psicologia condutista para explicar o comportamento consciente, temos de ser muito mais minuciosos que Watson em nossa explicação do ato. Temos de considerar não apenas o ato completo ou social, mas também o que ocorre no sistema nervoso central como elemento iniciador e organizador do comportamento explícito. /... / Existe uma organização nas diferentes áreas do sistema nervoso que será responsável pelos atos /.../ Os estágios posteriores do ato estão presentes já em suas primeiras fases, não apenas no sentido de que eles estão preparados para pôr-se em funcionamento, mas também que permitem o próprio domínio desse processo" (13 — p. 58).

Bínder, em estudo sobre os sentimentos, considera uma fase mais primária do desenvolvimento individual, em que ocorre uma reação puramente instintiva do organismo ao estímulo. As funções instintivas, considera o autor, atuam cegamente, portanto com pouca consideração pela situação objetiva. Em fases mais adiantadas do desenvolvimento, na periferia psíquica — isto é, no conjunto de fenômenos psíquicos sensoriais e motores que permitem o contato do indivíduo com o ambiente — desenvolve-se um sistema coordenador, que permite a adaptação da reação ao estímulo objetivo, através da organização de dispositivos dinâmicos especiais para a situação imediata. Este novo sistema, ao contrário da rigidez das reações impulsivas instintivas, possui imensa flexibilidade. Tal sistema caracteriza, para Bínder. a ação voluntária, intencional, e ele o denominou sofropsique. A regência sofropsíquica permite apreender as relações entre os pensamentos e selecionar espontânea e adequadamente as representações dos motivos e objetivos (66). O dinamismo sofropsíquico postulado por Bínder corresponde à acepção de atividade, como função subjetiva, dada por Silveira.

Em todos os atos humanos, mesmo os mais rudimentares e iniciais, podemos distinguir, como o faz Silveira, o plano objetivo ou de -execução e o subjetivo ou da conação. O primeiro representa a exteriorização do movimento e depende do aparelho periférico da motilidade: preensão e locomoção. As disposições conativas representam os fatores subjetivos e resultam de funções cerebrais. Na conação. Silveira distingue elementos extrínsecos ou móveis afetivos — motivações que estimulam a ação, incluindo os instintos e os sentimentos, e elementos intrínsecos — que constituem as funções conativas propriamente ditas. Distingue, também na esfera conativa, três funções: em primeiro lugar, a que permite a iniciativa para a ação, constituindo, portanto, o elemento subjetivo que desencadeia a ação explícita ou estimula a percepção e o raciocínio. Em seguida, a função conativa responsável pelo bloqueio ou pela moderação da exteriorização explícita. E finalmente a função psíquica que preside a estabilidade, quer dando continuidade aos atos, quer mantendo o raciocínio, ou a observação que se traduz na atenção. Assim, quando o indivíduo toma uma decisão e resolve agir, precisa inicialmente estar motivado afetivamente para realizar o ato, e além disso utilizar os recursos intelectuais para adaptá-lo à realidade: são ambos aspectos extrínsecos, que interferem na conação. Mas, o que permite iniciar o comportamento (estímulo) e refrear ao mesmo tempo os impulsos inadequados (inibição) são as funções conativas. Além disso, ele deverá dar continuidade aos propósitos originários, levando a termo o respectivo comportamento (manutenção). Comte denomina estas funções respectivamente de coragem, prudência e firmeza. Audiffrent afirma: "Toda atividade deve ser dotada de coragem para empreender, de prudência para executar e de firmeza para manter-se" (3 — p. 120).

Ao setor da Personalidade que denominamos conação, os autores em geral se referem como sendo vontade ou atos voluntários. Entretanto a vontade corresponde a um dinamismo subjetivo que embora se centralize nas funções conativas exige o concurso da motivação afetiva e da reflexão intelectual. Assim as funções conativas quando não esclarecidas pela inteligência e ao mesmo tempo submetidas a uma intensa pressão de necessidades afetivas tendem a se expressarem de modo imediato e irracional, sem que seja possível o controle da vontade; um resultado semelhante pode ocorrer quando os órgãos conativos forem facilmente excitáveis, de modo que por menor que seja a estimulação afetiva, ocorre uma reação imediata e imprevisível ao ambiente externo. O desencadeamento impulsivo de atos involuntários ocorre com certa freqüência em epilépticos, conforme teremos ocasião de observar. E, nestes pacientes, as manifestações clínicas predominantes resultam de uma hiper-excitação da função conativa responsável pelo desencadeamento da ação (coragem); e por esta função estar mais diretamente ligada ao órgão de destruição, freqüentemente encontramos casos onde as crises se acompanham de furor ou de agressividade. Entretanto, as demais funções conativas também se apresentam alteradas, ainda que em menor intensidade e em sentidos diversos, traduzindo-se em sintomas tais como instabilidade de atenção, estupor, catalepsia, crises de deambulação.

Assim, para que haja continuidade da ação e a atividade não se tome apenas uma agitação descoordenadora e incoerente, é mister que as duas funções — a que estimula e a que reprime — intervenham sob o ascendente da função que determina a estabilidade. Sem esta harmonia das funções conativas, não seria possível a ligação com a realidade objetiva, nem em termos de motilidade, nem como apreensão dos estímulos externos (atenção).

Laffitte assinala a participação do tônus muscular na atividade: “Toda atividade pode se reduzir a uma contração muscular quando ela estimula, quando ela retém ou quando ela mantém. Graças a esta contração o homem produz ou controla os movimentos" (11 — p. 361-62). A sensação das contrações musculares e dos esforços consecutivos corresponde ao sentido da musculação. Assim este sentido colabora na coordenação dos movimentos necessários à atividade pratica, ao mesmo tempo em que permite a convergência da atenção para o trabalho intelectual.

A interferência das funções da atividade no conjunto dos dinamismos da personalidade permite, portanto: a transformação dos impulsos instintivos ou dos sentimentos em comportamento explícito; a formação de noções e de pensamentos através da estabilização da atenção; e, finalmente, a derivação da atividade explícita para o plano intelectual, tanto na vigília — através de fantasias e devaneios — como durante o sono, originando o sonho.

Em suma, a atividade exteriorizada representa a participação destas três funções — estímulo, inibição e manutenção — em qualquer situação ambiental que solicite a intervenção do indivíduo. E, no comportamento explícito, devemos necessariamente distinguir o nível objetivo — que é influenciado pelos valores sociais, pela aprendizagem, pelas habilidades de coordenação e de execução peculiares ao indivíduo — e o nível subjetivo, que depende da estrutura básica da personalidade humana. Todo ser humano já possui ao nascer as três funções da atividade e este fato é que irá permitir-lhe a adaptação contínua à realidade objetiva. O que vai variar em cada indivíduo será a combinação, o dinamismo dessas funções as quais, conforme as circunstâncias externas e subjetivas, serão mais solicitadas, ou. mais marcante, no comportamento.

Finalmente as funções intelectuais promovem os primeiros nexos subjetivos entre os dados do ambiente e a própria experiência. E com a evolução do processo de amadurecimento biológico e psicológico o indivíduo Já pode estabelecer ligações com a realidade através de concepções lógicas.

A capacidade de simbolização abstraia é fundamental para que se realize plenamente a integração do indivíduo à sociedade. A adaptação intelectual à realidade não decorre apenas da apreciação dos eventos externos e da assimilação dos valores do ambiente, mas fundamentalmente da capacidade humana de reelaborar, de modo original e criador, os dados coligidos e de comunicar o resultado das concepções e o estado subjetivo aos semelhantes. Comte refere-se à superioridade das funções intelectuais nos seguintes termos: "Quanto à vida especulativa seria supérfluo insistir aqui sobre um tipo de superioridade humana tão evidente, a menos que fosse só para diminuir a importância social que a ela se atribui ainda. A necessidade de tal proeminência permanece, todavia, incontestável, pois a sociabilidade de muitas espécies se toma estéril em decorrência apenas da inferioridade mental. Pois a inteligência não é apenas indispensável para esclarecer a atividade, sobretudo coletiva: ela assiste diretamente a sociabilidade, fazendo-lhe conhecer melhor seu principal destino. Ainda que as simples afeições de família possam se desenvolver sem ela, seu auxílio é indispensável para o desenvolvimento completo das emoções sociais propriamente ditas" (9 — p. 634-35).